Foto: Pixabay

Aventura pela América do Sul de picape.

Redação Webventure/ Offroad

Rodar a América do Sul numa picape foi a ‘viagem de férias’ que o jornalista e fotógrafo profissional Lycurgo Querido planejou no verão passado. Mais do que um passeio, a idéia tomou forma de aventura quando ele e o primo, Davis começaram a rodar pelos vizinhos do Brasil sem lugar certo para dormir e comer. Pelo retrovisor passavam belezas do gelo e do deserto.

Preparando-se para a maior aventura de sua vida, Lycurgo, que mora em Taubaté (SP), fez em dezembro de 97 uma viagem de 23 dias, sozinho, até a Terra do Fogo. Primeiro passou por Foz do Iguaçu (PR), depois pela Cordilheira dos Andes. “Desci o Chile inteiro até Ushuaia e a Patagônia, cerca de 15.100km”, conta.

A experiência rendeu belas fotos que Lycurgo já expôs algumas vezes e aumentou a vontade de conhecer outros países ‘hermanos’. Mesmo sem patrocínio que bancasse toda a empreitada, o fotógrafo convocou o primo Davis Querido para se revezar com ele na direção da picape e pegou a estrada um ano depois. De Taubaté, os dois seguiram para Brasília (DF), Belém (PA), Manaus (AM), Belém (PA), Boa Vista (AP) e, enfim, a Venezuela.

No meio do caminho, uma balsa clandestina para chegar até Belém. Foram cinco dias pelo Amazonas, dormindo em redes e convivendo com moradores locais. “É uma experiência indescritível. Aquele calor terrível de janeiro, a balsa lentíssima pelo rio, as redes muito perto umas das outras e toda aquela gente como se estivesse de mudança, levando tudo o que tinha direito”, relata. “Todo dia a gente acordava cedíssimo com uma música evangélica no último… Era uma senhora na rede ao lado, que ouvia essas músicas no rádio o dia inteiro.”

Enfim, o off road
Primeira fronteira, primeira encrenca com a polícia federal. “Eles queriam um documento do Detran dizendo que não constava nada de errado com o veículo. Ninguém tinha me falado nada sobre isso quando me informei sobre a viagem. E o Detran mais próximo ficava 230km atrás…”, lembra Lycurgo. “Acabaram deixando a gente passar a noite na Venezuela. Depois voltamos e conseguimos a carta.”

Depois veio a Colômbia, o país mais temido pela dupla por causa das notícias freqüentes de drogas e violência. “Tirei a má impressão, fomos muito bem tratados por sermos brasileiros. Passamos uma noite em Cali, que cidade linda!”, descreve. “O único lugar que cai bem naquela imagem que a gente tem da Colômbia é Bogotá. Ali os soldados andam com metralhadora na rua, tem muita gente louca perambulando por ali. Me lembro que às 7h vimos um homem passeando com o cachorro e jogando o bicho em cima de um mendigo que dormia no chão.”

Lycurgo e Davis deixaram a Colômbia dois dias antes do terremoto que abalou o país, seguindo para o Equador. “O Exército equatoriano parou nosso carro seis vezes em dois dias, para dar geral. Mas Quito é uma cidade muito bonita, bem-estruturada, dá para morar lá.”

A adrenalina subiu quando chegaram ao Peru. “Na fronteira, a picape foi imediatamente cercada e dez caras corriam sem parar atrás do carro, batendo na lataria e gritando, pedindo carona, dinheiro… Não dava pra acelerar porque a estrada estava tomada por barracas de camelôs”, lembra o fotógrafo. Ele estacionou em frente a um posto policial e deixou Davis tomando conta do carro. O assédio continuava. E para piorar, os dois usavam uma preciosa camisa da seleção brasileira. “A gente nem se tocou do que isso significava quando ele vestiu”, admite Lycurgo.

Salvos pelo café
A dupla foi salva pelos sacos de café que o fotógrafo levava no porta-malas para ‘agradar’ a polícia e qualquer pessoa que pudesse ameaçá-los. Foram 10 sacos em toda viagem. ‘Salvos’, os aventureiros puderam curtir a paisagem de deserto e mar pela estrada peruana. Muitas vezes as dunas invadiam a estrada. Em Cuzco, off road de verdade. “A estrada não era asfaltada, rodamos 500 km em 13 horas, em meio a atoleiros, atravessando rios rasos. O lugar era deserto, mas quando vimos a neve, foi recompensador”, lembra Lycurgo. “Paramos um pouco de rodar para ir até Machu Picchu.”

Em Nasca, eles passaram a noite num hotel com corredores sem teto, “curtindo o céu estrelado num dos locais mais bonitos por onde passaram”. E visitaram as múmias de mais de 2 mil anos expostas em um cemitério local. De avião sobrevoaram as famosas ‘Linhas de Nasca’, que formam desenhos gigantescos no chão.

Eles começaram a sofrer com altitude na Bolívia, quando ultrapassaram os 4 mil metros. “Dormimos num hotel perto do lago Titicaca. À noite eu acordava com falta de ar por ter me mexido na cama”, diz. A próxima parada foi na fronteira com o Chile, “a mais severa de todas”.

De 4.200m, a dupla desceu ao nível do mar chegando ao deserto do Atacama. “Passamos três dias em São Pedro de Atacama vendo pinturas primitivas, o salar, o lago dos flamingos… O lugar é belíssimo”, descreve o fotógrafo.

Correndo atrás
De volta à Cordilheira dos Andes, no Chile, eles seguiram até a Argentina, parando para visitar o Aconcágua. Depois foram a Buenos Aires, Montevidéo, chegando à fronteira com o Paraguai. Mais aventura: “no meio da estrada, o vento estava fortíssimo e arrancou a capota do carro. Tivemos de voltar e sair correndo atrás dela. Amarramos do jeito que deu e seguimos viagem.”

De Assunção (PAR), Lycurgo e Davis foram para Foz, outra vez, depois Maringá (PR) e voltaram para casa. A viagem ganhou o nome de ‘Capitais sul-americanas’, mais propício para atrair futuros patrocínios e exposições. Mas mesmo tendo de bancar próprias aventuras, Lycurgo não deve parar por aqui. “Já estou planejando outra viagem. Provavelmente visitarei a capital de todos os países da América, com a inseparável picape, claro.”

Este texto foi escrito por: Webventure

Last modified: outubro 5, 1999

[fbcomments]
Redação Webventure
Redação Webventure