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História do Rali - Parte 9: primeira prova no Brasil.


Publicado por DECO MUNIZ em 27/02/10 às 02:06 na(s) categoria(s) Histórias do Rally

A primeira corrida de automóveis no Brasil aconteceu em São Paulo, em 1908, no circuito de Itapecirica. Em 1925 realizou-se no Rio de Janeiro uma prova ao redor do morro do Castelo, e no ano seguinte realizou-se a I Quinzena Automobilística. Foi, porém, em 1933 que o Brasil chegou ao automobilismo internacional, com a realização do circuito da Gávea, também denominado "trampolim do diabo", pois, seguindo um trajeto em pista mista de estrada de montanha e circuito urbano, era uma prova muito perigosa.

 

Há que se ressaltar que 3 carros já corriam em 1902 no Hipódromo da Mooca na cidade de São Paulo e em 1905 na cidade do Rio de Janeiro, no Largo do Machado, mas só em 26 de julho de 1908 houve a primeira corrida oficial, no chamado Circuito Itapecerica (75kms), onde se juntaram 10 mil espectadores só para ver o evento, com vitória de Sylvio Alvares Penteado, cunhado de Prado Junior, com um Fiat 40hp, com velocidade média de 55km/h, em 1h30m05s.

 

 

Primeira corrida de carros do Brasil - Fotograma do filme da corrida

 

Também, no mesmo 1908, o Conde Francês Ledain, fez o primeiro Raid entre Rio de Janeiro - São Paulo (mais ou menos 700 km), em 33 dias (num Brasier de 16 cavalos - se havia barreiras, ele as explodia com banana de dinamite - belo raid), e no mesmo ano, Antonio Prado Júnior, fez o que se chamou de "Caravana de Bandeirantes sobre rodas de borracha", ou seja, foi de São Bernardo do Campo até Cubatão em 36 horas, pelo chamado Caminho do Mar. 1908 foi o marco, pois, foi criado o Automóvel Clube de São Paulo, e na cidade do Rio de Janeiro, foi criado o Automóvel Club do Brasil.

 

O Automóvel Club de São Paulo havia sido criado para estimular o automobilismo e possibilitar troca de informações entre os sócios. Foi esta entidade que promoveu o Circuito de Itapecerica. Para essa corrida, com itinerário de 70 km, não havia prêmios em dinheiro, apenas medalhas e objetos de arte. Os carros concorrentes eram distribuídos em classes, conforme a força de seus motores e seus modelos. Classe A, motocicletas; B voiturettes, uma espécie de baratinha com até 20 cv; C de 20 a 30 cv; D de 30 a 45 cv; E acima de 45 cv. Um dos mais cotados para vencer era o já famoso Conde Lesdain, mas um acidente colocou o ás do volante fora da competição.

 

 

Primeira corrida de carros do Brasil - Fotograma do filme da corrida

 

Antes de entrar nesta história, cabe contar outra história. Em 1893 na capital paulista, no meio dos seus 200 mil habitantes, transitando na Rua Direita estava um carro com rodas de borracha, funcionando a plena caldeira. Alguns anos depois, em 1897, Alberto Santos Dumont circulava em São Paulo com seu Peugeot. Esse automóvel foi importado da França em 1891, mais para observações da parte mecânica, do que efetivamente, para andar com ele - há que se recordar que Santos-Dumont participou em 1898 de uma corrida de Paris a Amsterdã. Neste mesmo ano no Rio de Janeiro, José do Patrocínio, desfilava um carro movido a vapor. Conta-se que ele resolveu ministrar aulas de direção a Olavo Bilac, e esse “braço duro”, mandou o carro numa árvore, na Estrada Velha da Tijuca - dando risadas, Bilac comemorava o fato de ter causado o primeiro acidente no Brasil. Na virada do século, Fernando Guerra Duval foi o primeiro a circular nas ruas íngremes de Petrópolis, com um Decauville de 6hp, tendo a benzina como combustível.

 

Mas voltando a São Paulo, a primeira legislação normatizando o uso do automóvel, foi instituída por Antonio Prado em 1900 (em 1903 já tinham 6 carros, e a Prefeitura de SP tornou obrigatória a vistoria veicular e identificar os carros com chapas ou licenças e em lugares estreitos e com adensamento populacional, a velocidade não poderia ultrapassar os 30km/ph - ou seja - a velocidade de um homem andando, instituindo a primeira taxa sobre o tema (Henrique Santos-Dumont, foi o primeiro a solicitar ao referido prefeito a isenção do pagamento da taxa, ressaltando o péssimo estado das ruas). Pronto, a baixaria foi instituída e o Prefeito cassou a licença e a placa de Santos-Dumont (essa placa era a famosa P-1, que ficou - depois - com o Conde Francisco Matarazzo). A primeira carta de habilitação foi dada em 1904 a Menotti Falchi, proprietário da então fábrica de chocolates Falchi - nesta época já tinham uma enormidade de carros: 83! Chegou-se a montar em 1907 (em escala industrial - nas devidas proporções), pelos construtores de carruagens Luiz Grassi & Irmão, carros da marca Fiat. Em 1927 havia na cidade de SP incríveis 2.568 automóveis. Mas 1908 é que o marco foi feito aqui, inclusive nos EUA, pela fabricação do Ford T, assim como a Delco que fabricava a primeira bobina e o distribuidor.

 

 

Washington Luís e sua mulher, motorista e ajudante vistoriando o circuito onde se realizaria a prova

 

Mas antes de entrar na corrida, temos que observar não só o clima histórico da época, mas ter atenção dos preparativos deste evento. Em 1908 o então Secretário da Justiça e Segurança Pública do governo do Presidente de São Paulo Jorge Tibiriçá, Washington Luís Pereira de Souza, com 38 anos (em 1926 ele seria Presidente do Brasil, acabando com a República Velha - o seu lema era "governar é construir estradas"). Aos domingos, era um dos seus prazeres fazer o que ele chamava de "excursões pelos arredores de São Paulo", com seu automóvel - um Berliet, com sua esposa um motorista e um ajudante (especula-se que era um mecânico). Numas dessas "excursões", ele percorre o que viria a ser o Circuito de Itapecerica. Washington Luís leva a idéia ao Automóvel Club de São Paulo (ACSP), numa reunião onde estavam presentes Antonio Prado Júnior, Sílvio Álvares Penteado, José Paulino Nogueira Filho, Numa de Oliveira e Clóvis Glicério (vocês conhecem pelo menos esses nomes de ruas e praças). Washington Luís alertou que precisava consertar alguns trechos e com a cooperação do Prefeito Barão de Duprat tal feito é realizado.

 

No dia 11 de junho o ACSP é fundado e no dia seguinte é formado um comitê para organizar a corrida, que seria no dia 14 de julho (em homenagem à independência da França, pátria do automobilismo). Carros pagavam 100 mil réis e motos 50 mil réis, para participarem. Eram 5 categorias e só poderiam conduzir condutores amadores, ou seja, que não fossem pilotos ou mecânicos assalariados. No dia 30 de junho quando se encerram as inscrições havia 16 carros inscritos e 3 motos. No dia 1º de julho o ACSP recebe um telegrama de Aarão Reis, presidente do Automóvel Clube do Brasil, pedindo um adiamento da corrida porque o Ministro da Viação, Miguel Calmon Du Pin de Almeida, não poderia comparecer, por causa das festividades do centenário da abertura dos portos. A data foi deixada a critério de Aarão e esse escolhe o dia 26 de julho. O trajeto foi restaurado e entregue 2 semanas antes do evento. No dia 23 de julho é feito um teste de percurso (como fazemos até hoje, nas competições de rally). Nesse teste estavam presentes os pilotos cariocas Gastão de Almeida e Jorge Haentjens, pilotando dois Lorraine-Dietrich; e dois paulistas Antonio Prado Júnior e Clóvis Glicério, no Motobloc do primeiro (esse carro depois, desceu a Serra do Mar). No dia 25 (sábado), escolhe-se o grid de largada.

 

 

Foto de Sylvio Alvares Penteado, vencedor da corrida em 1908

 

 

Chegada da prova - Fotograma do filme da corrida

 

Esse era o clima nesse momento histórico. A chegada aconteceu no Parque Antártica (lugar da largada), aliás, o povão pagava 2.000 réis para assistir a largada e chegada. O Circuito chamava-se "Itapecerica" - com 75 kms de extensão. O vencedor foi o paulista Sílvio Penteado (com um Fiat de 40 cavalos - ele foi considerado o homem mais rápido do Brasil). Esse percurso percorria a estrada para Embu e Itapecerica da Serra, na verdade a saída era no Parque Antártica, av. Antártica (hoje avenida Francisco Matarazzo), rua Tabor (hoje Cardoso de Almeida) e av. Municipal (hoje Teodoro Sampaio). Na Vila Pinheiros (hoje bairro de Pinheiros), passavam de fronte o Mercado dos Caipiras (hoje Mercado de Pinheiros), atravessavam a ponte metálica sob o Rio Pinheiros, construída em 1865, e pegavam a estrada de M'Boi Mirim (Embú), voltam por Itapecerica da Serra e Santo Amaro, sobem o Caminho de Santo Amaro (av. Brigadeiro Luiz Antonio) até a av. Paulista - retornando ao Parque Antártica.

 

 

O povo paulista prestigiando o evento em 1908

 

Era mais um rally do que efetivamente uma corrida. Cada competidor largava de 5 em 5 minutos, alguns de 7 em 7 por causa da poeira levantada - a largada foi precisamente as 13:00 horas (na verdade as 12:55 foi dada a largada pelo presidente do Automóvel Club de São Paulo - Antonio da Silva Prado ao piloto Jorge Haentjens com seu Lorraine-Dietrich. Este era o carro mais potente do Brasil - 60hp - fez a prova sem concorrentes - walk-over - e terminou em 1:31':55" - média de 48km/h). O secretário de Justiça e da Segurança Pública, proibiu a circulação de veículos - sejam eles motorizados ou não - no período das 13 as 18 horas, em todo o Circuito de Itapecerica, 450 policiais estavam dispostos em todo o circuito, para garantir a segurança - aliás, a maior preocupação de Washington Luís - a cada passagem de um competidor, tocava-se uma corneta, para avisar a população. Esses policiais da chamada Força Pública, tinham a seu dispor 3 bandeiras para serem agitadas em caso de emergência: amarela, vermelha e verde. A amarela era agitada para o competidor diminuir a velocidade, a vermelha o competidor tinha que parar e a verde alertava que não havia mais perigo. Era um sistema utilizado - pela primeira vez - numa competição italiana, em 1906 - Targa Florio.

 

 

Motobloc presente a corrida de 1908 em SP

 

Esse evento teve durante o seu trajeto, várias e várias ambulâncias com médicos de plantão, com a colaboração do exército e dos municípios por onde passavam os competidores. Como não havia postos de gasolina, foram colocados a disposição por empresas estrangeiras, latas de combustível: uma lata de gasolina norte-americana, com 37 litros, era vendida a 16 mil réis, e uma lata de gasolina francesa, com 80 litros, era vendida a 35 mil réis.

 

Esse evento não registrou qualquer acidente ou incidente (bom isso não é bem verdade: quando dirigia para o Parque Antática, Luís Prado no seu Sizaire-Naudin derrapou nos trilhos de bonde, na Avenida Antártica e chocou-se contra a guia, entortando a roda; já o famoso Conde Lesdain, teve uma roda do Harold quebrada no portão do Parque Antártica, ferindo de quebra, o seu queixo - dias antes, ele tinha danificado na Barra Funda o seu Brasier, o mesmo que tinha feito o raid Rio-São Paulo), contudo, algo aconteceu que mudou o ganhador do evento desportivo: Em Santo Amaro, o carioca Gastão de Almeida que levava uma vantagem de 5 minutos sobre o segundo colocado - o paulista Silvio Penteado - teve um "atropelo" que lhe tirou o primeiro lugar: o carter do seu carro, um Dietrich-Lorraine, literalmente caiu, a 6 quilômetros da chegada. Dai a vitória de Sílvio Ávares Penteado.

 

Em todo o caso, a corrida foi um sucesso, com apenas duas desistências: Ricardo Vilela, por defeito na bomba de óleo do seu Brown e Fulvio Bassi, com quebra da engrenagem e um pneu furado do seu Clément. Acidente propriamente dito?! José Prates "tombou" por assim dizer, o seu carro no final da Rua Cerqueira César (Teodoro Sampaio), sendo defenestrado do seu veículo, "arranhando" apenas o seu nariz, mas a população - como nos rallys - "desvira" o carro e ele termina a prova sem outros problemas. Os cariocas Luís Moraes e Frederico Otto têm os pneus furados de seus carros, mas terminam a prova.

 

Fotograma do filme da corrida de 1908 em SP

 

Os jornais noticiavam que havia 10 mil pessoas na chegada - São Paulo tinha na época 400.000 habitantes - a maior aglomeração foi no Parque Antártica, na Avenida Paulista, na Avenida Municipal (hoje Dr. Arnaldo), e na Rua Cerqueira Cesar (hoje Teodoro Sampaio)!!! Até os anos 30, para se fazer corridas no Brasil, era necessário importar carros da Europa ou dos Estados Unidos, contudo, em 1931, Cássio Muniz construiu o primeiro carro de corrida do Brasil, com a chamada e disponível "mecânica nacional" (na verdade o motor era importado da Chevrolet). Mas isso... é outra história!

 

Eram 16 carros de várias marcas, sendo 11 deles produzidos na França (1 inglês, 3 italianos e 1 alemão - todos tinham em comum pneus Pirelli), assim como, as 3 motocicletas inscritas eram francesas.

 

Curiosidades: estavam presentes o touring car da Light & Power (o único carro elétrico do Brasil, com 15 hp), e um Dumont (o primeiro carro a levar um nome de um brasileiro - Santos-Dumont - tal corro foi lançado em 1902, nos EUA, pela Columbus Motor Vehicle Co., da cidade de Columbia, Ohio - depois de 1904 foi chamado apenas de Dumont - esse carro pertencia a empresa Ferreira & Saraiva - por anda hoje esse Phaeton de 24 hp). Havia um Lorraine-Dietrich (de Jorge Haentjens com um de 60hp, que correu sem concorrentes).

 

Resultado da prova:

 

Categoria A (motocicletas)

1) Eduardo Nielsen (SP) - Griffon 1:54':48"

2) Procópio Ferraz (SP) - Griffon 2:42'00"

 

Categoria B (voiturettes de 8-9hp)

1) Antonio Prado Júnior (SP) Delage 2:05':15"

2) Ferrucio Olivieri (SP) Lion-Peugeot 2:05':15"

3) José Prates (SP) Lion-Peugeot 2:30':33"

4) Alípio Borba (SP) Diatto-Clément 2:05':53"

5) Frederico Otto (RJ) NAG 2:18':55"

 

Categoria C (20-30hp)

1) Jordano Laport (RJ) Renault 1:45':04"

2) Paulo Prado (SP) Berliet 1:51': 28"

3) Alípio Borba (SP) Diatto-Clément 2:05': 53"

4) Frederico Otto (RJ) NAG 2:18':55"

5) Luís Moraes (RJ) Bayard-Clément 2:49':23"

 

Categoria D (40hp)

1) Silvio Alvares Penteado (SP) Fiat 1:30':05"

2) Gastão de Almeida (RJ) Lorraine-Dietrich 1:57':45"

3) Oszwaldo Sampaio (SP) Fiat 2:41':54"

 

Categoria E (mais de 45hp)

1) Jorge Haentjens (RJ) Lorraine-Dietrich 60hp (walk-over) 1:31':55"

 

Parte do texto e algumas fotos retirados da obra de Vergniaud Calazans Gonçalves, "A Primeira Corrida na América do Sul", Ed. Empresa das Artes, 1988, São Paulo.

 

Dois cineastas fizeram imagens deste evento, um deles era G. Sarracino e o outro Antonio Leal. Algumas fotos deste post são reproduções (fotogramas) deste filme.

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