Blog criado para divulgar o Montanhismo e a Escalada do Rio Grande do Sul e do Brasil. E aproveitando pra divulgar as notícias importantes que rolam no mundo.
Crédito da imagem: Felipe Dalorto nos psicoblocs de Alagoas.
Acaba de ser atualizado, o site do Informe Brasileiro de Montanhismo e
Escalada. Confira o resumo das matérias desta edição no site http://www.mountainvoices.com.br
+ Rio de Janeiro, uma cidade maravilhosa para escalar - InfoFEMERJ;
+ Barrados no baile - André Berezoski;
+ Big wall no Itabira - Oswaldo Baldin;
+ Los Arenales - Fabio Muniz;
+ Salto Ventoso - Emerson "Mémi";
+ Guia de Escaladas da Zona Sul e Ilhas Oceânicas do RJ;
+ Psicobloc em Alagoas - Felipe Dallorto;
+ Trekking em Mamanguá e Joatinga - Alberto Ortenblad.
Confira abaixo, a matéria Internacional da nova colunista Alessandra Arriada, que a partir deste número assume a responsa de filtrar o que acontece pelo mundo da escalada:
Internacional - Mountain Voices # 120 Alessandra Arriada, RS
A
escalada como esporte no Brasil e no mundo têm crescido muito. Bem ou
mal, com apoio ou não, há patrocinadores, competições, mulheres
escalando e o nível dos atletas tem aumentado mais e mais. É uma busca
incansável por cadenas, conquistas, graduações mais e mais altas,
projetos, metas, ufa....Parece a corrida do ouro. Tudo muito rápido,
informações, filmes, fotos, fulano mandou tal vida numa graduação nunca
imaginada no planeta, e atualiza no site, blog.
O meio do mato já
fica no meio da cidade, a natureza intocável e os lugares remotos já
estão cheios de lixo e quem gostava de escalar para fugir das
metrópoles buscando autoconhecimento, tranquilidade, silêncio e
diversão têm enlouquecido com tamanha mudança. A trilha já está bem
marcada, ainda com uma ou outra garrafa plástica, grampo do lado de
fenda pra ficar mais fácil, gritarias e animosidades a flor da pele pra
ver quem manda melhor e mais rápido a via da vez.
Talvez essa
tendência de globalização e rapidez num mundo geração web 2.0 seja
esperada mas o fato é que gostando ou não dessa competitividade e
animação toda nos perguntamos muitas vezes o que realmente importa em
um esporte, paixão, hobby ou estilo de vida:resultados?
conquistas? ser o melhor?
Pensando
nisso, um escalador americano criou o que seria uma graduação diferente
de escalada. Seria a “fun scale” ou Graduação de Diversão, onde o que
importa é como você vai lembrar daquela escalada, como foi o perrengue,
o que sentiu e comparada a o quê foi sua diversão. Kelly Cordes,
escalador, escritor e “especialista em margaritas” inaugurou a
graduação que rapidamente se espalhou em todos os blogs e sites
americanos de forma divertida, mostrando que, com exceção e mesmo
aqueles que ganham para escalar, o melhor da escalada é realmente o
quanto nos sentimos felizes entre as rochas e bons amigos de cordada
num domingo de sol.
Kelly e amigos resolveram dividir a escalada em
três escalas de graduação depois de uma viagem de escalada para o
Alasca daquelas que tudo que poderia dar errado realmente deu e que
você pensa: What the hell was I thinking? O famoso “que #@*&2 eu
estou fazendo aqui”.
Segundo eles, a escalada tipo I (divertida)
seria aquela comparada a boas margaritas, a boa comida ou ao bom sexo.
É aquela que você realmente se diverte enquanto está fazendo, e se
lembrará sempre quando tiver numa roda de amigos em que você dirá,
nossa, lembra aquela vez... (suspiros)
A escalada tipo II também é
divertida ou fun, mas só quando você já está no cume, ou em um bar, ou
de carro voltando pra casa, lembrando do perrengue que passou, mas que
no final foi muito bom e até engraçado, ou no mínimo uma experiência
gratificante. Geralmente grandes paredes ou escalada em gelo onde você
não come durante dias, não toma banho, guia esticadas de 40m o tempo
todo olhando aquela agarra em que você colocará sua proteção e
pensando: será que quebra? e no final pensa “até que não foi tão mal,
quando faremos uma próxima vez”? Ou com muito otimismo e desapego pensa
“fui tudo horrível, mas consegui então tá valendo”.
Já a escalada
tipo III é aquela que você não quer nem lembrar. Ou tudo deu errado, ou
aquele não era um dia bom ou o lugar era ruim. Ou o seu parceiro um
mala. Ou choveu o tempo todo quando o que marcava era sol. Você torce o
pé e é picado por um marimbondo ou por vários deles. E é alérgico. Ou
todas as anteriores.
E o melhor de tudo isso é que, quando saímos de
casa, na maioria das vezes e mesmo com todo o planejamento, não sabemos
qual o tipo de escalada que vamos entrar. Não dá exatamente para
escolher “quero a tipo IIsup” porque não podemos controlar todos os
fatores e todo o divertimento, como tentamos e devemos fazer com os
riscos e dificuldades. O lugar pode ser lindo, a via perfeita, e você
pode não estar exatamente se divertindo, ou a via ou a escalada pode
ser exatamente uma tipo III casca grossa e você conseguir fazer do
limão uma limonada, levar o perrengue na maior leveza e terminar o dia
feliz da vida. Muita sorte, presença de espírito e controle
psicológico, mas vamos lá.
Porque, ao que parece, escalar
realmente é isso, como diz a escaladora Mariane van der Steen, da
Alemanha, o grau de dificuldade de uma via expressa não só o desafio
físico que ela proporciona e sim o quanto ela te exige mentalmente e
até o quanto ela demanda de certas características da sua
personalidade, determinando se você vai se sair melhor nesta via do que
na outra que teoricamente ou pela graduação tradicional é mais fácil.
Mariane cita a ‘fun scale’ como a melhor maneira de comparar um tipo de
atividade como a escalada que o que mais importa no final das contas é
a diversão.
O escritor e escalador Arno Ilgner que recentemente lançou seu livro Lecciones exprés
na Espanha sobre o fator psicológico na escalada e ministra cursos de
treinamento intensivo em escalada, discute justamente a motivação de
escalar como o melhor fator para se tornar um melhor escalador. Aquele
que além de se preocupar com os resultados se preocupa em curtir o
caminho e desfrutar ao máximo a viagem, sempre aprendendo no processo é
o mesmo que consegue com tranquilidade e controle chegar ao seu
objetivo mais rápido e com melhor desempenho. E se divertindo muito
mais.