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André Ilha: Leis de mais, aventura de menos


Por André Ilha | 05/03/2007 - Atualizada às 17:21

No texto abaixo, originalmente publicado no site Carta Maior, o montanhista e escritor André Ilha comenta sobre as leis que sugeriram nos últimos meses para regulamentação do turismo e esporte de aventura

Quando comecei a escalar montanhas, em meados dos anos 70, passei a integrar uma reduzida confraria de pessoas consideradas exóticas pela maioria da população, que saíam muito cedo de casa nos finais de semana, mochila às costas, para percorrer trilhas e vias de escalada escassamente visitadas. O montanhismo era então domínio exclusivo de amadores, o que lhe valia, inclusive, o apelido de "esporte diferente" por inexistir competição direta entre os seus praticantes. Sua memória e tradições sempre foram mantidas por um bem organizado sistema de clubes, o primeiro deles fundado em 1919 e em funcionamento até os dias atuais.

Uma década depois alguns enxergaram a possibilidade de ganhar a vida oferecendo serviços de guias e instrutores de escalada, na esteira do emergente "turismo ecológico", um fato cujo sucesso teria uma profunda influência tanto no número como no próprio perfil dos freqüentadores de nossas até então tranqüilas montanhas. Pois se antes os clubes divulgavam suas atividades com parcimônia, buscando atrair novos adeptos em números compatíveis com a possibilidade de lhes proporcionar uma adequada formação técnica e ética, além de rudimentos de educação ambiental, os novos profissionais, na ânsia de ampliar o mercado de forma a lhes assegurar um fluxo contínuo de clientes, passaram a divulgar o esporte de forma bem mais intensa, o que levou às montanhas levas crescentes de pessoas ávidas por experimentar as emoções únicas que aquele ambiente proporciona.

Houve então um boom do montanhismo, paralelo à expansão de outros esportes diretamente ligados à natureza e que também oferecem adrenalina garantida aos seus praticantes, como o vôo livre, o parapentismo, a canoagem e outros, o que abriu espaço para o aparecimento de lojas e publicações especializadas, algo até então inexistente. Curiosamente, meras técnicas de escalada, como o rapel e a tirolesa, foram alçadas à condição de "esportes" na disputa por um mercado cada vez mais atraente.

Toda esta efervescência levou, de forma não surpreendente, a um sensível aumento do número de acidentes, por diversas razões. Primeiro, por mera decorrência estatística, já que mais pessoas praticando uma atividade de risco implicam em uma maior probabilidade da ocorrência de acidentes. Segundo, porque a ampla divulgação destes esportes pelos meios de comunicação levou pessoas despreparadas a praticá-los por conta própria, sem prévio treinamento, receita segura para o surgimento de problemas. Por fim, o desejo de abocanhar uma fatia deste segmento em franca expansão propiciou uma multiplicação de empresas e operadores autônomos, alguns dos quais sem tradição e experiência na área e que, eventualmente, colocam seus clientes em risco.

A grande repercussão de acidentes deste tipo na mídia - que, salvo exceções, sempre carrega nas tintas do sensacionalismo - levou muitos políticos, em todos os níveis administrativos e em diversos pontos do país, a se preocupar com a questão e a pensar regras que minimizassem a possibilidade de sua ocorrência. Entretanto, tal preocupação, legítima e compreensível, tem, por vezes, incorrido em equívocos, alguns dos quais tão sérios que chegam a colocar em xeque a própria existência das atividades que pretendem ver salvaguardadas. Como muitos destes equívocos foram gerados por desconhecimento dos princípios básicos que regem tais atividades e das motivações de seus praticantes, cabe aqui entendê-los para que futuras normas não os repitam e mesmo para que algumas já aprovadas possam sofrer aperfeiçoamentos que as convertam em um benefício, e não uma ameaça, a esta instigante tendência de se unir a prática esportiva à natureza.


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