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Por Marcelo Krings | 14/05/2001 - Atualizada às 15:49

Afinal, o que é aventura?

  • Tempo, disposição e planejamento são receita fundamental de aventura Crédito: Marcelo Krings
  • Para Krings, o que conta na aventura é o resultado espiritual Crédito: Marcelo Krings
  • Descobrir novidades também é essencial Crédito: Marcelo Krings

Acompanhando de perto a evolução das práticas outdoor nos últimos anos, o montanhista Marcelo Krings busca a tão discutida definição para o rótulo 'aventura'.


Há muito tempo tenho pensado em um assunto que muito me intriga: o que afinal significa Aventura? Sim, Aventura com “A” maiúsculo, e se a nossa língua-pátria permitisse, escreveria todas as letras em maiúsculo e ainda negrito.

Agora, após algum tempo refletindo sobre esta questão, tendo participado de algumas poucas atividades Brasil e mundo afora e depois de ler algumas páginas sobre exploradores, andarilhos e conquistadores, talvez consiga expressar, de modo muito pessoal, algo concreto sobre a arte de se aventurar.

Faz alguns anos que, em conjunto com um grupo de amigos, discutimos e realizamos pequenas ações no intuito de esclarecer pessoas que fizeram de uma das muitas técnicas utilizadas montanhismo, conhecida como Rappel, sua atividade esportiva. É recorrente escutar pessoas falando da “adrenalina”, “emoção” e de uma rara sensação de desafiar a vida e a morte que, de tão intensa, segundo os praticantes, lhes dá a sensação de “realmente estarem vivos”. Estranho, todos com os quais conversamos pareciam estar bem vivos em terra firme...

As causas - Uma observação mais profunda parece nos remeter a dificuldades tipicamente urbanas como a pressão social, a “velocidade” de transformação da cidade, a falta de uma válvula de escape para a altura da opressão das megalópolis, associada ao modismo causado pela mídia e à facilidade na aquisição de material de montanhismo.

É uma pena, esta garotada poderia estar por aí, escalando rocha, caminhando em trilhas e conhecendo o mundo em vez de estar pendurada com pouco ou nenhuma instrução em uma ponte ou em um viaduto. Definitivamente fazer rapel em ponte não é se aventurar.

Outra coisa que tenho notado é a multiplicação das autodenominadas corridas de aventura, sim, aventura com "a" minúsculo mesmo, pois de aventura pouco têm. Na minha humilde opinião, deveriam ser chamadas de corridas multi-esportivas ou multi-modalidades. Nunca fui um competidor nesta modalidade. Embora não compactue com a palavra competição, tenho vontade de experimentar, simplesmente pelo fato de não deixar de conhecer, ser um protagonista destas histórias diferentes.

Aventura mastigada - Não discuto o que leva as pessoas a passarem dias, às vezes mais de uma semana, comendo mal, praticamente sem dormir, fazendo esforços físicos e psicológicos sobre-humanos para alcançar um lugar no pódio ou simplesmente chegar. Em uma atividade deste tipo, a aventura está preparada ou, se preferir, “mastigada”, por um organizador. Ele prepara o terreno para que, tempos depois, uma trupe de competidores e seus equipamentos maravilhosos passem por lá à procura do melhor tempo e do melhor caminho.

Tenho um amigo, competidor de ponta em corridas de aventura, que se pegou dormindo sobre a bike. Fora o perigo do cansaço, o que será que ele e tantos outros estão contemplando da natureza quando passam pelas montanhas, rios, cachoeiras, matas selvagens e montanhas nevadas, à procura do menor tempo?

Enfim, tudo começa na sexta-feira, depois do trabalho, e, na segunda, o mundo volta à sua rotina. Talvez a pergunta mais importante seja qual será o crescimento espiritual (não religioso), emocional, que se resgata após todo este esforço.

Uma definição - Aos poucos formei um conceito de aventura que, para os padrões atuais, pode parecer um tanto desconexo da realidade urbana. Aventurar-se pode ser resumido como alguém que: “...utilizando seus próprios meios, após um planejamento consciente, a partir em uma data adequada, vai para algum local que se quer explorar e conhecer no qual o incógnito, a imprevisibilidade, a surpresa da descoberta, a contemplação e aprendizado da cultura local tenham lugar. Imaginando um período provável de retorno. Trazendo de volta o conhecimento e a experiência como um crescimento pessoal em todos os sentidos...”

Utilizar seus próprios meios é algo parecido com não depender de ninguém, a não ser seus próprios colegas de viagem e uns poucos contatos pelo mundo. Às vezes não tem jeito, grandes expedições exigem muitos recursos, mas a imensa maioria de nossas viagens podem ser feitas com recursos pessoais, dependendo pouco ou nada de recursos externos.

Mesmo quando o homem foi para um lugar que não conhecia fisicamente, ele planejou. O lugar desconhecido fica próximo de um lugar conhecido ou supostamente parecido. Assim, indo ao pólo norte, tendo conhecido o pólo sul, sabe-se que a sunga de banho e os óculos de natação podem ser dispensáveis. Planejar significa antever, fato este que tem 5% ou menos de intuição e coincidências e 95% ou mais de conhecimento e experiência.

Viajar, se aventurar, exige tempo e disposição. Tenho um amigo que não sai para escalar em alta montanha se não dispõe de pelo menos trinta dias de tempo. Diz ele “...como é que você vai se aclimatar, se aproximar, escalar uma montanha e voltar para casa em uma semana?....” o que você viu, o que você sentiu, o que foi aprendido nesta correria de poucos dias?


(*) especial para o Webventure

Marcelo Krings


É arquiteto e alpinista. Esteve na Antártica seis vezes por meio do Clube Alpino Paulista – duas na Estação Comandante Ferraz e quatro em acampamentos de pesquisa (nas ilhas Rey George e Elefante e no Continente Antártico). Atualmente, desenvolve projetos para segurança e trabalhos em altura. É consultor e colaborador do Webventure há muitos anos.

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