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Foto: Pixabay

COLUNA: Cicloturismo entre Lhasa e Kathmandu, no Himalaia

Redação Webventure/ Destino Aventura

O monastério budista de Rongbuk  próximo do Everest (foto: Arquivo Fábio Zander)
O monastério budista de Rongbuk próximo do Everest (foto: Arquivo Fábio Zander)

Das aproximadamente 1.500 fotos que tirei durante a expedição de bicicleta entre Lhasa (Tibete) e Kathmandu (Nepal), gosto mais da que eu faço uma “parada” de cabeça (veja ao lado) quando estávamos em um acampamento acima de 5 mil metros de altitude, ao lado do monastério de Rongbuk. A maior montanha do planeta, o Everest (8.848 metros), está ao fundo, à direita. Essa imagem representa a mistura de muita felicidade e pouco oxigênio.

A virada de cabeça foi inspirada em uma foto que vi, anos atrás, em um livro do famoso montanhista italiano Hans Kammerlander, que também fez isso no topo de alguma montanha acima de 8 mil metros de altitude.

Provavelmente, sou o primeiro e único brasileiro a guiar grupos de ciclistas pelo Himalaia. Dessa vez, acompanho um grupo de cinco pessoas (três suíços, um alemão e um italiano) pela maior cordilheira do planeta, além de coordenar um time de apoio local com sete integrantes, entre eles motoristas, ajudantes, guia e cozinheiro.

A viagem foi realizada no mês de maio, em 26 dias, com 15 etapas de pedal. Percorremos 1.030 quilômetros e 11.115 metros de ascensão, atravessando diversos passos (denominados “La”, em tibetano). Os mais importantes: Suge La (5.446 metros), Dongu La (4.945 metros), Tsuo La (4.534 metros), Lhakpa La (5.256 metros), Pang La (5.206 metros), Lamna La (5.110 metros), Lalung La (5.035 metros) e Thong La (5.135 metros).

Para mim, a chegada em um passo é um prêmio depois de horas de esforço na subida. Chego ao topo, me sento, e curto a paisagem ao som das bandeiras de orações.

Voo da Europa até Kathmandu. Eu parti de Munique, na Alemanha, com destino a Doha, no Qatar, onde me encontrei com o grupo de ciclistas. Depois de quase sete horas de espera no aeroporto, continuamos a viagem em direção à capital do Nepal, Kathmandu.

Chegando ao hotel em Kathmandu, fomos descansar. No dia seguinte, fizemos alguns passeios até pontos turísticos da cidade – esta, por sinal, tem um trânsito caótico, de dar inveja a São Paulo. Conhecemos o templo budista dos macacos (Swayambhunath), vimos corpos sendo cremados em cerimônias hinduístas às margens do rio sagrado Bagmati, visitamos uma das maiores estupas (um tipo de templo) do Nepal, a Pashupatinath, e demos uma volta por Bhaktapur.

De Kathmandu até Lhasa, no Tibete. Um dos voos mais impressionantes que já vivenciei foi o até Lhasa. Dez minutos depois da partida estavámos sobrevoando as montanhas do Himalaia quando, de repente, veio a visão do Everest, se sobressaindo à esquerda do avião, como uma ilha no meio desse mar de nuvens e montanhas nevadas.

Em Lhasa, que fica a 3.670 metros de altitude, ficamos três dias para aclimatização. Isso é superimportante, já que pedalaríamos em altitudes acima dos 4 mil metros. A pedalada nem é tão técnica e as subidas são facilmente transpostas em altitudes mais baixas ou ao nível do mar. Mas pedalar em ambientes onde se tem quase a metade do oxigênio faz toda a diferença. Por isso, o corpo precisa de tempo para se adaptar a esse tipo de esforço físico.

No primeiro dia em Lhasa fizemos passeios leves pela cidade, para conhecer o Palácio Potala e o Templo Jokhang. No segundo dia, uma pedalada de 23 quilômetros até o Monastério de Sera. E no último uma pedalada mais longa, de 75 quilômetros, atravessando um passo a 3.892 metros de altura.

Destaque em Lhasa também para a cozinha tibetana. Meu prato preferido é um de carne de iaque frito na chapa com legumes e macarrão, acompanhado de uma cerveja feita na região.

Somente no oitavo dia de viagem iniciamos a pedalada de volta ao Nepal. Os poucos ciclistas que fazem esse trajeto normalmente pedalam todo o roteiro pela Friendship Highway (Rodovia da Amizade), que tem diversos trechos asfaltados e razoável trânsito de caminhões e automóveis.

Mas nós pedalamos os primeiros dias por estradas de terra, cascalho e areia, em um trecho ao norte de Lhasa, a partir da Vila de Yangpachen em direção ao passo mais alto de nossa viagem, o Suge La, com 5.446 metros de altura.

O primeiro passo acima dos 5 mil metros foi uma verdadeira luta e adaptação entre corpo, bicicleta e altitude. A poucos quilômetros do topo, enfrentamos tempo ruim com vento forte e neve, mas esse foi o tempero da travessia.

Um dos integrantes do grupo sentiu-se mal por causa da altitude. Isso me lembrou das palavras de um guia que tive na região de Ladakh, no norte da Índia. Ele sempre dizia que a dor de cabeça é um “presente das altas montanhas” e que é preciso tempo para aceitar essas condições.

Seguindo a pedalada depois da travessia do Passo Suge, encontramos poucos dias depois a Friendship Highway, por onde seguimos pedalando às margens do Rio Brahmaputra até Shigatse, a segunda maior cidade do Tibete depois de Lhasa.

Os chineses tem investido muito dinheiro no Tibete, construindo, por exemplo, uma ferrovia até Lhasa, asfaltando estradas, como a Friendship Highway, ou gastando com infraestrutura básica (água, esgoto e eletricidade) em cidades como Lhasa e Shigatse. Depois do que vi, não consigo imaginar um Tibete livre.

Para mim, uma das etapas mais bonitas foi em direção ao Passo de Pang, com suas inúmeras curvas e um ziguezague até o topo, a 5.206 metros de altura. Para alcançá-lo, saímos novamente da Friendship Highway com destino ao acampamento base do Everest.

O dia estava frio e nublado. Por isso, não vimos o Everest. A descida foi debaixo de neve, mas, perdendo altitude, a temperatura foi aumentando até o nosso acampamento. À noite, enfim avistamos ao longe o topo do Everest, em meio a nuvens.

No dia seguinte, segui atrás do grupo, curtindo a pedalada e a aproximação até a base do Everest, em Rongbuk. Entramos no Parque Qomolangma (o nome tibetano do Everest) e enfrentamos muitos quilômetros de estrada. Fiquei para trás de propósito. Já próximo do mais alto monastério do mundo, o Rongbuk, vi o Everest. Parei e chorei de emoção. Mais um antigo sonho realizado!

Chegando ao acampamento 7, que é um dos nossos acampamentos mais altos da viagem, acima dos 5 mil metros e ao lado do monastério, ficamos pelo menos 1h30 curtindo o vale e o visual da majestosa montanha. Claro, muitas fotos foram tiradas uma delas foi a da parada de cabeça, com os meus 1,74 metros “contra” os 8.848 metros do Everest.

No dia seguinte, nos despedimos do Everest e pedalamos em direção à pequena Vila de Tingri, onde encontramos novamente a Friendship Highway. Mas antes atravessamos o Passo Lamna, a 5.110 metros, e percorremos um dos trechos mais técnicos da viagem, com um downhill bastante íngreme.

A descida até o Nepal. A partir de Tingri, seguimos pela asfaltada Friendship Highway. Antes da longa descida até Kathmandu, a partir da pequena cidade tibetana de Nyalam, o ambiente se transforma radicalmente em poucos minutos. Das alturas de pouca fauna e flora, descemos um longo downhill de aproximadamente 20 quilômetros até a Vila de Zangmu, com a vegetação verde e exuberante tomando conta da paisagem.

De Zangmu atravessamos a fronteira entre China e Nepal pela Ponte da Amizade, chegando à pequena Vila de Kodari. Essa travessia de fronteira demorou aproximadamente 2 horas, com um pouco de burocracia em ambos os lados.

Desse ponto em diante, a pedalada dura dois dias até Kathamandu e a estrada não é tão bem conservada como no lado tibetano. Algumas trechos me fazem lembrar o interior do Brasil ou a serra do mar. Há muita extração de madeira e terraços com plantio de milho e, principalmente, arroz. Triste, pois pouco se vê da mata nativa.

Antes de terminar a pedalada em frente a um hotel no Bairro de Thamel, em Kathmandu, “enfrentamos” o trânsito maluco da capital nepalesa, uma aventura dentro da aventura, para fechar com chave de ouro mais uma travessia pela maior cordilheira do planeta.

À noite, comemoramos em um restaurante típico nepalês, com música e dança ao vivo. Foram dias maravilhosos, tempo muito bom (o que é raro), sem acidentes e grandes problemas. O grupo estava feliz e satisfeito com a viagem, o que, para mim, significa um bom trabalho feito como bike guide.

Este texto foi escrito por: Fabio Zander

Last modified: março 13, 2012

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