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Aventura solitária pela américa do sul
Me chamo Magno Bortolini Cardoso, moro em Vitória, no ES e essa é a minha história de aventura que fiz pelos países: PERU, BOLIVIA E CHILE Com um espírito aventureiro e após seis meses de estudos e planejamento, pesquisando em sites sobre os assuntos, decidi realizar a maior aventura da minha vida (por enquanto). A princípio seria uma visita ao Peru, para conhecer o berço de uma das civilizações mais antiga que se tem provas. A civilização Inca. O roteiro inicial seria desembarcar em Lima, capital do Peru, conhecer o Pacífico e seguir viagem, por terra para Cuzco e conhecer Machupiccho, mas depois de algumas pesquisas, fui me envolvendo e quando dei por mim, já estava com um planejamento de duas semanas percorrendo três países da América do sul, tendo que refazer todo o roteiro. Partindo de Vitória as 5:40 do dia 05 de maio, segui para Lima, no Peru. De Lima, parti para Cuzco, no 2º dia, de avião, para ganhar tempo. A viagem dura menos de 2 hs, o problema é a adaptação do corpo a altitude. Cuzco fica a 3.300 mts. A permanência em altitude maior que 2.800 mts sobre o nível do mar pode causar um certo desconforto ao visitante. Os sintomas são tontura, enjôo, mal estar e dor de cabeça. Pede-se para que se repouse no quarto do hotel no 1º dia, mas como o tempo era curto, tive que passar o dia com doses periódicas de chá de coca para curar o “mal da altura” enquanto visitava algumas ruínas próximas a cidade. Entre suas ruas de pedras encontram-se edifícios de construção inca, como o Koricancha e o Palácio de Inca Roca, junto com construções coloniais de estilo barroco andino, como a Catedral, que foi reconstruída duas vezes devido aos terremotos e muitas outras igrejas do século XVI.como a igreja da Companhia; além disso podem ser visitados o pitoresco bairro de San Blas, onde estão os ateliês dos melhores artesãos do departamento. Esta mágica cidade também conta com uma excitante vida noturna e com cafés, restaurantes e bares para todos os gostos. A dez minutos da cidade levantam-se as gigantescas muralhas da fortaleza de Sacsayhuamán. Uns quilômetros mais, estão os sítios arqueológicos de Qenko, Pukapukara e Tambomachay, construções incas edificadas totalmente em pedra. Como o turismo na região está em alta, por ter sido eleita uma das sete maravilhas do mundo recentemente, para visitar Machupicchu não sai por menos que US$ 150,00. Fechei com uma das inumes agencias da cidade e a que me pareceu mais confiável. Parti no 3º dia às 3 hs da manhã de ônibus com destino a Ollantaytambo, onde peguei o trem às 5:30, com destino a Aguas Calientes, cidade que fica ao pé da montanha Machupicchu. Ao chegar em Aguas Calientes, mais uma viagem de 10 min em micronibus que serpenteava a montanha, num “vai e vem” interminável até a antiga cidade de Machupicchu. O enigmático complexo de Machu Picchu, o mais importante e extraordinário legado dos antigos peruanos, é parte do Santuário Histórico do mesmo nome, o qual é um dos poucos lugares da América, declarados Patrimônio tanto Cultural como Natural da Humanidade pela UNESCO. Encontra-se situado na cima de uma montanha e harmoniza-se com a exuberante natureza que o rodeia, criando um lugar único do mundo. Era quase 8 hs da manhã, quando me deparei com um cenário que parecia realmente um dos filmes de Indiana Jones, a neblina cobria grande parte da cidade perdida e o visual era de cair o queixo, mas eu não tinha tempo a perder, pois queria subir Waynapicchu, a montanha ao lado de Machupicchu, com 2400 mts, 300 mts a mais que a sua vizinha, cuja subida não é nada fácil e somente as primeiras 400 pessoas podem subir no dia. A subida foi cansativa, mas a vista compensou todo o esforço. Como se não bastasse, resolvi descer pelo outro lado da montanha, para visitar umas cavernas. Depois de 1h de descida foi que descobri que para chegar a Machupicchu novamente, teria que refazer todo o caminho. Conseguir retornar a cidade perdida por volta de 12 hs e ali permaneci até às 17 hs, quando lembrei que estava sem almoço, mas com tudo aquilo que estava vivenciando, por que me importar com almoço? Pernoitei em Aguas Calientes e peguei o trem de volta a Cuzco no 4º dia. De Cuzco segui viagem à noite para Puno, cidade próxima do lago Titicaca, a 4.000 mts com o objetivo de visitar as ilhas Uros. São ilhas flutuantes, construídas pelo homem, utilizando uma vegetação nativa do lago, chamada totora. Os nativos podem levar até sete meses para construir uma ilhas de aproximadamente 1000 m2, que pode durar até 20 anos. No 5º dia à tarde segui viagem para La Paz. A cidade política da Bolívia, mas que não é a capital. E está situada a mais de 3.000 mts de altitude e faz muito frio. No 6º dia, logo pela manhã, fui atrás de uma agencia que me levasse ao monte Chacaltaya, onde está a estação de esqui mais alta do mundo, hoje desativada pela ausência de neve, devido ao aquecimento global. Na manhã do 7º dia lá estava eu dentro de uma van com mais 6 mochileiros brasileiros. E cada um contando suas aventuras até aquele dia. O guia nos explicou que a mais de seis meses não nevava no Chacaltaya, mas mesmo assim a subida seria difícil devido a altitude de 5.600mts, mas como eu não queria nada fácil nessa aventura, fiquei feliz ao perceber que quando iniciamos a subida a pé até o cume, começou a nevar, mas isso foi só no começo, porque logo essa neve virou nevasca e o granizo machucava a pele que já estava congelada a uma temperatura de -15º C e com o vento que dava uma sensação térmica de -20º C. Superado mais esse desafio, seguimos direto para o Vale da Lua, próximo de La Paz. Um local único, com estalagmites formadas pela ação da chuva e do vento. No 8º dia, numa viagem bem paradigmática do que o viajante pode experimentar naquele que é um dos países mais belos da América do Sul, parti de ônibus para Oruro, a 3 hs de La Paz, ao sudoeste, para pegar o trem com destino a Uyuni, a ultima cidade antes do deserto de sal. Durante quase 12 hs, entre ônibus e trem, rodei pelo Altiplano com breves paragens. O ar gélido dos Andes infiltrava-se por mil e uma fendas. Agasalhos bons para outras latitudes não são mais do que panos de seda no planalto andino. À medida que avançava para o sul, com a altitude a estabilizar nos 4.000 mts, o frio tornava-se mais intenso e a vegetação rareia, apenas arbustos dispersos, uma vez que a região é completamente desprovida de árvores. No 9º dia, numa manhã muito fria, saí do hotel à procura de um mate quente de coca, já o sol semeava sobre o Altiplano uma luz cálida que atenua um pouco o efeito cortante do surazo, o vento gélido que sopra do sul. Enquanto assistia crianças de jaleco branco seguindo em fila indiana pelas ruas de poeira em direção a única escola da cidade, aguardava o veículo 4x4 estacionar e começar a receber as mochilas das dezenas de pessoas que tomavam conta da cidade. Depois de algumas horas fui apresentado ao guia Miguel, que também seria o piloto e o cozinheiro da expedição, que duraria três dias. Na Toyota 4x4 viajaram o Miguel, no volante, eu, uma espanhola, uma suíça e três alemães, pai, filho e nora. Aos poucos as línguas não foram barreiras para o início de uma tímica amizade. Ao fim da manhã partimos de Uyuni em direção ao Salar de Uyuni. O maior deserto de sal do mundo, com mais de 12.000 Km², rodeado por vulcões há muito extintos. A espessura da camada de sal varia de 10 centímetros até 100 mts de profundidade. A primeira paragem foi a aldeia de Colchani, na orla do lago, onde está implantada uma exploração de sal. A visita às instalações é concisa e seguimos rumo a um sui generis “hotel de sal”, a cerca de 10 Km de distância. Estamos a 3.700 mts de altitude e ao redor uma planura branca estende-se até ao infinito. A luz solar, refletida pelo manto de sal, é fortíssima, e na linha do horizonte é possível perceber nitidamente a curvatura terrestre. O tempo seco fez estalar o sal e o solo é como uma tapeçaria branca decorada com desenhos geométricos. A não muito distante, voltamos a parar junto a um ponto onde a espessura do sal cede à umidade. São os “ojos del salar”, alvéolos rosados que permitem perceber depósitos ou correntes de água debaixo do pavimento de sal. No verão austral, o calor derrete a neve dos picos vulcânicos e com o aumento da quantidade de água, o salar torna-se intransitável. Ainda estamos longe do meio da jornada, quando o sol atinge o zênite e começa a tomar forma no horizonte o relevo pardo da Isla Pescado, uma mancha de terra e cactos gigantes (com a forma de um peixe) que parece flutuar sobre o leito de sal. A ilha fica a mais de uma centena de quilômetros de Uyuni e é um habitual ponto de paragem das expedições. Enquanto Miguel monta o fogão e prepara a segunda refeição do dia, arriscamos uma subida ao topo da colina mais próxima, por veredas que contornam uma floresta de cactos centenários que ultrapassam os 12 mts de altura. Lá em baixo, à volta da ilha juntam-se umas dezenas de jipes e outros tantos fogões em atividade. Boa parte da tarde consome-se numa vertigem de quatro rodas deslizando sobre o imenso tapete de sal. Um par de horas depois abandonamos o salar e percorremos uma picada poeirenta. Depois, a picada desaparece, dilui-se numa planície árida e ocre. Ao longe, uma nuvem de poeira move-se em doida correria. Miguel explica. Há quem não tenha reserva de alojamento no abrigo da aldeia de San Juan, para onde nos dirigimos. É isso que justifica a pressa. No 10º dia, desfilam lagoas de variadas tonalidades, ditadas pelas algas inquilinas: a Laguna Hedionda, de um verde pálido e mal afamada pelos seus odores sulfurosos, a Laguna Canapa e a Laguna Honda, mais escura, todas visitadas por flamingos. Cruzamos a planura árida do Deserto do Siloli e contornamos bizarras figuras moldadas pela erosão eólica, como a famosa e muito retratada “Árbol de Piedra”. À distância, acompanham-nos alguns vulcões andinos: o Ollague, com os seus 5.870 mts, o Uturuncu, o mais alto, com pouco mais de 6.000 mts. Muitas vezes, estes relevos são “faróis” que ajudam a encontrar a direção certa quando não há estradas (como no salar), ou quando as pistas se apagam com a chuva. A Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa estende-se para o sul, ocupando uma área de 700 mil hectares. Das oitenta espécies de aves existentes no parque (que alguns comparam com o Parque Nacional Yellowstone, por causa da atividade vulcânica), os flamingos são as que se avistam com mais frequência. Há grandes colônias junto às lagoas, mesmo durante o Inverno, quando uma boa parte das aves emigra. Muito mais difícil é avistar um puma, um condor ou uma raposa andina. Mas há uma ou outra passagem onde as vizcachas (uma espécie de coelho andino) quase vêm comer às mãos dos viajantes. Quanto à flora, apesar das condições climáticas e da salinidade, há quase duzentas espécies de plantas que sobrevivem na região. A segunda noite no deserto, é passada no refúgio da Laguna Colorada, uma das maiores da região. O fim de tarde, lento, avançamos passo a passo, lutando contra um vento desabrido e glacial que teima em querer atirar-nos ao chão. A Laguna Colorada parece ao lusco-fusco um imenso charco de sangue, um vermelho escuro, por causa dos microrganismos que habitam as suas águas, mas é a meio do dia, com uma luz mais propícia, que esses efeitos se tornam mais impressionantes. Nas margens espalham-se manchas de boro, e logo a seguir, em terreno seco, crescem bizarros tufos circulares de uma erva dourada pela última iluminação do dia. Estamos a quase 4.300 mts de altitude e esta noite a temperatura desce até 17º C negativos. Ainda há poucos anos foi registrado um recorde no local: - 30°. 11º dia - A ausência de uma ducha quente no abrigo fica compensada na manhã seguinte por uma imersão nas piscinas de água quente do Sol de Mañana, um campo de géisers e lamas ferventes à 200º C. É sumária a paragem, onde tomamos o desjejum e logo zarpamos em direção à Pampa de Chalviri, a 4.800 metros, onde tocaremos o ponto mais alto do percurso, uma passagem de 5.000 mts. E um momento vem, sob um sol escaldante, desses de fabricar miragens, em que é como entrarmos num quadro de Dali, ao atravessarmos uma planície despida, salpicada de colossais penedos de volúvel morfologia. E voltam os tons ocres, agora a emoldurar o cenário onírico da Montanha das Sete Cores, com uma lua em quarto crescente a coroá-la. Seguimos viagem sem parar, a linha do horizonte sempre a afastar-se, e acima de nós sempre um límpido céu austral. O ponto mais ao sul, onde eu me despeço da expedição e passarei para o Chile, é a Laguna Verde, aos pés do vulcão Licancabur. Do outro lado já é terra chilena, o deserto do Atacama e o povoado de São Pedro do Atacama. É este o limite geográfico da expedição, 400 Km ao sul de Uyuni. A Laguna Verde prende-nos um pouco mais de tempo, quase até ao fim da manhã, quando a direção do vento se altera e podemos observar as águas mudarem de tonalidade, para um verde jade luminoso. A presença de magnésio, carbonato de cálcio e arsênico é a causa da singular coloração da lagoa, situada a 4.400 mts de altitude. O Licancabur, do alto dos seus 5.800 metros, mostra-se impassível. A maravilha é sua companheira de dias e noites neste fim do mundo. Peguei uma carona em outro jipe até a fronteira com o Chile e como já tinha comprado o ticket na ultima cidade, só tive o trabalho de me acomodar no micronibus, que logo partiu para San Padro do Atacama. Como as temperaturas no deserto variam entre 0ºC à noite e 40º durante o dia, existem poucas cidades e vilas no deserto. Mas a mais conhecida com certeza é San Pedro do Atacama. Com cerca de 3000 habitantes, está a 2.500 mts de altitude, o que a torna bem isolada. Praticamente um oásis no meio do deserto, é o principal ponto de encontro de viajantes do mundo inteiro. Lá, o Museu La Paige é uma das grandes atrações, pois conta a história do povo atacamenho e possui várias múmias, sendo as mais antigas com 2 mil anos. O vulcão Licancabur também é visto de quase todas as ruas da pequena vila, adorado pelos nativos como uma divindade há milhares de anos. Nas suas encostas existem várias ruínas incas e sua cratera esconde uma lagoa que passa 10 meses por ano congelada. Um pouco mais ao norte está o também ativo vulcão Tatio, que apesar de não soltar fumaça de sua cratera, provoca outro tipo de atividade. Na sua base oeste, está um dos mais importantes campos de gêiseres do mundo. Ali todos os dias, ao nascer do sol, dezenas de buracos no chão jorram água e vapor a vários metros de altura, mas o meu objetivo aqui é escalar o vulcão Aracar, na Argentina, próximo a fronteira com o Chile. Com 6.082 mts, sua ultima erupção ocorreu em 1993, colocando-o como o 5º maior vulcão ativo do mundo. Infelizmente, depois de visitar várias agencias de turismo da cidade, minha decepção, nenhuma agencia queria conduzir um único ”maluco” até o cume deste vulcão e como eu não consegui um outro com a mesma intenção, fiquei só na vontade. No Chile tem-se registrado um total de 111 vulcões, mas não consegui escalar nem deles. Será que essa poderá ser a minha próxima aventura? Para não perder o resto do passeio, no 12º dia, aproveitei para explorar o Deserto do Atacama, que é considerado o mais alto e mais seco do mundo. Localizado na região norte do Chile, possui cerca de 200 km de extensão e paisagens fantásticas. Segui em um micronibus de excursão em direção ao Vale da Morte, a cerca de 3 km de San Pedro. Bonitas formações rochosas e ao Vale da Lua, que fica a mais ou menos 17 km de San Pedro. Um lugar único no mundo onde tudo lembra a lua, mas o que mais impressiona é acompanhar um por do sol único, onde os últimos raios de luz transformam cristais milenários em arco-íris projetados nas montanhas. E assim está chegando ao fim esta viagem de aventura, que durou 14 dias. No 13º dia segui de ônibus para Calama, a 110 Km de San Pedro do Atacama, onde voei para Santiago para seguir no 14º dia rumo ao Brasil. |