Webventure

Patricia Croci fala sobre a nova Expedição Mata Atlântica e a recuperação de Alexandre Freitas


Alexandre Freitas no comando da EMA (foto: Arquivo Webventure)

Em outubro de 2002 a história das corridas de aventura no Brasil sofreu um baque: naquele ano, o pai do esporte no país, Alexandre Freitas, fora infectado por um parasita, provavelmente através da ingestão de alimento cru enquanto competia numa prova nas Ilhas Fiji, sul do Oceano Pacífico. O pequeno organismo se alojou no tronco da medula de Alexandre, destruindo o seu corpo: depois de alguns meses na UTI, só restava ao atleta os movimentos dos olhos e a sua consciência, que felizmente se manteve intacta.

Agora, quase 10 anos depois, o organizador da Expedição Mata Atlântica a primeira prova de grande porte no Brasil e, até 2002, a principal voltou à organização de eventos. Semana passada foi anunciada a EMA MixTerra, uma competição mista de moutain bike e corrida que vai rolar no dia 20 de novembro, na cidade de Itu (SP). A seguir, Patricia Croci braço direito de Alexandre nas organizações das antigas EMAs fala ao Webventure sobre o renascimento da marca e o processo de recuperação de Alexandre.

Como surgiu a ideia de renascer a EMA?
Desde que aconteceu o incidente em Fiji, o Alexandre não ficou ausente do esporte. Ele sempre teve vontade de voltar, mas não tinha condições físicas. No finalzinho de 2003 ele começou a se recuperar e voltou a treinar. Hoje, ele ainda está na cadeira de rodas, não enxerga muito bem e tem dificuldade para falar, mas está envolvido com o segmento, querendo saber o que está acontecendo, participar de alguma forma. Já a vontade de organizar a prova surgiu no começo desse ano, quando ele se sentiu seguro para investir novamente na história. Ele me chamou em fevereiro e, em princípio, iríamos apenas fazer uma corrida de montanha. Mas fomos conversando e ele foi se animando para realizar uma de bike. O Alexandre acha que o mercado de esportes de aventura deu um boom em 2005 e 2006, mas agora tem poucas provas acontecendo, com eventos sem premiação. Nós queremos entrar para tentar atrair mais pessoas. Vamos fazer outros eventos que trabalhem as habilidades existentes em uma corrida de aventura, mas por enquanto não vamos fazer uma corrida de aventura.

Como vai ser a competição?
Ela terá 40 quilômetros: 25 de bike e 15 de corrida. Ainda não estudamos o calendário, mas desejamos ter quatro etapas no ano que vem. O que estamos fazendo agora? Na verdade, ficamos 10 anos fora do mercado e 10 anos é muito tempo. Temos de começar tudo de novo. Então montamos a prova e agora estamos atrás de equipamentos para a estrutura. O Alexandre sempre priorizou dar todo o suporte aos atletas.

O que a prova vai ter das antigas EMAs?
Não vai ter navegação, mas toda logística, planejamento e estratégia de uma corrida de aventura estarão presentes. Vamos trabalhar os conceitos de equipe: será em duplas, com punição para atletas que se distanciarem mais de 100 metros de seu parceiro. Então, tem de formar uma dupla com um biker do mesmo ritmo. Outro ponto é que os atletas precisarão ser autossuficientes em alimentação, água e equipamentos. Serão 300 duplas, com 600 pessoas no total.

Por que ela vai ser em Itu, no interior de São Paulo?
Queríamos uma competição perto de São Paulo, onde o cara pudesse ir no domingo de manhã para minimizar os custos afinal, ele já paga inscrição, alimentação e equipamentos. E Itu é uma região superbacana, com trilhas fenomenais para pedalar. Acreditamos que a categoria elite irá completar o trajeto em três horas e os demais de quatro a seis horas.

O percurso já foi definido?
Já. Inclusive, mesmo com todas as limitações do Alexandre, ele foi até lá e estudou o caminho. Ele deu o aval final. Ainda tem alguns detalhes, mas o geral já está fechado. O Alê tem as suas limitações físicas, mas a cabeça dele está 100%. Aliás, neste momento, estamos precisando de parceiros para organizar mais provas

E vai ter premiação?
O Alexandre sempre teve uma visão empresarial e apaixonada pelo esporte. E ele quer deixar um legado para os filhos dele. Então, estamos nos preparando para arrebentar, com uma estrutura bacana. Queremos fazer acontecer como foi na EMA de dez anos atrás, com uma boa premiação, por exemplo. Ele acha que agora faltam provas que sirvam como treino para os atletas que pedalam duas vezes por semana, mas que também tenham uma premiação atrativa. Serão 20 mil reais distribuídos para os cinco primeiros colocados da categoria masculina, feminina e mista. Isto vai atrair muita gente. Mas, muitos vão voltar mesmo pela marca. A EMA é uma marca forte. As pessoas sabem que o Alexandre faz tudo com estrutura e qualidade.

Como tem sido a recuperação do Alexandre?
Ele é como uma criança quando esta aprende a andar, ela não sai correndo no mesmo dia. Com o Alexandre, funciona da mesma maneira. A cada dia ele reaprende uma coisa diferente. Quando ele me chamou pela primeira vez, eu não conseguia entender o que ele falava. Eu precisava da ajuda de um enfermeiro. Agora, nós já conversamos até por telefone. Ele ainda tem muita dificuldade para conseguir se expressar, mas é impressionante como a cabeça do cara continua a mesma. Quando fomos fazer o percurso em Itu, por exemplo, ele percebia coisas no trajeto que as outras quatro pessoas no carro, todas com 100% da visão, não notavam. E ele também continua operando na bolsa de valores.

Você ainda é reconhecida como a “Paty da Ema”?
Eu estou fora desse mercado de aventura desde 2005. Mas, agora eu tenho falado com algumas pessoas e elas ainda me chamam de Patrema [risos]. O mercado mudou muito nos últimos anos, mas o pessoal “das antigas” ainda me conhece. Mas, se eu fosse numa prova hoje, conheceria apenas de 20 a 30 por cento das pessoas, eu acho.

Este texto foi escrito por: Amanda Nero