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Southern Traverse

Redação Webventure/ Aventura brasil, Corrida de aventura

EMA Brasil vira Brasil 2.000 para o Elf (foto: Arquivo pessoal)
EMA Brasil vira Brasil 2.000 para o Elf (foto: Arquivo pessoal)

por Luciana de Oliveira (luciana@webventure.com.br)

Raid Galouises, Eco-Challenge, Southern Traverse, Best of East… São muitas as corridas de aventura, mas quase todas possuem algo em comum: têm sido dominada por neo-zelandeses. Mais: a própria modalidade, um conjunto de desafios a ser superados em equipe no menor tempo possível, foi criada neste pequeno país, formado por duas ilhas no meio do distante oceano Índico. Afinal, o que é que os neo-zelandeses têm?

Oito brasileiros foram resolver esta questão há 15 dias, participando do Southern Traverse, uma das corridas mais bem conceituadas do mundo, disputada desta vez ao redor da cidade de Nelson, na ilha Sul da Nova Zelândia – quando acontece ao Norte, chama-se Northern Traverse. Nenhuma surpresa: as seis primeiras equipes eram da casa; a sétima era mista de norte-americanos e neo-zelandeses. Mas o Brasil, com duas equipes – EMA Brasil e EMA Light – chegou ao final com a primeira. E trouxe muita história pra contar e lições para ensinar.

“Lá, corrida de aventura é um estilo de vida. O governo está engajado. É tudo perfeito: os mapas são atualizados, não há nem equipe médica porque ninguém se machuca”, adianta Alexandre Freitas, pai da primeira corrida de aventura do Brasil, a EMA, que foi ao ST pela segunda vez. “Terminar a prova foi uma grande vitória. O tempo ajudou, tínhamos mais experiência e, principalmente, união.”

Clima, experiência e união são o suficiente para superar 40km de caiaque, 284 km de mountain bike, 27km de rafting e 82km de trekking, com direito a rapel? Confira a resposta neste Aventura Brasil.

Não deu pra descansar nem um mês. Alexandre Freitas organizou e Júlio Pieroni, Eduardo Coelho, Eleonora Audrá, Karina Bacha, Gisele Volpi e Marcelo Maciel competiram na Expedição Mata Atlântica até o dia 23 de outubro. No último dia 21, estavam na Nova Zelândia, prontos para mais uma aventura. Marcelo, Alexandre, Júlio e Eduardo formavam a equipe EMA Brasil. As mulheres, mais Lisboa, eram a EMA Light. “A gente montou a equipe uma semana depois da EMA”, conta Eleonora, a Nora. “Eu conhecia a Gisele e a Karina, fui apresentada ao João na hora de montar o time. Estávamos tão empolgados com a participação na EMA que não queríamos mais parar e o convite para Southern Traverse veio ao encontro dessa adrenalina, dessa paixão.”

“Eu já tinha ido duas vezes, mas não conseguíamos terminar. Então era uma questão de honra chegar ao fim neste ano”, explica Marcelo, que na EMA participou da equipe Pedal Power, nome de sua loja de bikes. Na corrida brasileira, em 98, eles ficaram em segundo lugar, logo atrás da Nova Zelândia. Neste ano, foram terceiros, atrás da equipe de Karina, a Lontra Radical, e da campeã Quasar. Marcelo sofreu boa parte da corrida com problemas nos tendões.

“Disse isso aos meus companheiros. Estou machucado, não sei se vou agüentar… Eles encaram isso numa boa.”

Ânimos refeitos, todos largaram junto aos outros 184 competidores numa manhã na praia de Pohara, para os 40km iniciais de caiaque. Mar calmo, temperatura agradável… a primeira etapa do ST estava mais para turismo. “A paisagem era belíssima, aquela água azulzinha. Deu pra curtir bastante o visual, o que não acontece normalmente”, conta Nora. Mas foram seis horas remando sem parar. Era só o começo.

“Corrida de aventura é equipe. Esta é a graça”, resume Marcelo Maciel como quem aprendeu direitinho a lição. Não demorou muito para que o cansaço da EMA saísse da lembrança para tomar conta do corpo do brasileiro. Depois do trecho de caiaque, seguiu-se 55km de mountain bike entre a serra Takaha e Cobb, passando por fazendas. “Havia muitas subidas, bastante íngremes e longas. Meu altímetro registrou uma variação de 1.500 metros entre subidas e descidas”, conta Alexandre. “Cada um escolheu seu caminho: tinha uns em que dava para pedalar e só se carregava a bike em alguns trechos; outros em que só dava para levá-la nas costas”, completa Nora.

“O que eu estou fazendo aqui?”, perguntava Marcelo para si mesmo, em silêncio. Já exausto, não via a hora de encerrar a pedalada, mas tentava não demonstrar desânimo. No fundo, tinha quase certeza de que abandonaria a prova. “Isso é terrível porque você responde pela equipe. Se eu sair, acabou… Este aspecto é o que mais me atrai na corrida.”

Às 23h, Marcelo chegou à área de transição para o trekking. Naquele momento decidiu-se o destino da EMA Brasil. “Ou eles me pressionavam para andar rápido ou me deixavam à vontade para descansar. Sabia que ia acabar ficando de fora”, lembra Maciel. “Fizemos o certo: deixamos ele dormir, era lógico que ele iria melhorar. Se a gente o apressasse não iria adiantar nada, ele ia pifar. E, sem ele, seríamos desclassificados”, diz Alexandre. “É isso que algumas equipes aqui do Brasil não entendem, não adianta querer fazer valer a sua vontade e ritmo, o segredo da corrida é seguir sempre o mais lento.”

Para quem chegou com calafrios, Marcelo se viu como novo após 2 horas de sono. Estava pronto para seguir na prova. Ponto para a união e a experiência.

Drama, parte 2

No dia seguinte, a EMA Light passaria pelo mesmo drama. Antes, houve um longo trekking, com as duas equipes juntas. “Quando o Marcelo melhorou, saímos juntos para o trekking de 26km pelo monte Arthur, encerrando numa floresta. Foi um dia inteiro encarando chuva, neve, subidas… “Puxado, mas muito bonito. Mas percebemos que tinha algo errado. O Lisboa começou a sentir o cansaço, fiquei para trás para acompanhá-lo”, conta Nora.

Pouco antes de encerrar a etapa, as duas equipes se separaram. “Já estávamos na mata e, por causa do Lisboa, a gente andava e esperava, andava e esperava. Vimos que a EMA Brasil queria apertar o passo. Deixamos que fossem”, lembra. Nora relata que, na mata fechada, a exaustão de Lisboa só aumentava. “Conversamos muito com ele, insistindo que teria de caminhar até o final, já que não era possível ser resgatado ali. Dizia: Lisboa, a gente tem que chegar antes que anoiteça.”

Deu certo. A EMA Light chegou à transição às 18h do segundo dia de prova, para o seu momento decisivo. “O Lisboa tinha decidido que não ia continuar. A gente pôs na cabeça que tinha de terminar a prova grande (principal) e começou a se preocupar com isso, pressionando, apressando um ao outro. Lógico que, neste ritmo, o Lisboa ia desistir”, avalia Nora. “Acho que se a gente tivesse descansado, ele iria melhorar. Se nos propuséssemos a diminuir o ritmo, chegaríamos lá. Mas não…”

O time acabou. Gisele ainda faz o trecho seguinte, de bike, com um membro da equipe de apoio, mas foi levada pela organização a abandonar a prova. Então, a EMA Light passou a ser o apoio. “Viramos EMA Brasil Futebol Clube, foi divertido acompanhá-los vendo tudo pelos bastidores”, resume Nora.

Enquanto a EMA Light se desfazia, a outra equipe brasileira percebeu que teria grandes chances de concluir o ST. “Não pensamos nisso desde o começo. Primeiro, vencemos as etapas, uma a uma. Lá pela metade é que começamos a pensar em competição”, ensina Alexandre. Passados os 101 km de bike, partiram para o trekking de 40km, em Nelson Lakes. “Foram 30 horas, dia e noite, passando por cordilheiras, com um rapel no fim”, lembra Marcelo.

“Um dos trechos foi muito difícil, era uma descida com pedras soltas. Foi aqui que eu dei a minha baixa, segurei o ritmo porque não tinha tanto equilíbrio para descer”, explica Alexandre. “E pensar que os neo-zelandeses descem aquilo ali correndo, de tão acostumados. Por isso digo que ali corrida de aventura é um estilo de vida. Os caras falam: ‘vamos correr hoje’ e saem se equilibrando pelas guias ou treinam nas correntes dos estacionamentos, como equilibristas de circo. Se o sujeito faz isso aqui no Brasil é chamado de maluco.”

Na floresta, o que parecia ser o maior desafio na parte de navegação. “Não vou dizer que foi fácil, mas os mapas são muito precisos, as referências estão lá, para você ter certeza de que está no caminho certo”, diz Marcelo, responsável pela navegação da equipe, com o apoio de Alexandre. O segundo ficou impressionado com os “huts”, casinhas de madeira que ficam nos parques. “No mapa, está assinalado que existe uma naquele local. Quando você chega lá, a casa está no mesmo lugar. Aqui no Brasil, na EMA, por exemplo, como não há mapas atualizados você diz que vem uma casinha e chega lá a mesma já foi engolida pela selva há anos…”

Aprendendo com eles –

Nos huts, era possível descansar num dos inúmeros beliches, deixados ali pela administração do parque para abrigar os visitantes. “E antes de sair a gente ainda cortava lenha para deixar para a próxima equipe, a fim de que eles não tivessem que procurar lenha de madrugada, por exemplo. Não era nem questão de educação, era praxe”, conta Alexandre.

Depois do trekking, o desafio era voltar para a bike e pedalar mais 40km numa estação de esqui, a Rainbow. Terminado o percurso, o que vinha pela frente dependia do tempo da equipe. Quem chegasse até uma determinada hora, faria um rafting e um trekking, fechando a prova. Os demais fariam um trekking rápido e outro trecho de bike. Ambas as opções totalizavam 440km. “Só os neo-zelandeses fizeram o rafting, aliás a gente nem os via, de tão adiantados”, recorda Alexandre.

Mais uma vez sobre duas rodas, os brasileiros encarariam a última noite do ST. “Chegou uma hora em que eu não agüentava de sono, quase caí da bike. Paramos num celeiro para descansar”, conta Marcelo. “Foi aí que vimos uma equipe de meninas passar cantando. Pensamos: é isso. Levantamos e apelamos para todas as músicas que conhecíamos.”

De longe, dava para reconhecer a equipe brasileira: “Fuscão preto/ Você é feito de aço…” Entre Fusca e Ferrari, a EMA Brasil teve pernas para cruzar a linha de chegada pela manhã, o 24º time entre 25 que concluiram o ST.

Chega de corridas – por este ano. Mas fora das trilhas, eles já batalham pela participação na próxima, o Elf Authentique Aventure , que acontece no Brasil, em abril próximo. A EMA Brasil deve virar Brasil 2.000, com Simone Maciel em lugar de Júlio Pieroni, já que é obrigatório o time misto. Já a EMA Light terá Karina com a Lontra Radical – que carimbou o passaporte para o Elf com o 2º lugar na EMA – e uma equipe feminina encabeçada por Nora.

“Já tínhamos a intenção de ter uma equipe feminina do ST, mas faltou uma menina. Acho que as mulheres se dão muito bem neste tipo de desafio, elas são mais resistentes porque seguram mais o ritmo. Os homens já vão para o esforço total e se desgastam antes”, analisa a atleta. No Elf, terá a seu lado as amigas Ariane, Patrícia e Sílvia. “A gente se conhece bem. Este foi o erro na EMA Light: ser montada às pressas, sem que gente tivesse noção do ritmo um do outro.”

Jogando em casa

Com tantas lições aprendidas, quais as chances do Brasil no Elf? “Os brasileiros têm a vantagem de falar português e estar acostumados ao calor – a prova será no Nordeste”, arrisca Marcelo. “Esses serão os únicos fatores favoráveis a gente. No mais, os estrangeiros, principalmente neo-zelandeses, estão muito à nossa frente. Como a gente a eles quando o assunto é futebol.”

Não é só o Elf que pode sofrer influência da experiência adquirida pelos brasileiros na Nova Zelândia. Alexandre pretende importar algumas novidades para a EMA. “Achei o máximo o PC remoto. Não é um posto com fiscais, mas uma placa, por exemplo. A organização dá as indicações e pergunta: ‘O que está escrito na placa?’ Isso obriga você a passar lá, pois a resposta é cobrada no PC seguinte. Acaba aquela história de ‘cortar caminho’ pela estrada para não pegar determinado trecho difícil. Isso eu vou levar para a EMA.”

Este texto foi escrito por: Webventure

Last modified: dezembro 1, 1999

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