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O Brasil na imensidão azul

Redação Webventure/ Mergulho

Loic Leferme  campeão mundial de apnéia No Limits (foto: Arquivo Karol dal Toé)
Loic Leferme campeão mundial de apnéia No Limits (foto: Arquivo Karol dal Toé)

“Eu mergulho para procurar Deus.
Se for fundo o bastante, vou encontrá-lo.
Para mim, o mar é uma religião”

(fala do personagem Enzo Molinari no roteiro original do filme “Imensidão Azul”)

Ele permanece lá, calmamente flutuando, com o cabo ao seu redor… como se estivesse esperando alguma coisa. Uma longa forma circula entre a escuridão e a luz da lanterna. É um golfinho, que encosta em Jacques. Outros dois se aproximam… ele assiste a tudo, maravilhado. O golfinho encosta o focinho na mão de Jacques, pronto para levá-lo embora. O mergulhador hesita. E depois larga o cabo e se deixa levar. As silhuetas deles desaparecem na escuridão da noite no fundo do mar.

Esta é a cena final de um filme famoso. E simplesmente deu origem a um movimento mundial por uma modalidade do mergulho: a apnéia, em que o atleta permanece na água apenas com o ar de seus pulmões. Tudo aconteceu em 1988, data do lançamento do “Imensidão Azul”, do diretor Luc Besson. É a adaptação para o cinema, com boas pinceladas de ficção, da história real de dois famosos mergulhadores: o italiano Enzo Molinari e o francês Jacques Mayol. Durante 30 anos eles disputaram a hegemonia no mergulho livre.

Desde as décadas de 40, 50 já havia registros de recordes em apnéia, mas a organização do esporte só aconteceu depois de 88, na França. Hoje há 35 países filiados à associação internacional. O Brasil também ganhou seu espaço. E que espaço: Karol dal Toé é recordista mundial em apnéia estática.

O esporte exige total segurança: um descuido pode resultar na morte, enfatizada pelo filme. “Apagões” momentâneos são considerados até comuns e resolvidos sem maiores dramas se forem seguidas as regras de segurança. Neste Aventura Brasil, Karol também nos ajuda a desvendar os mistérios deste esporte que desafia físico, consciência e coloca o homem em seu estado natural em contato com esse imenso mar.

“Quando estou cansado aqui embaixo,
as sereias me ajudam a sair”

(fala do pai de Jacques Mayol em “Imensidão Azul”)

Em “Imensidão Azul” (Big Blue e, no original, Le Grand Bleu), disponível em vídeo no Brasil, o ótimo Jean Reno faz o papel de Enzo e Jean-Marc Barr é Jacques. Eles nasceram e cresceram numa ilha grega onde o pai de Jacques já mergulhava e foi assim que ele morreu. Anos mais tarde, os dois amigos se encontram: Enzo é o então campeão mundial e Jacques não costuma competir, mas é reconhecido como um dos melhores do mundo. A disputa entre os dois divide as atenções com o romance do personagem Jacques com Joanna (Rosanna Arquette), mas a paixão pelo mergulho prevalece.

Como quase todo filme “baseado em uma história real”, há muitas pinceladas mais carregadas. Enzo Molinari ainda vive. Em “Imensidão Azul”, no entanto, ele comoveu a platéia morrendo durante as tantas tentativas de se mostrar superior ao seu arqui-rival e grande amigo, o francês Jacques Mayol (www.thejacquesmayol.com/mayol.htm). Destaca-se a solidão no fundo do mar, onde o atleta convive apenas com seus pensamentos.

Derrapadas – Essas são algumas inverdades do longa metragem que teve Mayol como consultor técnico e introduziu a apnéia ao mundo e, principalmente, aos jovens. “Claro que o maior impacto foi positivo, pois ele popularizou o esporte”, admite Karol dal Toé, a brasileira que bateu recordes mundiais. “Mas o italiano ainda vive, ele até quis entrar com processo por causa do filme. A disputa entre os dois durou 20, 30 anos. E outra: a norma de segurança número 1 é nunca mergulhar sozinho”, destaca.

O enfoque na competição, entretanto, não é vão. A busca de uma marca, a superação de limites são motores da apnéia. Mayol foi o primeiro homem a ultrapassar os 100m de profundidade na apnéia, em 1976. “Mas há prazer no meio disso tudo. Eu posso mergulhar apenas para apreciar o fundo do mar”, explica Karol, que teve a chance de conhecer o belíssimo tesouro que as águas do Mar Vermelho, no Egito, abrigam.

Tudo por amor – Fascinada pelo filme, lançado nos cinemas quando ela se iniciava no mergulho autônomo (em que se usa equipamento para respiração) e nem tinha conhecido a apnéia, a atleta diz que assistiu a fita todos os 14 dias em que esteve em cartaz. E, falando nisso, confessa que roubou o cartaz do filme. “Eu e uma amiga planejamos tudo, ela era apaixonada pelo ator que fazia o Jacques e eu, pelo mergulho”, conta, rindo.

A apnéia entrou na vida de Karol há apenas três anos. O marido começou a treinar na piscina e a convidou. Ele não prosseguiu no esporte, ela se apaixonou e, persistente, chegou aos recordes e aos principais cenários da modalidade no mundo: França e Egito. A marca mundial mais recente – 6min13 – foi batida no último dia 30 de junho, em Miami (EUA). Em entrevista ao Webventure, Karol dá os detalhes sobre o esporte e suas experiências no fundo do mar.

Webventure O que passa pela sua cabeça no momento em que mergulha até o fim da apnéia?
Karol dal Toé
Eu parto com o esquema na cabeça, olho para trás, lembro tudo o que fiz em treino e sei que serei capaz de fazer na hora em que é pra valer. Em algumas modalidades você se preocupa em contar a pernada, arrumar o corpo. Enfim, o mais importante é pensar em coisas boas.

Webventure Isso inclui outras coisas que não só as tarefas do mergulho?
Karol
Claro. Eu penso muito em música, em frases de neurolinguística. Tem que manter a mente ocupada o tempo todo, senão, já era…

Webventure Em três anos tudo aconteceu com você: num dia descobriu a apnéia, no ano seguinte se tornou recordista mundial, foi para França, Egito… O que explica sua facilidade para conseguir ótimos resultados?
Karol
Disciplina (fora d’água, ela também faz exercícios aeróbicos, anaeróbicos, ioga e treina respiração), treinamento e, claro, o fator genético. Tem um alemão que tem um pulmão com capacidade para 10 litros de ar e, com os treinos, chega a 14 litros. Só que ele consegue ficar sete minutos embaixo d’água. Eu, com capacidade máxima para 6,10 litros, consigo ficar 6 minutos e meio.

Webventure O que ainda falta para você?
Karol
Meu maior sonho é o recorde mundial em lastro variável, modalidade em que a gente desce com a ajuda de um peso (o lastro) e sobe sozinha. Para chegar lá preciso de um apoio maior. Fora isso estamos batalhando pelo desenvolvimento do esporte.

Webventure Quais os melhores locais no Brasil para a prática?
Karol
O litoral paulista tem muitos lugares, Ubatuba é um dos mais freqüentados. Fernando de Noronha (PE) também é muito bom e bonito. O Rio tem Arraial do Cabo, onde realizamos uma das seletivas para o Mundial.

Webventure A última pergunta: apnéia é vista como um esporte polêmico no mergulho?
Karol
São públicos diferentes, mas não há rivalidade ou preconceito. Em números de acidentes, segundo estatísticas de seguradoras de mergulho, há mais no autônomo. Mas é fundamental respeitar as regras de segurança, esta é a maior preocupação. O que mais tem é gente apagando durante brincadeira de apnéia em piscina de clube.

Karol não se cansa de reforçar a importância da segurança para a apnéia. Como outros esportes de aventura, a modalidade às vezes leva o rótulo sensacionalista de esporte que mata, do perigo de ‘apagar’ no fundo escuro do mar e nunca mais voltar à vida… Tudo isso pode ser controlado, segundo a mergulhadora, se regras forem respeitadas.

Cada modalidade da apnéia tem características próprias, e um meio onde é praticada. São elas:

  • Estática (piscina) o que vale é quanto tempo se fica sem respirar, não importando a profundidade.

  • Dinâmica (piscina) – vale o percurso horizontal mais longo a ser feito. Pode ser feita com ou sem nadadeira.

  • Lastro constante (mar/água doce) – o que importa é a profundidade. O mergulhador usa um lastro, no caso uma espécie de cinto cujo peso varia de acordo com a roupa. Ele desce e sobre com suas próprias forças.

  • Lastro variável (mar/água doce) – o que importa é a profundidade. O mergulhador desce com a ajuda de um peso (máximo de 30 kg), o lastro, no caso chamado de sledge. E sobe sozinho.

  • Imersão livre (mar/água doce) – sem nadadeiras, o mergulhador usa a força do braço.

  • No Limits (mar/água doce) – o que importa é a profundidade. O mergulhador usa um sledge com o peso que quiser, desde que consiga compensar a velocidade. Para voltar à tona, enche um balão e sobe com a ajuda dele.

    Respeite o limite – Em todas elas, o principal, segundo Karol, é ir com calma. É dela a frase: “Apnéia é uma escola de paciência”. É preciso conhecer seus limites e jamais forçá-los. “Se eu estou descendo e, de repente, sinto aquela contração no diafragma, típica de quem quer respirar, nunca sigo em frente, senão eu sei que vou apagar”, ensina. “O apagamento torna-se um risco a partir dos sete, dez metros”.

    Mergulhar sozinho, nunca. E sempre com outras pessoas do seu nível. “É importante ter todo o aparato para salvamento: barco, oxigênio, celular”, diz a atleta. No caso de uma performance, informe o grupo do tempo que você vai ficar mergulhado. Por meio de um cabo, ao qual o mergulhador está conectado, uma pessoa consegue “sentir” quando ele atingiu o ponto. “É o cabo da vida”, define Karol. Quem está mergulhando junto sabe que, se o atleta não responder com o sinal combinado ao fim do tempo, deve tocar nele e levá-lo para a superfície.

    Socorro – “Se precisar socorrer, nada se faz dentro d’água. É preciso ir à superfície, tirar a máscara. A gente costuma soprar o rosto da pessoa, erguer o queixo para abrir as entradas de ar”, descreve Karol. “Caso o estado seja mais grave, iniciam-se as técnicas de RCP, que incluem respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, etc.”

    Consciente desses riscos, qualquer um pode começar na apnéia, desde que tenha a resistência física. A recordista dá a dica: “Quem quiser tentar pode começar treinando em piscina, com um grupo de interessados. Se quiser entrar em contato com a gente, para saber dos eventos e novidades, é só acessar o site www.aidabrasil.com.br. Acredito que daqui pra frente vamos conhecer muitos bons apneístas do Brasil”.

    Karol dal Toé tem patrocínio de Mormaii, Yoga Shala e apoio da Pino Neoprene.

    Este texto foi escrito por: Luciana de Oliveira

    Last modified: julho 27, 2001

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