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Rumo ao Everest

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Quase desistência


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 29/09/09 às 16:50 na(s) categoria(s) Todos posts
23 de setembro de 2009 - Apesar de eu achar que já tinha levado quase tudo o que precisava para o campo 2 fiquei surpreendido com o peso da mochila. Além disso, tem o peso que está no corpo: as botas duplas com 3 quilos, a cadeirinha com mosquetões, os crampons e as roupas pesadas no corpo.

Saímos as 7 e meia da manhã com bastante frio, apesar do céu azul, com planos de chegar ao campo 2 no máximo à uma da tarde. Com isso teria ao redor de 8 horas de descanso antes de sair para o cume. Após meia hora de escalada encontrei o Lui se queixando de muita dor nas mãos por causa do frio. Tinha saído com luvas finas e a manhã estava realmente gelada. Tirei suas luvas e coloquei suas mãos nas minhas axilas enquanto abria um pacote de hand warmers (pequenos envelopes de substância química que ao reagir com o ar produzem calor) e pegava minhas luvas mais grossas. Após vinte minutos de muita dor suas mãos esquentaram e prosseguimos.

Subi o obstáculo entre o campo 1 e o 2, o Ice Cliff. Desta vez, bem mais aclimatado, consegui subir com muito mais facilidade. Cheguei ao campo 2 as duas da tarde e fui imediatamente para a barraca para me hidratar e descansar. Por duas horas eu e a Andrea derretemos litros de neve e comemos um pouco, o máximo que nossos estômagos aceitavam a esta altitude extrema. O plano era sair à meia noite de modo que eu teria 8 horas para descansar antes do grande dia.

Quando já estava pronto para dormir o Marco veio de barraca em barraca avisar que o Victor tinha decidido antecipar a saída para as 10 e meia da noite. Já há vários dias que todas as expedições sabiam que o dia 24 era o que a previsão meteorológica tinha avisado ser o melhor dia de cume e todos tinham acertado seus planos para subir nesta mesma noite. Com isso, o Victor achou melhor sair mais cedo para tentar evitar as filas nas cordas fixas da Yellow Band, uma área de rochas um pouco acima do campo 3. Desde a tragédia de 1996 quando 10 escaladores morreram no Everest em parte por causa dos congestionamentos nas cordas fixas próximas do cume que este tipo de situação é temido e evitado.

Com este novo horário de partida, tinha apenas 4 horas para dormir, pois o preparar para sair em alta montanha raramente tarda menos do que duas horas entre derreter neve, tentar comer algo e se vestir e equipar. Apesar da ansiedade crescente, consegui dormir superficialmente por algumas horas e despertei um pouco mais descansado às 8:30 da noite quando tocou o despertador. As próximas duas horas passaram muito rápido, mais do que eu posso recordar. Só sei que às 10:30 da noite metade do grupo já estava do lado de fora das barracas colocando os crampons. Pela primeira vez vesti meu down suit, o traje integral de pena de ganso sobre duas camadas de roupas térmicas. Coloquei a máscara de oxigênio com fluxo de 2 litros e saí do calor da barraca para enfrentar o frio de 7.100 metros. 

A noite estava estrelada e sem absolutamente nada de vento, mas mesmo assim fria. Tinha vontade de urinar, mas só de pensar no trabalho com o down suit e a cadeirinha acabei desistindo. Na confusão da escuridão cortada pelo facho das lanternas de cabeça vi que o Victor já estava saindo acompanhado de 2 ou 3 outros. Acabei de me arrumar, me despedi da Andrea lhe desejando boa sorte e comecei a caminhar. Após 50 metros de plano iniciei a subida que levaria 400 metros mais acima ao campo 3 e me surpreendi com a facilidade com que ganhava os metros verticais por causa do oxigênio. Acima de mim, podia ver uma longa fila de luzes que iam até se misturarem com as estrelas. Mais expedições tinham tido a mesma idéia que nós de sair cedo. Não reconhecia ninguém e não sabia quem era de nosso grupo e quem não era. 

Tudo se resumia a escuridão com vultos, todos vestidos da mesma maneira, down suits vermelhos cobrindo todo o corpo e o rosto encoberto pelas máscaras de oxigênio. Conforme fui caminhando, comecei a sentir um desconforto cada vez maior por causa do calor. O que mais temia estava acontecendo. Tinha me vestido com demasiadas camadas e como ainda era razoavelmente cedo, antes da meia noite, não estava frio o suficiente para todas as roupas que estava usando. A sensação de calor foi minando minhas energias e minha velocidade foi caindo assustadoramente. Tirar alguma camada era impensável. Teria de parar, tirar os crampons, as botas, o down suit e isso, além do extremo gasto de energia, me exporia ao frio da noite à quase 7.500 metros. Para piorar a situação minha lanterna quase apagou e não conseguia colocar os pés de maneira eficiente nas pegadas deixadas pelos que tinham ido à minha frente e escorregava com freqüência. Tinha uma lanterna sobressalente, mas para pegá-la teria de parar, tirar a mochila, buscar a lanterna e nesta altitude onde cada pequeno movimento significa ficar ofegante por alguns minutos o simples fato de pegar uma lanterna era algo que estava além do que eu podia pensar. 

Mas, além do cansaço, nesta altitude sentia uma espécie de preguiça mental, só de pensar em parar e fazer algo já me dava um desanimo extremo, então continuei mesmo sem enxergar muito. Achei que ia encontrar com Victor e o resto do grupo no campo 3 e concentrei todas minhas energias em ganhar esses 400 metros para dai poder parar junto com o grupo. Fiquei amargamente desapontado ao chegar ao campo 3 e ver que o grupo não estava mais lá. Não sei se tinham parado e já partido ou se nem haviam parado. Sentei na neve e fiquei pensando no porque estava lá. Não estava escalando, estava simplesmente caminhando em uma interminável encosta. Não estava me divertindo, estava apenas sofrendo com o calor, com a falta de oxigênio, no escuro, sozinho. Veio uma enorme pena de mim mesmo e uma vontade enorme de descer. 

Escalar em gelo e neve era outra coisa. Quando estava em uma parede de gelo tinha que usar minhas habilidades de escalador, colocar o ice axe de maneira correta, cravar as pontas dos crampons de maneira correta. Aqui não, estava apenas caminhando e sofrendo. Para piorar, o Padawa, nosso sherpa principal chegou até onde eu estava para ver o que estava acontecendo e eu lhe perguntei quem estava atrás de mim e ele me disse que eu era o último. Isso acabou de me liquidar psicologicamente. Eu era o último? Como? Eu que sempre sou tão forte? Ainda muito dividido entre continuar e voltar, levantei e recomecei a subir. Daí, quase como por milagre, me senti mais forte e o calor que até agora tinha minado minhas forças desapareceu e comecei a melhorar meu ritmo e em pouco tempo estava atrás do Lui e o simples fato de ter a companhia dele me fez sentir que tudo estava correto. Com o novo ritmo comecei novamente a sentir prazer de estar lá.

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