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Fechando as aventuras de 2017: Brasil Ride e muita adrenalina

Karol Meyer/ Biking, Ciclismo

Dupla mista top 10 - Karol Meyer e Tiago Silva na Brasil Ride

A ultramaratona Brasil Ride, considerada pela mídia internacional como o Giro de Itália do MTB, superou expectativas em sua 8ª edição. Percorremos 600 km e subimos mais de 13.000 metros durante sete dias, na terra do Descobrimento, entre Arraial d’Ajuda e montanhas do interior baiano de Guaratinga, totalizando um tempo total acumulado de 37 horas e 46 minutos, sob condições extremas.

Neste ano estávamos mais preparados física e tecnicamente. Os treinos de ciclismo de Estrada com Diones Chinellatto e de mountain bike com Robson Ferreira, da GoTreinos, foram uma excelente combinação para completarmos as etapas muito melhor do que o ano passado.

Na mala produtos de excelente qualidade e essenciais para provas como está:

– Protetor solar Suntech grip system, que realmente protege a pele contra o sol que castigava (45 graus) após horas e horas de pedal. Ainda que com muito suor, a pele ficava super protegida. O grip system realmente gruda e só sai no banho.

– Solifes gel anti atrito, para hidratar e proteger a pele nas áreas mais críticas durante o pedal, salva de ferimentos que podem ir se agravando até o último dia. Muito importante cuidar e evitar assaduras.

– Óculos esportivo Mormaii, nosso parceiro para todas as horas. Neste ano seguimos com os modelos Eagle, super leves e resistentes.

As bikes foram as mesmas do ano passado… Sabíamos que o ideal seria uma full, como não conseguimos parceria, fomos na coragem com as nossas hard trail.

Confira as etapas em detalhes!

1º dia – Prólogo em Arrail d’Ajuda – 21 km e 330 metros de altimetria
Prova de curta duração, mas cheia de expectativas para os dias seguintes, que faziam com que pensássemos nos riscos de acidente e agíssemos com cautela. A largada foi forte e sabia que iria encarar a longa escadaria da igrejinha de Nossa Senhora D’Ajuda, com o batimento cardíaco perto dos 185 bpm. Os últimos dias em casa foram treinando especificamente manobras em escadas e trilhas com a Flowripa Bike School, do Rafael Waltrick, somente para poder encarar a escadaria do Brasil Ride! Nosso tempo ao final da etapa: 1h14min04 e a colocação 10º lugar.

Foto: Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

2º dia – Ida para o acampamento em Guaratinga – 138 km e 2.199 metros de altimetria
Neste dia seguimos muito bem no percurso, sabíamos que uma de nossas vantagens seria nossa passada forte nos locais mais planos e realmente deu certo, chegamos nas montanhas embalados e conquistamos o 6º lugar nesta etapa, com o tempo de 6h36min29. Lá em cima o visual é lindo demais. Depois de lavar a bike e comer um delicioso açaí, foi só descansar vendo o pôr do sol e as pedras gigantes de Guaratinga.

Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

3º dia – 74 km e 2.559 metros de altimetria
Problema mecânico logo após a largada. Uma pastilha de freio trocada e a roda mal colocada fez com que eu não conseguisse passar as marchas corretamente. Segui tentando, andando, fui parando para colocar a corrente que caia e vimos o problema.

Perdemos um tempo precioso e seguimos tentando recuperar um pouco. O percurso mudou em relação ao ano passado, mas ficou perfeito, talvez o melhor das sete etapas: desafiador e bem variado. Neste dia percebi que a escolha do grupo Eagle com 32/50 ajudou muito nas subidas íngremes. Alguns trechos me lembravam do ano anterior, em que passei empurrando a bike, desta vez “zerei” muitos deles.

Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

Ainda assim me falta técnica, principalmente nas descidas. Acabamos a etapa em 6h08min30, 11º lugar. Final de tarde você vai vendo quem chegou inteiro, quem já está muito debilitado, quem “comprou terreno”, quem se quebrou feio. Bate um cansaço que somente as horas de acampamento não resolvem para o descanso e recuperação, mas a prova seguia e o dia mais duro ainda estava por vir.

4º dia – 100 km e 3.090 metros de altimetria

07h48: aqui começou a valer ainda mais a força de vontade. Acordei enjoada, um pouco desidratada e me forcei a comer no café da manhã. Tiago seguia firme. Na largada houve uma queda bem na minha frente, mas consegui passar sem problemas.

Esse era o temido dia, com as subidas mais cruéis. A primeira hidratação não chegava nunca, precisei pedir água no topo de um dos morros. O corpo já não respondia muito bem aos comandos. A montanha das sete curvas estava com uma subida épica… No meio da prova caiu uma chuva forte mas curta, que nos refrescou e fez aparecer um lindo arco-íris, mas o pesadelo veio depois, a chuva criou uma camada de lama que prendeu nos pneus como cola e empurrar a bike foi algo insano.

Foto: Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

Carregamos uns 10 kg extras de barro. Sem dúvida quem passou antes se deu muito bem neste trecho. Ainda assim, recuperamos uma posição e retornamos para o 10º lugar, com o tempo de 8h19min35.

5º dia – 130 km e 1.974 metros de altimetria
Arrumar as malas e desfazer acampamento. Das montanhas para o mar! A organização comentou no meeting que agora era só descer, mas a gente subiu muito para depois começar a descer. O momento mais difícil para mim foi perto das 13h. Passamos por um estradão tão esburacado que não era possível desviar das crateras, o calor estava surreal.

O posto de hidratação paecia um oásis no meio do deserto. Comia e bebia para sobreviver. Entramos na mata do parque Pau Brasil, foram 20 km com muitas poças e troncos. Em uma destas travessias acho que bloqueie a suspensão e errei um salto. Acabei voando por cima do tronco e caindo com a bike. Levantei e segui, nem olhei o que havia acontecido nas pernas.

Foto: Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

A mente estável tentando guardar energia e sofrer o mínimo possível. Nas horas mais difíceis sempre começo a pensar em algo mais profundo, um sentido muito maior do que o simples gostar, ou competir. Isso reforça o que estou fazendo ali.

Estar ao lado de tantas pessoas que buscam se superar, que não se abatem com os problemas, que se respeitam durante a adversidade, que amam o esporte e a natureza, de fato é estar contribuindo para o inconsciente coletivo positivamente, formando uma camada de boas energias para todos.  

Reagimos bem às dificuldades e fechamos a etapa em 7h36min09, mantendo nosso 10º lugar .

6º dia – 31,8 km – XCO – 564 metros altimetria – 4 voltas
É o único dia em que  as duplas podem se separar, valendo o somatório dos tempos. Alguns optam por dar somente uma volta e descansar um pouco mais, ainda que perdendo pontos caso as demais duplas façam mais voltas. Cada volta não feita resultava na soma de 70 minutos no tempo final. Preferimos a segunda opção, fazer as voltas possíveis dentro do tempo regulamentar. Tiago realizou três voltas e eu duas.

Foto: Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

Meu machucado no joelho virou um ferimento que não curava mais, pois todo o dia eram milhares de gravetos e mato que batiam nele. O jeito era proteger com esparadrapo e seguir adiante. Tiago também levou uma coroada na perna de um ciclista que caiu na sua frente. Fechamos o XCO com 4h14min, em 11º lugar.

7º dia – 73,5 km e 1.041 metros de altimetria – Última etapa

Muito edema nas pernas, resultado da desidratação (hiponatremia leve) fazendo o corpo reter muita água, as pernas mal dobravam e eu parecia estar carregando pelos menos uns 5kg a mais! O hematoma grande do tombo do dia anterior já começava a dar sua tonalidade na perna.

A largada foi sofrida. Qualquer subida era muito penosa sob um calor de 45ºC. Só fomos melhorando após uns vinte minutos de prova. Percebi então que ainda estava bem para subir e procurei manter um ritmo.  À essa altura ia surgindo um medo de algo dar errado bem no fim da jornada. Seguia olhando para a quilometragem do computador e deduzindo quanto faltava, nem gel tomava mais, só queria chegar.

Foto: Juliano Augusto

Foto: Juliano Augusto

Pelo bom tempo que vínhamos fazendo, mesmo que a bike quebrasse e tivéssemos que correr (como aconteceu no ano passado), ainda assim chegaríamos. Faltando ¼  da prova comecei a agradecer mentalmente por tudo, procurei curtir a última horinha de puro mountain bike que somente um evento como o Brasil Ride pode nos oferecer.

Chegamos super bem, mantendo a distância dos demais concorrentes e com o tempo de 4h22min09.

Concluímos os sete dias com o tempo total 37h46min46 e nos tornamos Dupla Mista TOP 10 do Brasil Ride 2017!  

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Pedalar, comer e dormir por sete dias, sem se preocupar com mais nada, é um sonho que somente 500 privilegiados vivenciam durante a maior e mais dura ultramaratona de mountain bike das Américas!

Last modified: dezembro 29, 2017

Karol Meyer
Karol Meyer