Webventure

Histórias de um cicloturista pelo mundo


Segundo Thiago a melhor placa da viagem na Nova Zelandia (foto: Thiago Ghilard)

Não foi fácil. Thiago Ghilard passou 373 dias na estrada, pedalando 25.345 quilômetros por 28 países da América, Europa, Ásia e Oceania. Nesse período, foi ameaçado de morte, assaltado quatro vezes, apedrejado, teve sua bike sabotada, passou fome, sede, frio, calor, caiu, foi atropelado, dormiu com ratos e ao lado de cemitérios, dentre outros perrengues. Na entrevista a seguir, ele conta algumas dessas histórias.

Como surgiu a ideia da viagem?
Eu queria conhecer o mundo de uma forma diferente e fazer algo que ficasse marcado na minha vida para sempre. A ideia da viagem surgiu a partir de uma história de um alemão que tinha pedalado 435 mil quilômetros em 20 anos e passado duas vezes por todos os países do mundo. Naquele momento, pensei: tenho tempo, dinheiro e saúde. Porque não realizar uma viagem como essa por um ano?

E foi fácil planejar a viagem?
Planejá-la é um dos pontos que me orgulho, pois é a chave do sucesso. Deve-se estudar minuciosamente o clima, a cultura, os recursos financeiros, os equipamentos, as rotas, os vistos, a alimentação, dentre outros fatores. Dizem que para uma viagem bem sucedida é necessário dois dias de planejamento para um de viagem.

Qual foi o país mais especial que você conheceu?
O que mais me impressionou foi a Turquia, de belíssimas paisagens como a região da Capadócia e o Monte Ararat, onde supostamente estaria escondida a Arca de Noé. Além disso, foi o primeiro país muçulmano que visitei. Também me surpreendi com as atitudes dos habitantes para me ajudar: passei 30 dias ali e gastei apenas 450 reais, pois as pessoas me acolhiam com comida e hospedagem. Ás vezes, eles eram tão preocupados com o meu bem-estar, que era difícil seguir pedalando, pois constantemente eu era parado com gestos de boa vontade.

Para onde você nunca voltaria?
Para o Turcomenistão, onde fiquei preso na fronteira e deportado após ficar ilegalmente no país por apenas 3 horas.

Como foi passar por zonas de conflito militar?
Passei bem perto da fronteira com o Iraque e ali era comum acordar à noite com tiros de metralhadora. Outra área que precisei evitar foi o estado de Bihar, na Índia, o mais violento do país. Outro momento de perigo era quando eu precisava chegar às cidades à noite, sem luz. Em algumas regiões os apagões eram frequentes. Em diversas ocasiões, eu fui escoltado pela milícia local, que me levava para algum lugar seguro, às vezes hotéis ou casas inacabadas, onde eu podia nem escovar os dentes com água da pia, de tão suja.

Qual foi o momento mais difícil da viagem?
Passei por vários apuros: fui ameaçado de morte, assaltado quatro vezes, me apedrejaram, sabotaram minha bicicleta, passei fome, sede, frio, calor, caí, fui atropelado, fiquei debilitado a 4.500 metros de altitude, dormi com ratos e ao lado de cemitérios, enfrentei uma tempestade de areia no deserto. Mas a parte mais difícil mesmo foi logo nos primeiros mil quilômetros de viagem: meu joelho começou a doer muito, parecia que eu levava uma martelada a cada pedalada. Pedalava com uma perna, empurrava a bicicleta diversas vezes, descansava, mas nada adiantava. Então liguei para a minha mãe e ela sugeriu que eu abortasse a viagem, já que havia passado diversos dias sem melhora. Não acatei o conselho dela. Joguei fora diversos itens da minha bagagem para ficar mais leve e comecei a melhorar. Até que percebi que a dor havia passado e o problema era falta de condicionamento.

E o mais alegre?
Foi a minha volta para casa, em Águas de São Pedro (SP), onde amigos e familiares me aguardavam com um prato de feijoada após um pedal de 25 mil quilômetros.

Você teve outros problemas de saúde?
Acabei contraindo giardíase (infecção causada por um parasita) no norte do Paquistão, quando bebi água de uma bica que ficava perto de um banheiro. Os paquistaneses não usam papel higiênico, mas água para se limparem. Durante a viagem por este país, tive de parar diversas vezes na beira da estrada com vômito e diarreia, até chegar à cidade mais próxima para me tratar. Mas os hospitais eram muito precários se você conhece uma oficina mecânica no Brasil você conhece um hospital no Paquistão. O problema da giardíase é que se não for tratada a tempo, o parasita pode se alojar no seu intestino para sempre. O difícil mesmo foi lidar com diarreias constantes em banheiros onde se realizam suas necessidades agachados e não sentados.

Como foi ficar tanto tempo longe de casa?
A adaptação com os alimentos diferentes da nossa cultura foi difícil. Na Ásia Central, era comum comer macarrão e arroz com pedra e cabelo. Já na Austrália, devido ao preço absurdo dos alimentos, acabei adotando a dieta bush and noodles,ou seja, dormia em florestas e comia miojo todos os dias. Em diversos lugares, precisei invadir a cozinha do restaurante para apontar os alimentos que gostava, por não falar o idioma local. Meu prato favorito era macarrão com atum e alho frito só depois de três anos da viagem consegui voltar a comer esse prato novamente. O país com a comida mais agradável foi a Tailândia, pois além de ser barata, era saborosa e saudável. E não estou falando de grilos e baratas, que por sinal ficam muito bons fritos com alho e óleo.

O que você tirou de ensinamento de toda a viagem?
Ela acabou se tornando uma experiência de autoconhecimento e liberdade, com a qual descobri os meus limites e tive a chance de refletir sobre as razões da minha existência. Quem sou eu, o que posso realizar, qual será o meu legado foram algumas das questões que obtive respostas, baseadas nas experiências que me aconteceram.

Conte algo sobre a viagem que você considere diferente e curioso.
Quando sai de viagem, recebi ações da empresa na qual trabalhava. Ao longo da minha jornada, essas ações se valorizaram muito. Então, enquanto eu dormia debaixo de pontes, me alimentava de pão e macarrão e usava uma sacola plástica como cobertor, essas ações passaram a valer quase 400 mil reais.

Qual vai ser a sua próxima aventura?
Minha viagem me expôs aos meus limites e me fez enxergar quem eu sou de uma maneira intensa e memorável. Hoje tenho uma ideia clara do que posso e o que não posso atingir. Não imaginava como Ásia ou a Oceania funcionavam, agora já passei por lá e tenho minha própria conclusão sobre esses lugares. Sei que tenho flexibilidade para viver uma vida complexa, mas posso mudar meus hábitos e viver de uma maneira simples. Uso essas informações para melhorar meu conhecimento sobre o mundo e minha autoestima quando ela está baixa. Basta pensar no que sofri durante a minha viagem que todos os desafios atuais se tornam mais fáceis. Isso vem do autoconhecimento adquirido. Minha próxima aventura não será sobre mim e sim sobre construir uma família, com a qual eu possa ensinar as coisas que aprendi para os meus filhos. Eu acho que isso se encaixa numa aventura, não é verdade?

Este texto foi escrito por: Evandreia Buosi, especial para o Webventure