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K2: brasileiro vence a polêmica montanha

Redação Webventure/ Aventura brasil

As feras do K2 2000: Konrad Auer  Niclevicz  Hans Kammelander  Marco Camandona e Abele Blanc (foto: Arquivo Waldemar Niclevicz)
As feras do K2 2000: Konrad Auer Niclevicz Hans Kammelander Marco Camandona e Abele Blanc (foto: Arquivo Waldemar Niclevicz)

Depois de 8.611m, encarando avalanches, ventos fortes, rampas escorregadias que podem terminar em abismos, neve até o joelho, buracos profundos camuflados no gelo, tempestades, chega-se ao cume do K2. É como um fruto proibido, na segunda maior árvore de terra e gelo do mundo em altura, o K2 só perde para o Everest (8.848m). Quase metade dos que tentaram, morreram.

O Brasil chegou lá em 29 de julho passado, com o alpinista Waldemar Niclevicz. Ele precisou de três tentativas para ‘domar’ a fera, ao lado de dois alpinistas italianos. Controvertido, ele é capaz de arrebanhar fãs até mesmo fora do país, com seu “K2 On-Line”, e irritar certos montanhistas que o consideram exibicionista e dizem que é um cliente de meras expedições comerciais.

Mas ter tocado aquele fruto proibido consagra Niclevicz de maneira inegável. Ele tornou-se o primeiro do país a alcançar o cume e sem uso de oxigênio, o que é considerado uma estrela a mais no mérito dessa escalada para a comunidade dos montanhistas.

Neste Aventura Brasil, conheça o que faz da “montanha da morte” tão sedutora, a ponto de disputar com o Everest o troféu de “escalada mais importante”, e como Niclevicz finalmente fez este cume.



“Chegamos aqui hoje bem cedo, às 9 horas, em meio a uma manhã de raríssima beleza. Num céu de azul profundo, onde não havia sequer uma nuvem, o K2 nos dava as boas vindas nos revelando toda a sua imponência”.
(trecho do diário de Niclevicz, 16/06/2000)

Lendo o trecho acima, parece que Niclevicz tinha pela frente uma bucólica escalada em meados de junho passado. Uma cena um tanto estranha para o que é conhecido como “a montanha da morte”. E não demorou muito para o K2 mostrar sua verdadeira cara. “O mau tempo voltou com toda a sua força. Esta última noite nossa barraca do acampamento 1 (6.050m) não parou de ser sacudida pelo ventou um minuto, enquanto a neve caiu sem parar noite adentro. Continua nevando até agora (16h30) aqui no base e nuvens preenchem todo o ambiente, deixando a visibilidade no máximo em 100 metros de distância”, escreveu, 15 dias depois.

As estatísticas assustam no K2: só 189 pessoas (dado do Everest News até 31 de julho último) conseguiram chegar ao cume contra mais de mil no Everest; 54 já morreram tentando. Além de problemas com a altitude, o que mata na montanha paquistanesa é instabilidade do clima e as dificuldades técnicas. Por isso, o K2 ganhou um apelido para se destacar do Everest, que é a maior montanha do mundo: a montanha mais difícil do mundo.

Nos primódios – A primeira tentativa de domar essa fera aconteceu em 1902, com um grupo de seis alpinistas europeus, liderados pelo inglês Eckenstein. O plano era escalar pela face sudeste, mas depois eles perceberam que o lado oposto era mais “fácil”. O máximo que alcançaram foi 6.600 metros, um marco para a época, considerando que não tinham qualquer noção das dificuldades que o K2 guardava.

Em 1954, o italiano Ardito Desio, na sua segunda tentativa de conquista (a primeira fora em 1929) mapeou a montanha e fez um planejamento de guerra para atingir aquele objetivo. Ele dizia que a única chance de sucesso dependia de uma disciplina militar e de cada alpinista deixar de lado suas ambições pessoais pelo benefício da expedição.

Os alpinistas escolhidos passaram por exames médicos, cabine de pressão e teste prático no Mont Blanc, na França. Acertado o uso de oxigênio extra, a rota escolhida foi pela Esporão dos Abruzzos e o mau tempo estava presente desde o início, no mês de julho. No dia 28, quatro homens alcançaram o acampamento VIII e dois fizeram o ataque ao cume da manhã seguinte. A apenas 200m do cume, o oxigênio acabou. Foi preciso decidir rápido: continuar assim mesmo ou engrossar a lista dos que falharam? Eles arriscaram e chegaram ao cume. Os conquistadores do K2 foram Lino Lacedelli e Achille Compagnoni.

“Mais uma vez fui obrigado a respeitar forças infinitamente maiores do que a minha. O K2 está num momento de fúria, mas sei que posso ousar novamente. Um dia voltarei.” (trecho do diário de Niclevicz de 2/08/1999)

Em 1998, Niclevicz decidiu tentar o K2. O alpinista tinha rompido a barreira do anonimato conseguindo ser o primeiro brasileiro a escalar o Everest, ao lado de Mozart Catão, em 95 numa expedição polêmica, quando na chegada os dois trocaram farpas porque, segundo Catão, Niclevicz dizia que chegou antes dele ao cume.

Talvez por isso, o paranaense tenha feito expedições acompanhados apenas de alpinistas estrangeiros depois daquele episódio. O alvo passou a ser o K2. A primeira tentativa foi em 98 e todo ano o brasileiro foi ao Paquistão. Em todas as tentativas, a justificativa para que Niclevicz deixasse a montanha sem chegar aos 8.611m foi o mau tempo.

Momento de desespero – Em 98, houve morte na equipe. “Quando estávamos a 8.040m, provocamos uma avalanche ao caminhar sobre placas de neve fofa. Foi um momento de desespero. Se não tivéssemos travado nossa queda com os piolets, teríamos sido levados para o abismo. Quando terminou, o medo estava estampado na cara de cada um”, contou à Webventure na época. No ano seguinte, o brasileiro nem chegou aos 8 mil metros e houve outras mortes na montanha. Há três anos ninguém fazia o cume do K2.

Com certeza, duas histórias assombravam os que pensavam em desafiar a montanha e suas tempestades de neve. Em 86, 27 alpinistas chegaram ao cume – 13 morreram. Na lista Liliane Barrard, a primeiras mulher no topo do K2. Dez anos mais tarde, a montanha “engoliu” outros sete alpinistas, numa situação semelhante. Famosos como Alison Hargreaves, Rob Slater e Bruce Grant foram pegos por um vento fortíssimo de 100km/h na descida para o cume.


“Ao sair daquele túnel vertical quase sem fôlego, fomos golpeados pelo vento que soprava do outro lado do Esporão dos Abruzzos. A regra era não ficar parado para não congelar. Subindo mais uns 100m, encontramos o verdadeiro acampamento 2, que mais parece um grande cemitério de barracas destruídas pelo vento, paisagem medonha” (trecho do diário de Niclevicz, em 25/06/2000)

“Por fim, o verdadeiro o cume do K2, lá no fundo, muito longe, eram 15h30, muito tarde. A neve, sempre na altura do joelho, atrasava nossa progressão, além do mais, estávamos sem o uso do oxigênio artificial” (29/07/2000)


Quase 100 anos depois da expedição vitoriosa de Ardito Desio, o Brasil chegaria ao cume do K2 na insistência de Niclevicz. A história se repetia: na etapa final, ele, também cercado por italianos: o companheiro de todas as tentativas Abele Blanc e Marco Camandona. O trio estava sem oxigênio artificial. Não que o estoque tivesse acabado, como aconteceu com Desio. O brasileiro conta que, por causa de um carregador que precisou descer, eles optaram por levar apenas o necessário. E, no caso de Camandona e Blanc, garrafas de oxigênio eram supérfluas. “Eu tinha planejado usá-las. Mas já que eles iriam sem, também deixei as minhas na montanha”, conta Niclevicz.

A investida começou em 27 de julho, passado quase um mês da época mais crítica de mau tempo nesta temporada. Mas como sempre, o perigo rondava. E, claro, na descida. Niclevicz, “um pouco tonto pelo ar rarefeito”, chegou ao cume no dia 29 um dia após a data da conquista – por volta das 18h (horário local). Camandona havia desistido pouco antes, pois sentia muito frio o agasalho mais quente havia sido considerado também “supérfluo”. O brasileiro e Abele iniciaram a descida após as 19h, já um horário avançado.

Não vou descer – “Havia uma descida com angulação de 60 graus e o gelo duro, onde muita gente já escorregou e morreu. O Abele queria que eu descesse, chegou a me bater com o piolet e doeu… Disse a ele que seguisse porque eu iria ficar abrigado numa greta esperando amanhecer, pois não queria morrer numa dessas”, lembra Niclevicz.

Ele achou que Abele havia confirmado que o acampamento estaria a poucos metros dali. Enquanto passou a noite afundado naquele buraco de gelo, Niclevicz via luzes e gritava por socorro, maldizendo os companheiros que nunca mais vieram buscá-lo. Mas aquele não era o acampamento de sua expedição e sim um acampamento coreano. Sem resposta, Niclevicz percebeu que estava em apuros.

“Eu não pensei em mãe, em nada… nessas horas você tem de concentrar em sair daquela situação. No delírio, eu pensava: ‘vou passar um e-mail e daqui a pouco vou receber uma resposta’”, conta o alpinista que durante toda a escalada mandou relatos via internet.

Outro cuidado era não dormir. “Podia ser que eu caísse e rolasse montanha abaixo”, pensava. Quando amanheceu, o brasileiro percebeu que a escolha não tinha sido tão má. O horizonte estava limpo e ele ainda encontrou a corda que havia fixado a caminho do cume. Ao chegar no acampamento, Abele cuidava de Camandona, que apresentava sinais de congelamento nas mãos. “Nunca mais volto ao K2”, decidiu Niclevicz.

Chegar ao cume do K2 foi um marco para Niclevicz e o montanhismo brasileiro. No cenário mundial, ele foi o alpinista de número 176 a chegar aos 8.611m. Abele, por sua vez, atingiu seu 11º pico com mais de 8 mil metros só existem 14 no mundo.

O diferencial do brasileiro neste expedição e na imagem perante os colegas foi a tecnologia. “Já recebi alguns convites para fazer parte de outras expedições internacionais. As pessoas querem alguém que domine internet, telefones via-satélite para que todos possam acompanhar a escalada. Na nossa equipe eu era o único que sabia lidar com aqueles aparelhos e que tinha paciência, pois sabia da minha obrigação de escrever mesmo após um dia extenuante”, conta Niclevicz.

O acompanhamento on line de escaladas já é mais comum nas expedições americanas, equipadas com o que há de melhor no mercado. E, percebendo o filão, Niclevicz apostou neste diferencial desde o ano passado. Em 2000, seus relatos estavam não só em seu site pessoal (www.niclevicz.com.br) como nos de seus patrocinadores (TAM, O Boticário, Sports Já! e Net Virtua) e até no site mais famoso entre os montanhistas, o Everest News (www.everestnews.com).

Espaço – Além de saber o que Niclevicz fazia a mais de 8 mil metros, no Paquistão, os internautas puderam trocar mensagens com o alpinista. Outra opção era acompanhá-lo todo domingo pelo Fantástico, na TV Globo. Na volta ao Brasil, o alpinista lotou uma sala de convenções de um hotel em SP de jornalistas interessados em sua história. Como pouquíssimos no ramo de aventura nacional, ele sabe ocupar espaço na mídia e, na coletiva, aproveitou para lançar mão do lado “gente como a gente” anunciando sua intenção de casamento com a paranaense Adriana Carioba.

Mesmo com tantos holofotes, a escalada não vai deve deixada de lado. Niclevicz já entregou um novo projeto aos patrocinadores, que só vai revelar mais tarde. E também marcou para o ano que vem a seleção de brasileiros para, enfim, uma expedição “caseira”. Um dos pontos de honra para Niclevicz é voltar ao Everest para escalar desta vez sem oxigênio, como a ‘comunidade do montanhismo’ gosta. “Não iria fazer isso para só agradar aos outros, mas é bom saber que todos estão satisfeitos com você”.

Este texto foi escrito por: Luciana de Oliveira

Last modified: agosto 25, 2000

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