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A empolgação até o fim
Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO
em 29/09/09 às 17:20 na(s) categoria(s)
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23 de setembro de 2009 - Olhei para o altímetro
e vi que já estava a 7.700 metros e pensei no que isso significava. Estava
quase na mesma altitude do Nuptse, um dos gigantes do Himalaia que vejo cada
vez que guio grupos ao campo base do Everest. Realmente estava lá, tão alto?
Na minha frente,
por outro lado, o Lui começou a diminuir seu passo e com isso fazia paradas
cada vez mais longas para recuperar o fôlego. Perguntei se estava bem e ele
disse que sim, apenas cansado. Pedi para ultrapassá-lo já que ele também estava
acompanhado por uma sherpa e segui adiante. Após mais meia hora, para minha
grande surpresa, encontrei o restante do grupo. A Andrea estava a minha frente
e isso me deixou extremamente feliz já que desde que havia saído da barraca
sabia com certeza de que não iria vê-la até o final da escalada, pois ela era
muito mais rápida do que eu. Havíamos chegado à temida Yellow Band, o trecho de
escalada mista, gelo e rocha, que a esta altitude 7.800 metros era um desafio
considerável. Uma grande fila havia se formado com um grupo de alemães que
tentavam chegar ao cume sem oxigênio, mas que estavam demorando uma eternidade
para cruzar este desafio. Quando finalmente chegou minha vez de cruzar os dois
trechos de rocha, me deparei com uma parede de rocha saindo do gelo. Apesar da
altitude extrema e da grande inclinação fui subindo sem maiores problemas
usando as pontas dos crampons contra as paredes de rocha e usando a corda fixa
como apoio.
Um pouco mais
tarde, bastante ofegante, estava acima do obstáculo e com uma longa encosta de
neve a minha frente levando ao platô do cume. As primeiras luzes do alvorecer
pela primeira vez me permitiam ter uma idéia de onde estava. Tinha atingido
8.000 metros. Não podia acreditar! Estava a 8.000 metros! Acima de mim apenas
14 montanhas no planeta. Continuei subindo sabendo que eu chegaria no cume. Ao
invés de estar mais cansado, me sentia cada vez mais leve, mais energético
apesar de já estar escalando a mais de 7 horas sem beber uma gota de água ou
comer nada. Acho que o sonho me empurrava para cima. Parte do grupo parou para
trocar de cilindros de oxigênio e ao checar o meu vi que ainda tinha metade
sobrando, o suficiente para chegar de volta ao campo 2. A Andrea seguiu na
frente e eu um pouco atrás. O restante do grupo tinha ficado para trás e agora,
já com o sol brilhando no horizonte, alcancei o enorme platô do Cho Oyu.
Deste ponto era
mais meia hora até o cume verdadeiro, meia hora de caminhada quase plana. Eu
sabia que só chegaria no cume quando pudesse ver o Nepal com o Everest, Lhotse
e Nupse, além de dezenas de outras montanhas que conhecia tão bem dos meus
vinte anos de trekkings no Khumbu. E então, de repente, estava lá, de frente ao
Everest, no cume da sexta mais alta montanha do planeta. O frio de menos 30
graus tinha se composto com o vento dando uma sensação térmica de menos de 40
graus negativos. Quase mecanicamente tirei as fotos de cume, filmei a Andrea
com as suas bandeiras de patrocinadores e país (ela se tornava na primeira
mulher centro americana a escalar um 8.000 metros).

Quando acabamos
com nossos deveres olhamos um para o outro, nos abraçamos e choramos e nestes segundos
liberei toda a emoção que estava no meu coração, todo o cansaço desse mês de
esforços, privações, dores e alegrias. Após vinte anos de sonhos estava onde
tantas, tantas vezes tinha me imaginado estar. Tentava compor a imagem que
tinha das pessoas que tinham escalado um 8.000, meus heróis, com estar ali, no
cume do Cho Oyu. Será possível que eu agora também fazia parte desse tão seleto
clube? O Everest estava a poucos quilômetros de mim e a poucas centenas de
metros acima. Em março eu estaria a caminho do seu cume e agora, visto da
perspectiva do Cho Oyu, ele já não era tão intimidante. Eu tinha conseguido chegar
no topo do Cho Oyu. Também chegaria no Everest. Por momentos me senti
invencível até que o Victor nos lembrou que escalar uma montanha significava
chegar no seu topo e voltar a sua base e que só havíamos feito metade do
caminho. Aos poucos foram chegando o restando do nosso grupo, o Lucas de Zorzi,
o Luis Antônio Felber, os três malteses, Greg, Robert e Marco e com muita
tristeza soube que o Lui havia voltado 200 metros abaixo do cume por causa de
problemas com sua visão. Não estávamos os oito companheiros lá em cima. Faltava
o Lui.

Quando me
preparava para descer, tive um acesso de tosse e por um minuto fiquei com uma
terrível ânsia de vômito que passou ao recolocar a máscara de oxigênio. Tinha
ficado no cume ao redor de 40 minutos sem oxigênio e os efeitos do ar
extremamente rarefeito estavam agindo.
Do caminho de
volta ao campo 2 eu me lembro muito pouco. Não é surpreendente dado o estado de
exaustão que me encontrava. Lembro da descida da Yellow Band rapelando com as
pontas dos crampons raspando nas rochas, e da longa descida do campo 3 vendo o
campo 2 lá em baixo e enganadoramente perto. A noite foi um tanto quanto
agitada como sempre que se dorme muito cansado.
No dia seguinte,
como tinha sido predito pela previsão meteorológica, amanheceu com um céu cinza
feio e o tempo foi piorando durante o dia e quando chegamos no campo 1 já
estava nevando. Chegamos no campo base às 2 da tarde cobertos de neve e fomos
recebidos por carinhosos abraços de Pemba, nosso cozinheiro, e uma mesa cheia
de petiscos. Sabia que se fosse para a barraca não sairia de lá de modo que
fiquei na barraca refeitório até a noite. Quando o grupo todo chegou, o Victor
abriu uma caixa com 24 cervejas e o Pemba uma de coca cola e esquecendo o cansaço,
trocamos experiências até às 9 da noite. O Lui nos contou que conforme foi
subindo foi percebendo que seu olho esquerdo foi ficando estranho e que ao
redor de 8.000 metros já não enxergava nada deste olho.
Seu sherpa
queria que ele seguisse até o cume que estava a não mais do que uma hora de
escalada, mas ele decidiu sabiamente que era melhor voltar. Ele também disse
que estava com vontade de voltar a tentar após alguns dias de descanso, mas, se
ele estava tão cansado como eu, isso só poderia ser possível se parte deste
descanso fosse em Tingri ou algum lugar bem mais baixo do que o campo base. No
Cho Oyu, o campo base fica a 5700 metros, 400 mais alto do que o do Everest e
nós já estamos aqui ou acima desta altitude há 20 dias e sinto que não existe aclimatação
verdadeira a esta altitude. Cada vez que vou da minha barraca até a barraca
refeitório, meros 15 metros, fico ofegante.
Estou felicíssimo
de ter conseguido chegar no cume do Cho Oyu, mas agora quero ir embora, quero
descer para poder me recuperar do cansaço acumulado deste mês. Aqui, isto não é
possível.

Nossa expedição
foi abençoada em muitos sentidos. Nunca ouvi falar de um período tão longo de
tempo perfeito em uma montanha de 8000 metros. De nós oito sete chegaram no
cume e um a 200 metros dali. Não tivemos nenhuma doença séria entre nos, só as
habituais mazelas de montanha, gripes, dores de garganta, diarréias e dores de
cabeça. Ninguém se acidentou. Convivemos super bem por mais de um mês e saímos
da expedição como amigos que querem e vão se rever em alguma outra montanha
deste lindo planeta. Não dá para pedir mais do que isso. Como única mancha na
nossa felicidade, no dia seguinte ao nosso cume ficamos sabendo que um
americano de 73 anos que estava tentando pela segunda vez o Cho Oyu havia morrido
ao descer do cume. Ainda não sabemos de detalhes, mas aparentemente ele morreu
ao chegar ao campo 2 de enfarto ou derrame, condições razoavelmente freqüentes
em alta montanha. Seu corpo será trazido ao campo base amanhã por um grupo de
seis sherpas, tarefa ingrata e perigosa. Ele subiu com o auxilio de Martin, um
guia californiano que no decorrer deste mês se tornou nosso amigo e nós todos
estamos muito tristes por Cliff que morreu e por Martin que tem nos próximos
dias várias tarefas difíceis.
Agora é
descansar por dois dias enquanto esperamos os yaks que levarão nosso
equipamento ao campo intermediário e de lá tomar os jeeps que nos levarão de
volta a Katmandu, onde devemos chegar dia 29 de setembro.
Por apenas
algumas poucas horas duvidei da validade do que estava fazendo nesta montanha e
isto foi nas primeiras horas do dia de cume quando ainda não tinha encontrado
meu ritmo. De resto foi um dos meses mais felizes de minha vida e não vejo a
hora de repetir esta experiência no Everest no começo do próximo ano. Ainda não
sei responder a clássica pergunta de porquê alguém dedica tanto tempo e
dinheiro, arriscando a saúde e a própria vida para ficar alguns minutos no topo
de alguma montanha. Não sei formular uma resposta lógica para isso, apenas sei dizer
que no fundo do meu coração está a resposta e ele me diz para seguir escalando
e chegando no topo das montanhas e estou acostumado a seguir o que ele me diz.

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