Carrancas


RELATOS DE VIAGEM

Relato feito por:
MOACIR LADEIRA
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Estrada Real 4x4 de Caquende a Carrancas
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Fiz no final de Junho de 2011 uma viagem de uma semana pela Estrada Real, saindo de Nova Lima e chegando a Paraty sempre passando por caminhos e trilhas de terra com um Suzuki Grand Vitara 4x4. Aqui tem um breve relato de um dos pontos altos da viagem. Estou escrevendo um Blog com detalhes desta grande aventura que recomendo a todos. O Blog é o http://estradareal4x4.blogspot.com

Fomos descendo a estrada de terra que ainda continuava boa. Lá embaixo estava Caquende, um povoado muito pequeno. Como pode? Ainda não descobriram este lugar?
Fomos seguindo adiante e aí veio a surpresa.
A estrada acabou na Represa que é formada pelo Rio Grande e como íamos fazer para continuar?
Daí a alguns minutos começamos a ouvir um barulho vindo do outro lado e uma balsa, a Carranquinha fotografada aí embaixo, começou a flutuar em nossa direção. Vinha espirrando água em todas as direções pois usa aquele sistema de rodas que saem da água.

Chegamos rapidamente à Capela do Saco e sentimos mais ainda aquela sensação de que as coisas ali ainda estão para acontecer. Em torno de uma igreja, poucos moradores e uma grande simplicidade. Dizem que o peixe que fazem no boteco que fica na chegada da balsa é muito bom mas deixamos para a próxima.

Logo acima, a Pousada Reis que parece legal demais para o lugar, tem uma inscrição simpática se dizendo o ponto de apoio da Estrada Real. Se não fosse muito cedo eu tinha ficado lá só por conta desta chamada. Eu queria ter visto muitas destas ao longo do caminho.

Os marcos da Estrada Real, além de nos acompanhar por todo o caminho e de nos passar uma sensação de segurança grande, possui muitas informações úteis. Nem todos estão tão bem conservados como este mas além de sabermos que deveríamos andar quase 28 Km até Carrancas ficamos conhecendo um pouco sobre o local e a posição exata com a Longitude, Latitude e Altura, perfeito para jogar no GPS. Sempre que estávamos sem certeza do caminho e víamos um marco sentíamos uma grande vontade de seguir em frente.

Em direção a Carrancas fomos seguidos o tempo todo por aquela Serra escarpada e parecendo intransponível. De repente, em uma entrada de fazenda ao pé da Serra, uma placa escrita a mão atestava: -"Só sobe 4x4". Naquela hora ficamos satisfeitos de que estivéssemos bem montados e preparados para qualquer tipo de desafio. E a estrada começou a se transformar em um caminho cortado na rocha de pedra , mais parecendo um leito seco de um rio morro acima.

Não trafegávamos mais em poeira mas numa farinha branca e em rocha dura. Foram 20 ou 30 minutos somente mas a cada curva íamos nos afunilando e procurando fugir daqueles grandes buracos. A verdade é que o carro em nenhum momento reclamou. Cheguei até a mudar as marchas, experimentar opções de 4x4, mas nada parecia fazê-lo perder a consciência de que a ele somente uma função era requerida, ir em frente.

Quando enfim chegamos no topo da Serra e aquela sensação de que éramos poderosos e estávamos conseguindo cumprir uma façanha reservada a poucos, surge lá na frente levantando muita poeira um fusquinha branco dirigido por uma senhora que passou rapidamente por nós e começou a fazer o sentido contrário. Ou seja, veio para nos mostrar que ela devia fazer aquilo todo dia e que era muito fácil para aquele carro valente. Foi bom para nos colocarmos em nosso devido lugar e voltar à Estrada Real.

Logo em frente avistamos Carrancas junto com a tarde que vinha findando. Na descida ainda tivemos de tomar muito cuidado pois grandes crateras se abriam por falta de manutenção da estrada, provavelmente em função das chuvas de verão. Já estava escuro quando chegamos na pracinha central da matriz. Começou então a nossa procura por um bom hotel para passarmos a noite. O primeiro que avistamos foi a Pousada Roda Vida que achamos simples e um preço um pouco alto. Como falamos com a atendente não teve negociação. Saímos pela cidade e até chegamos a pegar a estrada à procura de um hotel fazenda. Como estava muito escuro e eu começando a sentir um certo desconforto no olho, optamos por voltar ao Roda Viva e desta vez, conversando com o dono, combinamos um pequeno desconto e ficamos mesmo por lá. Acabamos ficando satisfeitos com a escolha pois os aposentos se mostraram mais acolhedores do que esperávamos. Descemos então para jantar e a minha primeira opção era comer uma truta que tinha visto em um restaurante da praça. Acabou que nos ofereceram para ver o fogão a lenha com aquela comida mineira quentinha e não resistimos. Sentamos e comemos até fartar, acompanhados por uma boa Caracu.

Aqui tenho de fazer um comentário sobre as dificuldades da jornada. Como comentei antes, cheguei com um pouco de dor em um dos olhos e quando fui procurar uma farmácia, às 7 da noite, todas já haviam fechado. Mais tarde quando fomos para o quarto e me conectei na Internet para enviar umas fotos e estudar nosso trajeto do dia seguinte, o olho estava piorando e aparentemente inflamado. Fiquei preocupado pois como ia dirigir com o olho com problemas? De madrugada ao acordar, este olho não abria e o outro começava com a mesma coisa. Como nunca havia sentido nada parecido antes, achei que poderia ser um terçol ou uma inflamação por causa da poeira. Como teríamos de pegar uns 70 Km de estrada de terra pela frente, cheguei a verificar como seria a opção por asfalto. A conclusão é que teria de voltar até Itutinga e daí até Lavras. Ou seja, na Fernão Dias a 400 Km de São Paulo. E imagina que fiasco seria!

Acordei no outro dia um pouco melhor depois de muitas lavagens usando o soro fisiológico que carregava. Tomamos café e a minha veterinária predileta, que viajava comigo, conseguiu comprar um colírio destes que são proibidos a venda sem receita médica e resolveu meu problema. Estava pronto para seguir em frente e o vexame da desistência foi evitado. E o Suzuki da Estrada Real também!

Mais em http://estradareal4x4.blogspot.com

Foto: MLadeira

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