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Waldemar Niclevicz e Irivan Burdam escapam da morte na Ásia


Por Waldemar Niclevicz | 18/08/2009 - Atualizada às 07:12

Niclevicz no cume do Khan Tengri
Niclevicz no cume do Khan Tengri
Foto: Arquivo pessoal
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De volta ao Brasil, Waldemar Niclevicz conta como foi a última escalada na Expedição Leopardo das Neves, e o desespero de ficar preso em uma caverna após uma tempestade de neve.


Estávamos dormindo confortavelmente em nossa “caverna de neve”, na verdade um buraco no gelo onde mal cabiam nossos dois sacos de dormir, nas encostas elevadas do Pico Pobeda, a 5.900m de altitude. De repente tudo começou a tremer, como se uma tropa de cavalos passassem sobre a gente! Eu acendi a lanterna e imediatamente olhei na direção dos meus pés a ponto de me assustar com a grande quantidade de blocos de gelo e neve invadindo o nosso pequeno recinto, até fechar completamente a entrada. Tentei empurrar tudo para fora, mas a massa era compacta e pesada, logo vi que estávamos presos ali dentro, em um espaço de no máximo dois metros quadrados. Gritei para o Irivan: “Quantos minutos será que conseguiremos continuar respirando aqui dentro?”.

Era bom não perder tempo. Sai do saco de dormir e fui colocando a minha roupa e botas, que já estavam encharcadas pela neve. Não achei a pá e então comecei a cavar com a tampa da panela. Não tinha para onde jogar a neve, a não ser para cima dos nossos sacos de dormir. Eu cavava, cavava, e o que encontrava pela frente eram pedaços de gelo de até uns 30 cm de diâmetro no meio da neve, dificultando ainda mais a nossa saída daquela toca apertada. Que aflição!

Depois de uns dez minutos, ufa, uma escuridão no fim do túnel, a noite profunda lá fora, o bafo do vento gelado! Sem pensar pulei para fora “de peixinho”, como descreveu depois o Irivan. E lá fora aquele inferno gelado, vento insuportável, redemoinhos de neve!

Trabalho duro - Continuei cavando com a tampa da panela, sentindo já as mãos congelarem, até finalmente encontrar a nossa pá. Quando já havia livrado neve suficiente de nossa entrada para que o ar fosse renovado, fui correndo procurar a caverna de gelo de nossos vizinhos, três alpinistas do Quirguistão. Nem sinal da entrada, cavei, cavei, gritando, gritando, perguntando se estavam bem, até que no final de uns 5 minutos escutei um “Ok, estamos bem”, então voltei para finalizar o trabalho do lado “brasileiro” e só depois de quase uma hora consegui novamente me apertar entre as paredes de neve e o Irivan para tentar novamente me esquentar em meu saco de dormir, isso já passando das 6h da manhã. E lá pelas 10h da manhã tudo outra vez, o chão tremendo, a neve invadindo o nosso pequeno buraco e eu desesperado atrás da pá. Que medo! Depois o dia acalmou, ficamos ao sol secando roupas e se esquentando. A noite seguinte foi parecida, mas as avalanches menos violentas, eu só cutuquei o Irivan e disse “é a tua vez”, e lá foi ele em busca da pá para nos livrar daquela horrível situação “claustrofóbrica”.

Depois dessa segunda noite de arrepiar a alma, olhando ainda nuvens escuras rondando a montanha, e sem quase poder sair da caverna de gelo em razão do vento insuportável, decidi que abandonaríamos a tentativa de escalar o Pobeda, apoiado imediatamente pelo Irivan. Algo me dizia que era melhor não continuarmos. Estávamos no acampamento 3 (5.900m), teríamos ainda o 4 (6.400m), o 5 (6.900m) e o acampamento 6 (7.100m) pela frente, até atingirmos os 7.439m do cume do Pobeda (embora o desnível entre os acampamentos não seja grande, a distância entre eles é enorme, e o grande problema é a volta ou descida).

Nossos vizinhos do Quirguistão, um deles guia de montanha, começaram a subir nos dizendo: “vamos, o tempo está bom”. “Que ânimo”, pensei, enquanto minhas atenções já estavam totalmente voltadas para a nossa descida, que seria igualmente arriscada. Tínhamos um abismo para baixo, 50º de inclinação, nenhuma marca do caminho, o vento nos cegando e muita neve querendo escorregar montanha abaixo. Que medo! Fui rezando um “Pai Nosso” atrás do outro, enquanto me afundava facilmente até a cintura, às vezes parecia que eu estava nadando sobre a neve. E se o chão começasse a se deslizar nos levando em uma grande avalanche? Que medo!

Quando chegamos a um colo a 5.300m, ufa, o pior já havia passado. Continuamos então, descendo sem pressa, até o conforto do nosso acampamento-base, que estava bem longe dali, a 12Km de distância e a 4.000m de altitude, após atravessarmos um número sem fim de gretas que queriam nos engolir (tanto eu quanto o Irivan caímos em várias delas, felizmente sem nos machucarmos pois estávamos encordados e bem atentos).



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