Apaixonado pela vida outdoor, pratica vela, montanhismo, canionying, moto, 4x4, fotografia e o que aparecer pela frente. Colaborador de publicações de esporte e aventura, da Revista Sul Sports e do Programa Adrenalina (Canal Futura/Globo Internacional).

Aron Ralston. Foto: Wikipedia
Todo mundo já conhece a história: em maio de 2003 Aron Ralston saiu para uma trip solitária em um cânion isolado, na área desértica de Canyonlands, em Moab, Estado de Utah/EUA. Lá deslocou uma pedra que lhe prendeu definitivamente o antebraço contra a parede do cânion.
Canyonlands, Utah/EUA. Foto: Wikipedia
127 horas depois, desidratado, sem comida e com a gangrena avançando pelo membro esmagado, como único meio de sobrevivência Aron cortou o próprio braço com um canivete e, em condições extremas, conseguiu sair sozinho do cânion até encontrar socorro.
Esta incrível história de superação poderia ter tido um final trágico não fosse a grande experiência de Aron em atividades outdoor e os conhecimentos básicos necessários de como realizar a improvisada cirurgia e sobreviver a ela e ao ambiente inóspito onde se encontrava.
A "Grande Galeria", no Horseshoe Canyon, local onde se acidentou Aaron Ralston.
Foto: Wikipedia
Resistência, força moral e física, coragem sobre-humana, preparo psicológico, autocontrole, conhecimentos técnicos, audácia, inteligência... Uma quantidade imensa de adjetivos poderiam ser invocados para qualificar Aaron que depois do feito se transformou em uma celebridade no mundo outdoor e no circuito de palestras motivadoras.
Eu soube da história acompanhando a assinatura da Outside Magazine, onde Ralston foi personagem de capa na edição de setembro de 2004.
Outside Magazine
Também estive certa vez em Canyonlands, Utah, onde um dos maiores perigos para os praticantes de canionismo é justamente estar preso dentro de um cânion durante uma enxurrada. Isto sem considerar ainda um braço esmagado sob uma pedra enorme.
Passados alguns anos, em 2011 foi lançado no Brasil o filme 127 Horas (127 Hours) e, na sua esteira, o livro, que aqui recebeu o mesmo título.
Não pude deixar de conferir as duas mídias e procurei não ler qualquer artigo de crítica antes de o fazê-lo. Já saber como termina a história e que o mordomo não é o assassino prejudica um pouco a expectativa de ler o livro e ver o filme.
A técnica literária adotada por Aron no seu livro é bem
conhecida quando se quer estender uma história originalmente curta e o autor
vai entremeando na narrativa pequenos textos com outras referências que
complementam o tema da obra. Não que isto seja uma regra poisNa Patagônia", um verdadeiro clássico das narrativas de
viagem.
Mas no caso de 127
HorasTocando o Vazio", de Joe Simpson pois achei um pouco cansativa e um tanto excessiva a longa
descrição de Ralson de toda a sua formação no montanhismo e vida de aventuras,
enquanto o tema principal do livro acaba, por vezes, ficando em segundo plano.
E não falta humildade ao autor. Fiquei na dúvida se um "ghostwriter"
não o ajudou a redigir a obra. Fica aí o meu palpite.
De qualquer forma vale a pena conhecer a história,
um exemplo de coragem e superação, principalmente para aqueles que trabalham
com segurança em atividades outdoor e resgate em locais remotos. Sem dúvida a
criatividade de Aron salvou a sua vida pois com os poucos pertences que tinha
com ele conseguiu improvisar um sistema de suporte de vida que o ajudou a
sobreviver onde qualquer outro certamente teria perecido. Também são bastante
interessantes as fotos originais feitas por ele nesta já mundialmente célebre
jornada.
Já o filme assisti em DVD e, comparado com a obra escrita, vai direto ao ponto, quase um documentário. O trabalho de James Franco no papel de Ralston está excelente e a semelhança física é impressionante.
Gravar um filme inteiro retratando alguém que passa 127 horas em um mesmo lugar é com certeza um desafio e o produtor Danny Boyle mandou bem. Com um tema onde o uso de recursos tecnológicos fica bastante limitado, ele abusou da música, iluminação, perspectivas, composição, tudo com uma caprichada direção de fotografia.
127 Hours. Foto: Divulgação
A tônica do diretor foi exacerbar o foco nos pequenos utensílios levados por Aron e a partir dali ir ir traçando a perspectiva do filme. Todavia, mesmo tendo recebido seis indicações para o Oscar, lá pelas tantas o filme cansa com as constantes intervenções das memórias do aventureiro e a gente quer logo chegar na parte final para ver como ele cortará o braço....
Enfim, com um grande realismo e bastante convincente, recomendo tanto o livro quanto o filme, em especial para a galera que gosta de uma aventura longe dos confortos da civilização. Junto com o já cult "Tocando o Vazio", de Joe Simpson, esta certamente é uma história que veio para ficar e se tornará um dos grandes clássicos da aventura.
Ah, e quando sair para uma destas aventuras, por favor, não esqueça de deixar um bilhete para sua mãe avisando para onde foi!
- 127 Horas, o filme: 94 minutos, lançado no Brasil em 2011, disponível em DVD
- 127 Horas, o livro: São Paulo: Seoman, 2011, 415 p., ISBN 978-85-98903-25-5, R$ 39,90
Foto: Editora Seoman