Jipeiros fazem fila para ajudar vítimas das enchentes no Rio
Foto: Arquivo Pessoal Carlos Lobo
Comboios chegaram a localidades até então isoladas
Foto: Arquivo Pessoal Alessandra Lemos
Estradas da região serrana estavam em situação precária
Foto: Arquivo Pessoal Frank Perdiz
Jipes percorrendo o terreno acidentado em meio à chuva que não cessa, trilhas cheias de lama, localidades sem energia elétrica nem telefone. O cenário descrito poderia facilmente fazer parte de um rali. E seria até melhor se fosse. Mas não foi por isso que alguns jipeiros encararam estas e inúmeras outras dificuldades na região serrana do Rio de Janeiro, devastada pela chuva no início do ano. Foi tudo em nome da solidariedade.
Logo depois que surgiram as primeiras notícias da tragédia que se desenrolava em cidades como Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, ainda no dia 11 de janeiro, jipeiros começaram a se organizar para partir da capital fluminense e ajudar os milhares de afetados pelas chuvas – até agora, já são mais de 850 mortes confirmadas, cerca de 450 desaparecidos e quase 30 mil desabrigados na região serrana do Rio.
“A gente formou vários comboios e conseguimos até uma quantidade de doações maior do que a gente esperava (4 toneladas). Tivemos que contratar caminhões e vans para levar”, conta Carlos Lobo, 32 anos, gerente de TI, e que foi para a região ainda no primeiro final de semana após a tragédia. Nos comboios, além de muita vontade de ajudar, estavam típicos carros off-road, como Troller, Bandeirante, Willys, Hilux, L200, Grand Vitara, Cherokee e Tracker.
“Vários lugares estavam descaracterizados”, lembra Lobo. Ele e quase todos os que se propuseram a ir para a área afetada foram auxiliados por Maurício Bueno. Empresário, com 44 anos e jipeiro há 15, Bueno usou seus conhecimentos de rádio amador para montar uma central em Nova Friburgo, no Pico da Caledônia, responsável pela comunicação da cidade com o Rio, já que a situação era de calamidade.
“Chegamos lá no olho do furacão. Tinha acabado de acontecer a tragédia. A gente ainda viu muita água correndo pelas casas, muita lama, a cidade estava sem luz e telefone, sem comunicação nenhuma”, relata Bueno. Já Frank Perdiz, outro jipeiro, descreveu o cenário como “dantesco”. “É realmente chocante ver uma cidade destruída”, afirma o advogado de 35 anos.
Obstáculos - O ato nobre de solidariedade, porém, teve que superar muitas dificuldades para ser realizado. Além das informações desencontradas, os jipeiros encararam estradas tomadas de lama, trilhas precárias e perigos diversos. Lobo e seu grupo, por exemplo, foram os primeiros a chegar a Banquete, um distrito da cidade de Bom Jardim, após “40 minutos de trilha”. Uma ponte, único acesso à região, havia caído.
Pior ainda foi em Nova Friburgo, numa localidade próxima ao centro, mas que permanecia praticamente isolada. “Foi gente na frente amarrando os cabos dos guinchos (dos veículos) nos postes. Isso porque era uma coisa de 100 metros. Foi um negócio bem perigoso mesmo”, diz Lobo, que viu o mesmo cenário que Frank Perdiz. “Chovia muito ainda. A água ainda caindo pelo rio central de Friburgo, uma coisa impressionante”, conta Perdiz.
“Pegamos um caminho que era só para 4x4, por que a estrada normal estava bloqueada”, lembra Maurício sobre uma situação corriqueira para os jipeiros nos dias logo depois da tragédia. Entre veículos muito bem preparados – com bloqueio do diferencial, pneus lameiros, guincho e suspensão elevada – e outros nem tanto, eles eram a única alternativa para fazer os donativos chegarem a regiões de difícil acesso.