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Agora são meio dia e dentro de 3 dias, dentro de exatamente 72 horas, sonho estar no cume da sexta mais alta montanha da Terra. Não sei se vou conseguir, nenhum de nós sabe. Estamos nesta expedição há 23 dias e amei cada segundo dela. O cume será um prêmio. Sinto assim agora, mas sei que se não chegar será muito difícil pensar assim. Sei que ficarei frustrado. Coloquei muita energia nisso tudo. Muitos sonhos, muito dinheiro, muito tempo. Quero o cume. Mas, tenho que aceitar o que vier.
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Saimos no dia seguinte tarde, pois choveu até as 9 da manhã. Passamos no posto policial e a primeira coisa que nos perguntaram era onde estava nosso guia, para o que eu respondi em nepalês que eu era o guia. O policial ficou muito surpreso por eu falar o idioma e antes que se recuperasse do susto já tinhamos partido felizes de estarmos só nós dois caminhando pelo interior do Nepal em uma região remota.
Neste primeiro dia, a paisagem foi dominada pelos campos de arroz em terraços lindíssimos que competiam em beleza com os que tinhamos visto nas Filipinas no começo do ano. A trilha bem acidentada seguia o caudaloso Budhi Gandaki que será nosso companheiro por muitos dias. Os vilarejos habitados por Gurungs, uma das 20 etnias do Nepal, eram muito pequenos, uma diferença marcante com as prósperas e grandes vilas da região do Everest. As casas tinham em frente bandeiras verticais conhecidas por "Cavalos Voadores" sinal de que estavamos em região budista. Apesar da beleza do lugar, o dia foi dificílimo por causa do calor. Suavamos litros e mesmo bebendo muito sentiamos que não conseguiamos repor o que perdíamos. Mesmo assim, fizemos um dia longo na esperança de ganhar um pouco mais de altitude e com isso diminuir o calor. Mas, a trilha sobe lentamente e ao acabarmos o dia sabíamos que o seguinte seria tão dificil quanto este.
No dia seguinte o vale se tornou mais estreito, o rio muito mais violento e a trilha com inúmeros sobe e desce. O calor estava ainda pior, pois o sol havia saído das grossas nuvens que haviam coberto o céu no dia anterior e a humidade opressiva deixava a respiração muito difícil. Mas, pelo menos, havia uma boa coisa, as sangue sugas que tanto haviam incomodado na última vez que eu havia feito um trekking nesta estação do ano, estavam ausentes, inexplicavelmente ausentes.
Nossa longa caminhada foi recompensada ao chegarmos à Tatopani, onde haviamos planejado dormir. O nome deste minúsculo vilarejo de cinco casas significa " agua quente" e fazendo juz ao seu nome, ao lado da casa onde dormimos havia uma fonte de água deliciosamente quente, na temperatura perfeita. Aos poucos sentimos todas as dores do dia desaparecerem enquanto nos banhávamos na deliciosa fonte. Após o farto dal baat, fomos para nosso quarto para dormir. Mas, na falta de sangue sugas havia uma cobra de um metro e meio passeando tranquilamente pela porta do quarto e dentro havia duas aranhas de 15 centímetros cada além de vários ratinhos que nos acordaram muitas vezes durante a noite com suas correrias.
Nosso terceiro dia ainda foi quente embora já um pouco menos, pois subimos à 1300 metros. Se o rio estava violento antes, agora descia em ondas impressionantes, saltando de rocha em rocha com um ruido ensurdecedor. Caminhamos boa parte do dia por dentro de uma linda floresta, a trilha estreita as vezes subindo uma centena de metros para então voltar a caminhar ao lado do rio. À uma da tarde, mais uma vez exauridos pelo calor, decidimos parar em um convidativo gramado e colocar nossa barraca.
Para nós, que desde março, estamos nas montanhas, estes três dias de trekking nas terras baixas do Nepal tem sido uma mudança maravilhosa, apesar do calor. Mas, sabemos que em mais alguns dias estaremos mais uma vez cercados de neve e dentro de nossos sleeping bags tiritando de frio. Estamos felizes de ter vindo!
Nos dois próximos dias de caminhada continuamos seguindo o rio e ainda sofrendo muito com o calor. Por estarmos em pleno verão, mesmo a 1800 metros a humidade é muito desagradável e com poucas horas de caminhada já nos sentimos completamente exaustos. Apenas no quinto dia à tarde que sentimos que deixamos o calor para trás. Nesta maravilhosa tarde caminhamos por dentro de uma das mais lindas florestas que já vi no Nepal. Árvores enormes, riachos de montanha e pinheiros compunham o cenário ao redor da estreita trilha que subia ininterruptamente em direção à vila de Namrung à 2600 metros. O Budhi Gandaki aqui não tem mais do que vinte metros de largura, mas ainda desce de maneira selvagem com grandes corredeiras que fazem o meu coração de kayaker bater forte.
Aproveitando que este e o último dia em relativa baixa altitude, enquanto cozinhávamos tomamos uma pequena garrafa de whisky nepalês como aperitivo. Esse luxo não será muito comum nos próximos meses.
Apesar de estarmos em plena época de chuva, ela tem sido generosa connosco. Durante os dias não tem chovido e temos dormido embalados pelo gostoso ruido da chuva no teto da barraca.
Por mais dois dias continuamos subindo o vale do Budhi Gandaki e finalmente ganhando altitude. Os vilarejos foram ficando cada vez mais tradicionais tibetanos já que estávamos agora a não mais do que dez quilômetros da fronteira e chegando a um dos vilarejos que servem de base para uma rota tradicional de comércio entre o Tibete e o Nepal, ainda hoje usada pelos locais.
Cada vez mais este trekking me atrai tanto pela natureza como pela cultura. É sem duvida um dos trekkings mais interessantes que já fiz e mesmo que não tenhamos nenhuma vista das montanhas, como parece que acontecerá, ainda assim isso é compensado pela gente que encontramos no caminho, sempre com um grande sorriso e um interesse sicero em nós. Além disso, a natureza aqui é quase virgem e me faz pensar como deve ter sido o Nepal cinquenta anos atrás quando o turismo, a superpopulação e o desmatamento modificassem tanto a paisagem. Aqui, nada disso ainda aconteceu e fico feliz de ter tido a oportunidade de ver esta região antes das inevitáveis mudanças que virão.
Passamos pelos vilarejos e vemos um casal de ferreiros, ele batendo o ferro em brasa e ela avivando o fogo com um fole feito de pele de algum animal que maneja com destreza jogando um constante vento na fogeira. Mais adiante, vemos um grupo de mulheres tecendo suas elaboradas roupas em teares tradicionais enquanto outras produzem o fio de lã que será então tingido para ser usado no tear. As crianças levam no pescoço uma infinidade de medalhas com figuras religiosas, Buda, Padma Sambava, Tara alem de relicários feitos pelos lamas. Tudo isso é para proteção contra as doencas e os sempre presentes maus espíritos. Aqui, neste lugar remoto, os lamas e os shamans ainda são os principais médicos e a medicina ocidental ainda é vista com desconfiança e só usada caso a tradicional não funcione.
Finalmente, após oito dias de caminhada dura, chegamos ao último vilarejo antes do passo que nos levará ao outro vale, o dos Annapurnas, onde estivemos há apenas três meses. Samdo está situado no começo de um lindo platô cercado de montanhas altíssimas, entre elas o maciço do Manaslu que teima em se esconder entre as nuvens cinzas que derramam sobre nós uma fina e gelada garoa. Como vamos ficar aqui três noites e usar este lugar como base para algumas caminhadas de aclimatação, resolvemos dormir em um pequeno e muito simples "hotel". A idéia é chegar em Katmandu o mais aclimatados possível e com isso não ter problemas nos primeiros dias de viagem até o campo base do Cho Oyu.
Somos os unicos extrangeiros por aqui e nos livros de controle dos postos de polícia onde controlam nossas permissões para estarmos nesta região restrita vemos que cinco dias antes de nós passou um francês e que depois dele nós somos os unicos. Que privilégio estar no século 21 em um lugar ainda tão isolado e intocado!
Após sete dias de caminhada dura e ininterrupta, decidimos tirar o dia para descansar a passamos o dia lendo embaixo dos sleeping bags. À 3700 metros, mesmo no verão, a temperatura está razoavelmente baixa piorada pela humidade vinda da garoa incessante. Depois de vários dias de razoável bom tempo, parece que a monção voltou.
No dia seguinte, o tempo continuou horrível e desistimos de nosso plano de fazer uma caminhada até a fronteria com o Tibete. Nossas chances de ver algo são muito reduzidas e resolvemos partir para Dharamsala, uma pequena construção de pedra na metade do caminho para o Larka La, o passo que liga o vale do Makalu com o vale dos Annapurnas, com 4900 metros.
Arrumamos nossas coisas e às 9 da manhã saimos debaixo de uma chuva fina que em breve aumentou de intensidade e nos acompanhou por todo o dia. Cruzamos o portal de entrada do vilarejo, atravessamos a pequena ponte de madeira e seguimos uma estreita trilha que imaginamos seria a correta. A visibilidade estava muito pequena com uma bruma que cobria tudo. Seguimos a trilha próxima do rio por entre um labirinto de grandes pedras, mas em breve vimos que o caminho não poderia ser aquele. Resolvemos subir as encostas por entre uma vegetação rasteira e encontramos uma trilha bem marcada e, mais confiantes, seguimos a trilha que subia e descia por entre muita lama. Por três vezes tivemos que cruzar riachos que desciam dos vales laterais. Em um deles não conseguimos achar um caminho saltando de pedra em pedra como tinhamos feito com os outros e não teve outra maneira do que tirar as botas, arregaçar as calças e atravessar a torrente água até acima dos joelhos. Neste ponto, já estávamos completamente molhados e com muito frio. Porém, ainda acreditávamos que conseguiríamos chegar ao nosso objetivo e com a esperança de roupas secas e uma boa sopa continuamos, embora dalí para frente a trilha tinha se tornado apenas um pouco de grama amassada pelo passar dos yaks. Ainda assim seguimos, mas já desconfiando que tínhamos tomado o caminho errado desde que saimos da vila. A certeza veio quando nos deparamos com uma queda abrupta de mais de cem metros acima de um enorme glaciar. Sem ter outra alternativa, resolvemos voltar todo o caminho que tinha nos tomado quatro horas para percorrer. Chegamos de volta o nosso "hotel', nos trocamos e preparamos um bom jantar e aos poucos fomos nos sentindo humanos novamente.
No final da tarde, a chuva parou e saimos pelo povoado para tentar conversar com alguém e ver onde tinhamos errado. Consideramos contratar um guia, mas não estávamos felizes com isso. Tínhamos até então feito o trek sozinhos e queríamos continuar asim. Por sorte, encontramos dois rapazes que estavam se preparando para, no dia seguinte, cruzar a fronteira do Tibete onde iam comprar comidas e outros artigos que pudessem vender Eles, com muita calma, nos mostraram onde tínhamos errado e nos disseram que agora não teríamos mais problemas em encontrar a trilha correta e que não precisaríamos de guias. Fomos dormir contentes com as novidades e decidimos que, como tinhamos perdido um diam irIamos fazer o passo de uma só vez e por isso colocamos o despertador para as 5:40. Teríamos um longo dia pela frente subindo 1400 metros e descendo o mesmo do outro lado.
Às 5:30 acordo com a Andrea me sacudindo e apontando pela janela. O tempo tinha limpado completamente e pela primeira vez neste trekking tínhamos céu azul sem uma nuvem e as montanhas que até então tinham se escondido estavam abertas iluminadas pelo sol nascente. Que espetáculo! O Manaslu, com seus dois picos, estava dourado com os primeiros raios. Arrumamos nossas coisas mais uma vez, tomamos um rapido café da manhã e saimos em direção ao sol que não tardou em nos brindar com seu calor. Estávamos com as roupas de ontem, molhadas e frias e aquele calor foi um bálsamo. Cruzamos novamente a ponte e seguimos as instruções que haviam nos dado e em poucos metros estávamos na trilha correta. Tinhamos estado tão próximos...Mas, no final tudo tinha dado certo. Se tivessemos ido no dia anterior para Dharamsala teriamos perdido o espetáculo das montanhas.
A trilha seguiu um vale que ontem nem sabiamos que existia por causa da bruma e em pouco tempo tínhamos ganhado os 700 metros que separavam Samdo de Dharamsala. O lugar era lindíssimo, um pequeno plato gramado com vários yaks pastando placidamente com seus sinos balançando e produzindo o som que tanto associo com Nepal. O Manaslu reinava a sul e não pudemos deixar de pensar que seria ótimo voltar aqui no futuro para escalá-la. No dia seguinte era meu aniversário de 53 anos e decidimos honrar uma tradição de procurar passar nossos aniversarios em lugares especiais. Nesses últimos anos conseguimos isso. Em 96 passamos em Bishkek, a capital do Kirgistão. Em 97 foi na Guatemala a bordo do meu recém comprado veleiro. Em 98 foi no topo do Chimborazo, no Equador, e agora por que não ficar neste lindo lugar e fazer o passo no dia seguinte? Montamos nossa barraca e passamos o dia secando nossas coisas, nos deliciando com o sol morno das montanhas e lendo. Amanhã, no meu aniversário, o Larka La.
Acordamos com calma e seguimos em direção ao passo subindo gradualmente por entre uma vegetação que foi se tornando cada vez mais escassa ao passarmos a barreira dos 4.500 metros. De repente, vemos a nossa frente uma pequena lagoa com um tom de azul turquesa inacreditável. Era de um azul tão forte que parecia irreal. A água absolutamente cristalina refletia os picos nevados na calma da manhã sem vento. De onde vinha um azul tão maravilhoso? Sem respostas, ficamos admirando o melhor presente de aniversário que poderia ter recebido. A muito custo seguimos nosso caminho e em menos de três horas estávamos no topo do passo rodeados pelas tradicionais bandeiras de horação tibetanas.
A descida bastante íngrime nos levou a um pequeno vilarejo de apenas cinco casas ao meio de uma área plana e gramada por onde um riacho descia preguiçosamente. O tempo tinha voltado a piorar e o pequeño vale estava envolto em uma grossa neblina e nos enfiamos dentro de nossos sleeping bags para passar o restante do dia lendo.
Ao acordarmos não podíamos acreditar no que víamos. Por todos os lados estávamos cercados de montanhas nevadas lindas. Elas estavam lá o tempo todo, mas não tínhamos idéia! Tomamos nosso café da manhã de chapati, o pão local, com uma omelete e seguimos trilha abaixo. Nesses dias todos de dal baat, uma dieta bem pobre em proteinas, vínhamos sonhando com ovos, mas, nos viliarejos bastante pobres, aparentemente isso é um luxo incomum.
Com rapidez perdemos altitude enquanto voltávamos a caminhar por uma maravilhosa floresta temperada rica em liquens, cogumelos de todas as formas e tamanhos e árvores altíssimas. Ao lado o nosso novo companheiro, o rio Marsiangdi Kola começava a ganhar força ao ser alimentado pelas inúmeras quedas d’água que despencavam das altas montanhas. Mais tarde, no dia seguinte, ele seria uma torrente de águas amarronzadas descendo selvagemente pelo vale. Saboreamos este dia de caminhada pela linda floresta sabendo que por muito tempo não teremos este tipo de paisagem, apenas a aridez do platô tibetano e o gelo eterno do Cho Oyu.
No último dia do trekking voltamos a nos deparar com o calor do início do trekking, mas após algumas horas chegamos à estrada e antes que pudessemos nos adaptar já estávamos no burburinho de Katmandu, cercados de barulho, poiluição e muita gente. A deliciosa paz que tivemos o privilégio de vivenciar nestes fantásticos 16 dias repentiamente era uma coisa do passado. Agora temos pela frente sete dias de organização para a grande expedição do ano: Cho Oyu.
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Dormimos longas horas descansando do Elbrus e do longo vôo de Moscou a Tanzânia. Na manhã seguinte saí para tomar o café da manhã sob um céu incrivelmente azul e rodeado de minha flor predileta, frangipani. À noite recebemos nosso grupo, que apesar de terem se conhecido horas antes já estava entrosado, brincando uns com os outros como normalmente são os grupos de brasileiros. Que diferença em relação ao nosso grupo de anglo saxões do McKinley. Imediatamente soube que seria uma ótima viagem!
No dia seguinte fomos para uma pousada na entrada do parque de propriedade de nosso operador. Todos tiveram a mesma impressão, estávamos em um Monte Verde no meio da Tanzânia. Bungalows rodeados de pinheiros e um bar com lareira onde fiz o breefing da escalada e pude conhecer um pouco mais de cada um de nossos onze clientes. Apesar de ser um grupo muito heterogêneo, de 27 a 62 anos, mercado financeiro a policial, homens e mulheres, experientes trekkers a completos iniciantes, todos estavam felizes de estar onde estavam e de estar compartindo esta experiência com os outros.
Nosso primeiro dia de trekking foi um dia fácil por uma linda floresta tropical com macacos columbus, lindos com sua enorme cauda branca. Chegamos ao nosso acampamento após apenas três horas de caminhada com um ganho de 600 metros verticais. Infelizmente o lugar de acampamento era pequeno e com a chegada de outros grupos acabamos ficando uma barraca ao lado da outra. O Kilimanjaro é uma montanha muito popular e apesar de estarmos usando a rota menos popular por ser mais cara, ainda assim tinha bastante gente na trilha. A proporção staff / cliente nesta montanha é de impressionantes quatro para um entre guias locais, carregadores e pessoal de cozinha.
O segundo dia foi muito mais difícil com outros 800 metros de ganho vertical e oito horas de caminhada. Apesar disso o grupo caminhou de forma uniforme. Infelizmente o Kilimanjaro se manteve tímido coberto por nuvens aparecendo apenas brevemente algumas poucas vezes. No dia seguinte novamente tivemos um dia fácil apesar de que a altitude de mais de 4000 metros já se fazia sentir. Para compensar o esforço tivemos lindas vistas do Kilimanjaro e do pico ao lado dele, o Mawenzi que por toda nossa escalada seria um companheiro constante.
O Kilimanjaro quebra todas as regras de segurança em termos de aclimatação. Normalmente se diz que não se deve subir mais do que 400 metros por dia e que a cada 1000 metros de ganho se deve dormir duas noites no mesmo lugar. Era nosso terceiro dia e já estávamos a 4300 metros! Por conta disso eu havia recomendado a todos que tomassem Diamox, um diurético que comprovadamente ajuda no processo de aclimatação e também havia colocado um dia a mais no roteiro.
Com isso, no dia seguinte ficamos novamente no acampamento Mawenzi Turn Hut e usamos o dia para fazer uma caminhada de aclimatação de 4 horas chegando até 4700 metros, a altitude que dormiríamos no dia seguinte. A visão durante esta caminhada foi fantástica, de um lado o imponente cume do Kilimanjaro com sua caldeira emergindo das nuvens que cobrem a planície africana e do outro os muitos cumes rochosos do Mawenzi.
Chegou então o grande dia, um dia longo, cansativo que nos levaria ao ponto mais alto da África! Saímos às 8 da manhã em direção ao School Hut, um abrigo a 4750 metros que usaríamos como base para o ataque ao cume. Como este abrigo pertence ao nosso operador, tínhamos todo ele apenas para nós. Não que isso nos desse muito espaço. O lugar era um quarto de dez por seis metros com um enorme beliche cheio de colchões um ao lado do outro onde nos acomodamos para a longa espera desde o meio dia, horário que chegamos, até a meia noite, hora tradicional de iniciar a subida de 1.150 metros até o cume.
Passamos à tarde preparando nossas mochilas, comendo e hidratando, pois no dia seguinte teríamos ao redor de 15 horas de caminhada em altitude. Eu e a Andrea revisamos o equipamento de cada um dos clientes recomendando que tivessem três camadas de roupas nas pernas, duas meias, e quatro camadas no tronco além de gorro, duas luvas, echarpe, filtro solar e labial, óculos escuros e snacks.
Fomos dormir após o jantar às seis da tarde, mas a ansiedade, os roncos eventuais e o amontoado de gente não deixou ninguém dormir bem. Apesar disso quando tocou o despertador as onze todos estavam de bom humor e animados para o desafio que tinham pela frente. Tomamos um breve “café da manhã”, dividimos o grupo entre eu, a andrea e os cinco guias locais de modo que cada um de nós seria responsável por no máximo dois clientes podendo com isso dar atenção a cada um deles nesta longa e difícil noite. Pontualmente a meia noite com uma temperatura de ao redor de oito graus negativos começamos a subida, procurando dar um ritmo lento, porém constante. Após uma hora, o grupo havia se dividido em três subgrupos com a Andrea, o Pilli, a Marjorie, o Alexandre, o César, o Guto e a Gita na frente, o João, o Daniel, o Irineu e o Marcelo no meio e eu e o Paulo no final. Conforme as horas corriam e nós subíamos a temperatura ia baixando cada vez mais e as paradas que tínhamos planejado fazer a cada hora se tornaram mais breves, pois mesmo nos poucos segundos que levávamos para beber um pouco de água semi congelada e comer algum snack já nos esfriávamos muito. Após quatro horas de caminhada estávamos já bastante próximos de nosso primeiro objetivo, o Gilman’s Point a 5685 metros já na borda da cratera.
Adiantei-me um pouco para ver como estava o grupo da frente já que a Andrea tinha ficado um pouco para trás com o César. Cheguei ao Gilman’s Point junto com o grupo da frente às 5 horas, um tempo bastante bom quando normalmente se planeja chegar aí ao nascer do sol, uma hora mais tarde. Após nos abraçarmos e comemorarmos um pouco nossa conquista seguimos adiante, agora contornando a borda da cratera em direção ao cume verdadeiro do Kilimanjaro, o Uhuru Peak com 5895 metros.
Mas, estava preocupado com o Paulo que tinha ficado bastante para trás. Mesmo sabendo que estava acompanhado por um de nossos experientes guias locais resolvi voltar para acompanhá-lo. Sabia que havia grandes chances de não fazer o cume, mas isso neste momento não interessava, queria ter certeza de que ele estava bem. Voltei ao Gilman’s Point e comecei a descer a forte inclinação que precede este ponto e encontrei-o ofegante e dizendo que estava um pouco tonto. Segui em sua frente fazendo um passo extremamente lento, fazendo uma parada para respirar a cada passo e com isso ele começou a se sentir melhor e subimos com grande esforço até o Gilman’s Point. Não sabia muito bem como ele estava, mas ele queria seguir então começamos a caminhar pela borda da cratera, mas após alguns metros ficou claro para mim que seria uma temeridade continuar. Talvez ele até conseguisse chegar ao cume, mas com certeza teria muita dificuldade em voltar. Medi a sua saturação e estava bastante baixa, 64. Auscultei seu pulmão para ver se havia algum sinal da temida HAPE (edema pulmonar de altitude), mas não encontrei nenhum sinal suspeito.
Voltamos ao Gilman’s Point, filmamos e fotografamos um pouco e começamos a longa descida de mais de 1000 metros até o Kibo Hut. Ele estava exausto e com freqüência se desequilibrava e eu fiz a descida inteira segurando-o pelo capuz de seu casaco para evitar que ele caísse. Após longas duas horas chegamos ao hut e arranjei uma cama para ele dormir um pouco. Estávamos agora em outra rota, a apelidada de Coca Cola e para comemorar nosso feito comprei uma para cada um de nós. Nunca uma coca foi tão deliciosa como essa. Já eram 8 da manhã e eu não havia bebido ou comido nada a noite inteira. Sempre preocupado com o bem estar do grupo fui deixando para beber mais tarde e finalmente quando estava disposto a fazê-lo acabei dando toda minha água e também o chá que trazia em minha garrafa térmica para o Paulo que necessitava mais do que eu.
Às onze horas o restante do grupo chegou. Estavam exaustos também, mas extremamente felizes com sua chegada ao cume. Todos eles haviam logrado colocar os pés no ponto mais alto da África. Após um merecido almoço seguimos mais quinze quilômetros até o nosso acampamento, outros 1100 metros abaixo. Eles haviam completado um dia muito difícil com 1150 metros de subida a noite, com frio, terreno escorregadio e descido 2100 metros. A noite de sono que se seguiu foi a melhor de toda a viagem.
Quando terminamos o jantar e fomos para nossa barraca finalmente a Andrea pode me contar de seu dia já que desde que iniciamos a subida não tinha tido a oportunidade de conversar com ela. O Kilimanjaro tinha sido o quarto dos seus Sete Cumes e ela estava exultante.
O dia seguinte foi delicioso! Descemos outros 1000 metros em vinte quilômetros e apesar do cansaço do dia anterior caminhamos como se nada tivéssemos feito. O oxigênio estava fazendo milagres com nosso corpo e a cada passo nos sentíamos mais e mais fortes. No portão do parque comemoramos com merecidas cervejas e tomamos a van rumo ao nosso delicioso hotel em Moshi.
A viagem tinha sido um sucesso completo e eu me sentia realizado pessoal e profissionalmente. Mesmo não tendo chegado ao cume verdadeiro sentia que tinha sido parte do porque este grupo de pessoas tinha realizado seu sonho. Para mim isso bastava.
Com o Kilimanjaro fechamos um ciclo de treinos deste ano e nos sentimos mais do que prontos para nosso desafio maior de 2009, chegar ao cume do Cho Oyu, a sexta mais alta montanha da Terra com 8201 metros, nossa última etapa antes de enfrentar o Everest em abril de 2010. Agora uma sucessão de vôos longos nos levaria ao Nepal e de lá ao Cho Oyu.
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Quase já podia sentir o gostinho de chega a parte mais alta da montanha. Só dependia do tempo se manter estável. Enquanto descíamos o tempo foi abrindo ainda mais e lá em baixo, na direção do Campo Base, podíamos ver a tundra, o primeiro verde desde que aterrisamos tantos dias atrás.
Quando fomos dormir o tempo tinha limpado completamente e dormimos com o coração cheio de felicidade.
03/06/09 – Campo 2 (3300 metros) – Campo 3 (4300 metros)
Acordamos com uma manhã maravilhosa, o céu azul escuro de altitude e o sol refletindo no topo das montanhas. Saímos as 10 da manhã para finalmente deixar permanentemente o Campo 2 que nos hospedou involuntariamente tantos dias. Como não queria subir com o trenó minha mochila acabou ficando bem pesada, muito mais do que eu esperava. A caminhada foi tranqüila até certo ponto quando o George mais uma vez parou e nos disse que não conseguiria seguir. Para evitar o que já tinha acontecido após o Campo 1 acabamos dividindo o peso dele entre alguns de nós e eu fiquei com mais quatro quilos. Como já estava quase no meu limite, a caminhada deste ponto em diante foi muito dura. O que amenizava o esforço era a vista que se tornava cada vez mais espetacular. O Denali finalmente aparecia em toda sua grandeza e quando cheguei tive a nítida sensação de que todos esses dias tinham sido apenas uma caminhada de aproximação e que a verdadeira escalada estava a nossa frente.
O Campo 3 fica em um lindo platô na beira do Head Wall, a encosta de 50 a 55 graus que nos leva até uma fina crista no final da qual se encontra o nosso último campo, o 4. A vista não poderia ser mais espetacular. Atrás de nós o Denali se elevando dois mil metros verticalmente. Ao sul as silhuetas do Mount Hunter e do Foraker, as duas montanhas que vem nos fazendo companhia desde o inicio da escalada e que aos poucos estão ficando mais baixas conforme vamos ganhando altitude. E todo ao redor glaciares maravilhosos, imponentes e amedrontadores em sua magnitude.
No campo 3 tem um posto dos guarda parques e em frente de sua barraca colocam a previsão do tempo diariamente e assim que chegamos fomos checar o que teríamos pela frente e as noticias não eram muito boas. A previsão era de dois dias de ventos fortíssimos de mais de 60 quilômetros por hora. Como o caminho entre o Campo 3 e o 4 passa por uma crista muito exposta o vento é uma preocupação grande.
Após descansarmos um pouco começamos o duro trabalho de montar o campo, aplainar as plataformas para as barracas e fazer a cozinha. O que não precisamos fazem aqui foi o nosso banheiro já que no campo 3 existe a mais peculiar privada que já vi. Um cercado de madeira de um metro de altura ao redor de uma privada, mas com o último lado aberto para a montanha e também para quem quer que passe por ali. O lado bom é que a vista da privada era a mais linda imaginável, montanhas, glaciares e a imensidão do Alaska. Não fosse o frio seria um bom lugar para apreciar a vista confortavelmente sentado.
Ao chegar estava me sentindo muito fraco e cansado, mas após comer e me hidratar as forcas voltaram. Mais uma vez percebi o quanto estava sofrendo por falta de comer o suficiente. Eu necessito pelo menos 4000 calorias para este tipo de esforço físico e não creio que esteja comendo mais do que 2500.
Após o jantar tivemos muita dificuldade em entrar em nossa barraca. A vista com a suave luz do entardecer estava absolutamente mágica e apenas o crescente tiritar nos obrigou a buscar refugio no calor de nossos maravilhosos sleeping bags.
04/06/09 – Campo 3 (4300 metros) – transporte (4000 metros) - Campo 3
Infelizmente o período de bom tempo não foi muito longo. Pela manhã o céu estava coberto e nevava levemente. Para piorar acordei muito cansado após uma péssima noite. Tive dor de cabeça e acordei diversas vezes. A barraca tinha ficado em terreno irregular e o meu lado estava inclinado e cheio de calombos. Ao caminhar para o café da manhã, uma distancia de não mais do que cinqüenta metros, cheguei cansado e preocupado. Tudo me lembrava minha última experiência no Aconcagua quando após um dia duro, a ida de Confluência para o campo base percorrendo a Playa Ancha, tive uma noite horrível e acordei com o mesmo cansaço e desânimo. Uma profunda sensação de que meu corpo não estava bem em grande contraste do que vinha sentindo até então. Será que a altitude estava me afetando ou será que alguma coisa mais grave estava começando a se manifestar. O fantasma de minha experiência no Aconcagua, o sofrimento de quatro noites horrorosas no campo base, o diagnóstico de uma pneumonia que acabava minhas esperanças de que melhoraria e que poderia compartir o cume com a Andrea e com o grupo que guiava, o resgate por helicóptero, tudo voltava a minha mente como se tivesse acontecido há poucos dias e não há mais de um ano atrás.
O que seria uma fácil caminhada até onde tínhamos deixado o equipamento, uma descida de meia hora e uma subida de setenta minutos, para mim foi bastante cansativa e cheguei de volta ao acampamento exausto e deprimido. Será que mais uma vez iria começar uma montanha super bem para adoecer poucos dias depois? Chegar ao topo desta maravilhosa montanha era um sonho de muitos anos e agora que estávamos a um passo de chagar lá eu iria ser obrigado a voltar? Decidi não arriscar, se alguma coisa estava começando iria tentar reverter isso. Fui para a barraca e escondido tomei um antibiótico. Não contei a Andrea para não preocupá-la e como o restante do dia era de descanso aproveitei e fiquei lendo na barraca.
No final da tarde já me sentia muito melhor, a lassidão tinha ido embora e apesar de que ainda sentia muito medo um pouco do pessimismo já tinha ido embora. Passamos uma hora treinando a técnica de subida em corda fixa que usaríamos no dia seguinte e fomos dormir cedo.
05/06/09 – Campo 3 (4300 metros) – transporte (4900 metros) - Campo 3
Considerando que comprei boa parte do equipamento por internet sem ver e tocar, tive muita sorte, pois quase tudo era exatamente o que buscava e o que precisávamos. Mas, não podia esperar que 100% funcionassem. No segundo dia de expedição meu colchonete, um modelo novo da Thermoarest chamado Neo Air, de repente explodiu e uma grande bolha se formou no lado da cabeça. Com o passar dos dias essa bolha cresceu até que ontem quando fui dormir ela estava tão grande que não dava mais para usar. Com isso dormi apenas sobre o meu colchonete não inflável e com isso passei muito frio e a noite foi desconfortável. Apesar disso acordei bem disposto e me sentindo, para meu grande alívio, energético. O tempo estava exatamente como eu tinha rezado para que estivesse, encoberto, mas sem nevascas. Hoje seria um dia importante e duro, nossa primeira subida do Head Wall, a parte mais técnica da escalada e estava com medo de sofrer com o calor caso estivesse tempo bom.
Já as oito estávamos a caminho e a primeira parte foi bem tranqüila com um ritmo bom, inclinação constante e neve firme. A vista a cada passo se tornava mais e mais espetacular e rapidamente nossas barracas foram se transformando em pequenos pontos na imensidão de gelo. Após subirmos 300 metros chegamos às cordas fixas e daí a coisa se complicou. O tempo piorou e o vento aumentou dramaticamente e em pouco tempo estávamos cobertos de uma neve fina que voava horizontalmente queimando nosso rosto. Às vezes tinha a sensação de estar andando em uma superfície movil onde ondas de neve percorriam velozmente a encosta cobrindo nossas pegadas em poucos segundos. Como estava na cordada mais lenta, quando cheguei à plataforma na base da corda fixa o restante do grupo já estava lá há algum tempo e a Andrea estava gelada e reclamando que não sentia seus pés. O Chris, sempre atencioso e preocupado com a possibilidade de congelamento de extremidades, pediu para a Andrea tirar as botas duplas, tarefa nada fácil quando se está em uma pequena plataforma de gelo em uma encosta inclinada e com um vento fortíssimo. Para nosso grande alívio a cor dos pés estava normal e após um pouco de massagem eles melhoraram e pudemos seguir. A subida das cordas fixas foi um processo muito lento, em parte pelo grande numero de gente e em parte por causa da inexperiência de todos com o manuseio dos jummars, equipamento que desliza corda acima, mas trava ao se aplicar pressão e com isso dá segurança e apoio para se subir grandes inclinações como a que estávamos. A subida desses próximos 300 metros nos tardou mais de uma hora e meia e quando chegamos à crista o vento mais forte que já tinha vivido nos esperava. Tentamos nos abrigar atrás de algumas rochas, mas o vento de mais de 90 quilômetros por hora nos castigava horrivelmente. A cena era caótica com todos gritando um ao outro instruções que ninguém ouvia. A sensação térmica era seguramente inferior a quarenta graus negativos e rapidamente estávamos perdendo a sensação nas mãos. Não houve outra alternativa do que mudar os planos. A idéia inicial era deixar o equipamento na metade da crista, já próximo ao Campo 4, mas seria muito arriscado fazer a crista que é extremamente exposta com caídas de ambos os lados de mais de mil metros. Rapidamente cavamos um buraco na neve e deixamos tudo lá mesmo e voltamos para a segurança do Campo 3.
Não chegamos a correr nenhum risco real, mas pela primeira vez sentimos a fúria dos ventos do Denali e de repente tudo o que tínhamos ouvido falar da dureza desta montanha se tornou mais real.
Após descermos ao redor de cem metros subitamente o vento acalmou e pude ver onde estava. Nunca em uma montanha tive uma sensação de desnível tão impressionante. Abaixo de nós, praticamente seiscentos metros verticais, estava o Campo 3 que daqui de cima não era mais do que pontos coloridos cercados de pequenos muros de gelo. O cume do Mount Hunter já estava abaixo de nós e o do Foraker que antes se agigantava agora estava apenas ligeiramente mais alto. Estava exultante! Tinha feito a parte mais técnica da montanha sem grandes problemas e tinha enfrentado ventos fortíssimos e superado esta prova. Sentia-me extremamente forte, poderia ter continuado a escalada por muito mais horas. Sentia que nada poderia me parar agora. Que diferença em relação há vinte quatro horas antes...
Chegamos de volta ao campo às três da tarde após sete horas de escalada e não havia uma brisa. Dentro da barraca estava tão quente, mais de trinta graus, que tivemos de tirar toda a roupa e abrir as portas. Mais uma vez me surpreendi com a enorme variação de temperatura nesta montanha.
06/06/09 – Campo 3 (4300 metros)
Dormi até as dez graças a Andrea que na noite anterior tinha ido até o guarda parques e conseguido um outro colchonete emprestado. A noite foi extremamente fria, mas com dois colchonetes e meu super sleeping bag dormi super bem mesmo com os calombos.
O dia foi dedicado a recuperar as forças, comer e ler. Passei boa parte do dia lendo na barraca e tirando pequenas siestas. Tivemos um excelente brunch e, uma das raras vezes, estava com a deliciosa sensação de barriga cheia. O otimismo geral foi reforçado pela previsão de tempo que dizia que uma frente de alta pressão estava entrando e com isso teríamos ventos mais fracos e aumento da temperatura. Para o dia seguinte a previsão era de ventos de “apenas quarenta quilômetros por hora”. Mas, melhor do que isso era que teríamos pela frente dois dias de bom tempo, exatamente os dias que estávamos planejando ir ao cume. Que felicidade!
Após o jantar tivemos uma surpresa deliciosa: sorvete como sobremesa e o melhor foi a maneira como ele foi feito, com neve e leite condensado!
Ao voltarmos para a nossa barraca a vista estava estupenda com as montanhas se tingindo de tons pastel com o por do sol as 10 da noite.
07/06/09 – Campo 3 (4300 metros) – Campo 4 (5212 metros)
Acordamos as cinco e levamos três horas para ficarmos prontos e o caminho ate as cordas fixas foi razoavelmente tranqüilo. Como antes de entrar nas cordas estava muito frio eu acabei me agasalhando muito e acreditando que continuaria frio não tirei nada antes de entrar na encosta e uma vez que você está nas cordas fixas não dá para parar, é muito inclinado e sempre tem gente atrás de você.
Com isso acabei ficando com muito calor e isso me roubou toda energia. Ironicamente, eu sempre tenho mais medo de passar calor nas montanhas do que frio. No caminho entre o campo 1 e o 2 no Everest sempre leio do horror que é o calor quando o sol sai de manhã. O Vale do Silêncio, como é chamado o longo vale entre esses dois campos funciona como um enorme refletor do calor do sol e se antes do sol sair a temperatura está ao redor de dez graus negativos, após vai a mais de trinta positivos!
A Andrea estava no seu dia de pouca energia, isso sempre acontece na montanha, um dia você está ótimo e no próximo não tanto. Quando chegamos no topo das cordas fixas ela estava bem cansada e eu peguei vários quilos da mochila dela e acrescentei a minha que já estava pesada. Com isso segui com ao redor de vinte e cinco quilos o que, para esta altitude, é bastante.
O restante do caminho foi por uma longa crista em partes muito inclinada e extremamente exposta. A cada lado podíamos ver espetacularmente as paredes da montanha despencando por centenas e centenas de metros. O Campo 3 estava lá longe, diretamente abaixo de nós. Apesar das lindas vistas seguíamos muito concentrados sabendo que uma escorregada poderia ser muito perigosa apesar de estarmos encordados.
Chegamos ao Campo 4 após duras sete horas e meia de escalada e bastante cansados. Era a primeira vez nesta montanha que estávamos acima de cinco mil metros e o ar rarefeito se fazia sentir. Mal chegamos e nos pusemos a trabalhar na construção de nosso acampamento que acabou ficando um pouco afastado dos outros grupos. Com a tormenta que enfrentamos no Campo 2 e cronograma de todos que estavam subindo ficou parecido e agora muitos escaladores se encontravam no Campo 4 e tivemos que acampar mais afastados. O que deu mais trabalho foi a construção de um bom muro de blocos de neve e a Andrea me surpreendeu com sua energia e habilidade com a serra cortando blocos por quatro horas. A falta de energia que ela sentia no começo do dia desapareceu e, como sempre, ela não se sentia afetada pela altitude de forma alguma.
Para economizar esforço, nesses dias que passaremos no Campo 4 montamos menos barracas e com isso por noites dividimos a barraca com a Anse e com isso nosso conforto diminuiu muito. Se fosse nossa escolha teríamos trazido mais uma barraca pois isso seria compensado pelo melhor descanso nesses dias, mas como tudo o mais nesta expedição, essa decisão não era nossa.
No final da tarde vimos várias pessoas descendo do cume e imaginei a felicidade delas com a sorte de ter um dia assim como hoje com céu azul e razoavelmente pouco vento. Será que para nós também será assim? Será que o bom tempo se manterá?
Dia 08/06/09 – Campo 4 (5212 metros)
O que seria um dia de descanso total para o preparo para o dia de cume acabou sendo apenas parcialmente tranqüilo, pois o dia amanheceu com muito vento e decidimos reforçar os muros, fazê-los mais altos para que não tenhamos surpresas. Não é raro ter barracas destroçadas pelos ventos aqui neste campo e todo o cuidado é pouco. Com isso, trabalhamos mais três horas serrando blocos de neve, um trabalho extremamente pesado.
Ontem o Anush chegou muito cansado no campo e sentindo muito frio e acabou indo para dentro de sua barraca e ficando lá enquanto todos que também estavam cansados, pois o dia tinha sido duro, trabalhavam. Hoje quando decidimos reforçar os muros ele não saiu novamente para ajudar e quando fui à sua barraca para perguntar como estava ele respondeu com uma voz de vítima que continuava se sentindo fraco. Tenho certeza de que estava “quebrando a mão”, mas nada podia fazer. Cada um decide o quanto quer ajudar. Para mim, essas atividades são sempre bem vindas para quebrar a inatividade desses dias de descanso a também acho que ajudam a aclimatar melhor.
Com o forte vento todos que planejavam sair para o cume tiveram que desistir e nós que planejamos subir amanhã acompanhamos o tempo durante todo o dia com muita ansiedade. No final da tarde, como tem sido o padrão, o vento amainou e tivemos um lindo fim de tarde.
Jantamos cedo e fomos para a barraca preparar o equipamento para o grande dia. Deixamos tudo já dentro da mochila para evitar esquecer algo já que tudo o que separamos é de importância vital!
Dia 09/06/09 – Campo 4 (5212 metros) – Cume (6194 metros) – Campo 4
Tive uma noite muito agitada com a ansiedade de como amanheceria. Além disso, ao redor de meia noite o vento voltou a aumentar e como a barraca estava completamente congelada por dentro por causa de nossa respiração por varias horas tivemos uma chuva constante de flocos de gelo deslocados pelas lufadas de vento. Por mais que tentasse me esconder dentro do sleeping bag o gelo encontrava maneiras de entrar e derreter no meu rosto me acordando. Apesar disso acordei bem disposto e energético e muito feliz ao ouvir que ainda bem cedo os fogareiros na barraca dos guias já estavam funcionando sinal de que o tempo estava bom. Abri a barraca e o dia mais lindo de toda a expedição me esperava. Não havia uma nuvem, o céu estava daquele tom escuro que só existe acima de cinco mil metros e não havia nenhuma brisa, o mais perfeito dia de cume que se pode pedir.
Entre acordar e sair foram longas quatro horas de preparação, pois derreter água para o café da manhã de doze pessoas e mais água para o dia todo a esta altitude não é um trabalho fácil. Durante essas quatro horas eu olhava para o topo da montanha torcendo para que as nuvens lenticulares que anunciam mal tempo não chegassem. Às nove e meia estávamos finalmente prontos para sair e o ritmo foi razoavelmente lento, pois todos sentiam a altitude. Subimos por duas horas uma longa encosta que leva ao Denali Pass, uma sela trezentos metros acima do campo. Até então o tempo continuava bom, mas imediatamente após cruzarmos o passo um enorme vendaval os atingiu com ventos de pelo menos 90 por hora. Infelizmente o grupo estava muito heterogêneo com o George e o Anush andando muito lentamente. Como sempre, o Chris quis juntar o grupo todo apesar de que no dia anterior ele disse que os grupos seguiriam cada um ao seu passo. Com isso acabamos ficando uma hora parados com um vento absurdo e um frio preocupante. Coloquei tudo o que tinha de roupa, mas mesmo assim quando finalmente saímos, eu estava tiritando. Um pouco mais adiante o vento acalmou e tivemos que parar mais uma vez, agora para tirar roupa e nisso a Andrea se descuidou de sua mochila e para nosso desespero vimos a mochila lentamente deslizar encosta abaixo. Ainda tentei alcançá-la, mas como estava encordado não consegui. Aos poucos ela foi ganhando velocidade e desaparecendo montanha abaixo. Nesses curtos segundos vimos a escalada da Andrea naufragar, pois dentro da mochila tinha água, comida e roupas, coisas fundamentais sem as quais seria muito complicado ela seguir. Por uma incrível sorte um pouco mais abaixo a encosta terminava em um platô sem cravasses e a mochila parou. Muito irritado o Chris se desencordou de seu grupo, se encordou na Andrea e os dois desceram para buscar a mochila enquanto o resto do grupo seguia. Como o ritmo da Andrea era bem mais forte do que o restante do grupo ao redor de meia hora mais tarde eles nos alcançaram. Quando estávamos prontos para prosseguir o George e o Anush disseram que não tinham mais condições de continuar. Estavam muito cansados e apesar de saber que faltavam apenas trezentos metros teriam que descer. O Chris pediu para uma das expedições que já estava descendo para levar os dois e prosseguimos. Já era três e meia da tarde, estávamos escalando há seis horas e o tempo ainda estava bom, mas agora iríamos entrar na parte que tradicionalmente venta mais, a crista final que leva ao cume.

Eu estimava que iríamos levar ao redor de duas horas para chegar ao cume, mas eu estava muito enganado. Para chegar à crista existe uma encosta razoavelmente inclinada com uma corda fixa e com muitos grupos tentando o cume como nós havia uma fila enorme de gente subindo e já vários grupos descendo. Com isso demoramos duas horas só para chegar até a crista e lá tivemos também que esperar muito para deixar passar os grupos que estavam descendo. Finalmente as oito da noite estávamos a caminho do cume caminhando por uma crista de em partes não mais do que um metro de largura com quedas de dois mil metros a cada lado.

O tão temido vento não veio e pudemos com muita cautela percorrer os últimos metros que nos separavam do tão sonhado cume. Às nove horas, com uma linda luz e acima de todas as montanhas por mais de dez mil quilômetros nos abraçávamos emocionados no topo da montanha mais alta da América do Norte!


A vista era fabulosa, mas não durou muito. Como que se o tempo estivesse apenas esperando que chegássemos lá em cima, poucos minutos após chegarmos grossas nuvens cobriram todo o céu e o frio que estava brutal ficou ainda mais forte. Agora que escrevo tenho um pouco de dificuldade em reviver o que senti quando cheguei, mas lembro que naquele momento mais do que felicidade sentia um grande alivio de ter chegado. Em breve estaríamos de volta a Anchorage, ao calor, aos confortos. Tinham sido duríssimos treze dias, com muito frio, vento constante, neve, desconforto, esforço físico e mental e tudo isso tinha acabado. Agora era descer ao Campo 4, de lá ao Campo 2 e então ao Campo Base, cada vez mais quente e mais fácil. A felicidade só veio quando chegamos de volta ao campo três horas mais tarde, a meia noite e entramos no aconchego de nossa barraca. Tinha sido um dia duríssimo de quinze horas e tínhamos logrado chegar ao nosso objetivo. Agora sim podíamos relaxar e realmente curtir nossa conquista. A Andrea era a primeira mulher de seu país a escalar o Denali e eu tinha concluído um sonho de muitos anos.

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Hoje, em nossa ida do Campo 1 ao Campo 2, resolvemos levar os trenós, pois de qualquer forma precisaríamos deles no Campo 3 para trazer na volta todo o equipamento. E ao subir com o trenó hoje descobri que na subida ele não incomoda tanto quanto no plano já que como ele fica para trás tencionado não dá os trancos que tanto me incomodaram no primeiro dia.
Hoje o dia foi muito melhor, estava mais presente, sem pressa apesar de que o tempo continuava horrível, sem visibilidade alguma e nevando muito. Ontem, por causa do mal tempo só pensava em chegar, hoje me convenci de que as nevascas serão parte de nossa escalada e o melhor é relaxar e curtir. Também começo a me entender melhor com meu equipamento neste ambiente tão hostil. Resolvi carregar minhas luvas grossas dentro do meu anorak e com isso tive muito mais flexibilidade com as grandes variações de temperatura entre quando estamos andando e quando paramos.
Após cinco horas de caminhada razoavelmente leve apesar da tormenta fizemos uma de nossas paradas de rotina para descansar e comer e o George, que vinha caminhando muito devagar, disse que não conseguiria prosseguir, estava muito cansado e com frio. O vento estava super forte e a neve vinha horizontalmente em nosso rosto. O lugar era muito exposto e acampar ali, em minha opinião, era loucura. Mas, foi exatamente isso que fizemos. Argumentei contra essa decisão com o Chris, mas não teve jeito. Poderíamos ter prosseguido e o George poderia ter ficado com um dos guias, poderíamos ter descasado e prosseguido, mas acabamos trabalhado duro sob um vento infernal fazendo as plataformas e montando barracas tudo para no próximo dia seguir mais uma hora. Olhava no rosto dos outros e via que sentiam o mesmo que eu. Porque, por causa de um dos clientes que sabia que a montanha era dura e que veio mesmo assim sem boa forma física, todos tinham que sofrer. A regra que diz que o grupo não pode se separa e que tem que andar junto sempre é absurda. Mas, nada podíamos fazer e passamos a noite lá. Estava tão claro no meu rosto a minha desaprovação que o Chris veio falar conosco na nossa barraca um pouco mais tarde. Eu disse que achava que o George tinha que descer para não prejudicar todo o grupo. Esses gastos inúteis de energia podiam comprometer as chances de cume de todos. Hoje tinha sido um dia fácil em baixa altitude e mesmo assim o George não tinha dado conta. Que chances ele teria então de fazer um dia dificílimo como o dia de cume em grande altitude? O Chris disse que iria pensar e decidiria no dia seguinte.
Ao entrar na barraca mais uma vez li a frase que está escrita à caneta na parte lateral do tecido interno: “Only those who will risk going too far can possibly find out how far one can go” T. S Eliot. (Apenas aqueles que arriscam ir longe demais podem descobrir quão longe se pode ir). Durante esses dias esta frase me inspirou muito e nos dias que cheguei à barraca cansado ela me ajudou a focar no meu objetivo.
29/05/09 – Campo intermediário entre o Campo 1 e o 2 – Campo 2
Acordamos mais tarde já que hoje seria um dia tranqüilo, uma hora de caminhada até o Campo 2 com um ganho pequeno de altitude. Fizemos tudo com calma, pois apesar de continuar completamente sem visibilidade tinha parado de nevar. Saímos após o meio dia e em pouco tempo chegávamos ao campo dois onde, de acordo com o plano, ficaríamos três noites. Ao chegarmos fomos brindados com uma linda visão do Denali entre as nuvens.
A tensão provocada pela parada do George no dia anterior estava no ar e todos se perguntavam o que iria acontecer com ele, mas as horas passaram e nada aconteceu e no fim do dia o Chris nos disse que ele iria ficar e no dia seguinte decidiria.
Após chegarmos cavamos as plataformas para apenas duas barracas já que tínhamos encontrado um espaço já murado para colocar as outras. Mas, trabalhamos muito duro para fazer a cozinha já que a mais ou menos um metro de profundidade encontramos uma camada de gelo dura como cimento.
Tivemos tanto trabalho que às oito da noite ainda estávamos cavando e decidimos deixar para acabar no dia seguinte.
30/05/09 – Campo 2 - Campo intermediário entre o Campo 1 e o 2 – Campo 2
Logo pela manhã, após o café da manhã, trabalhamos mais três horas para acabar a cozinha e depois disso descemos ao campo intermediário para buscar as coisas que tínhamos deixado lá dias antes. O tempo não podia estar pior, um vento frio fortíssimo levantava a neve recém caída e queimava nosso rosto nos obrigando a trabalhar e depois caminhar com as máscaras de rosto colocadas. A visibilidade era novamente zero e tivemos que usar o GPs para poder encontrar o ponto onde tínhamos enterrado nosso equipamento apesar de estar marcado com wands (varas de bambu com um triangulo de tecido vermelho na ponta). Enquanto estávamos cavando chegaram dois esquiadores perguntando pelo caminho ao Campo 1 e nós indicamos a direção geral, mas ficamos muito preocupados por eles já que as chances de se perderem ou de caírem em uma cravasse era grande. Dois dias antes de voarmos para o Camp Base um americano tinha desaparecido em uma situação semelhante e ainda não tinha (e nem seria) encontrado.
Neste dia cometi um erro que não teve maiores conseqüências, pois ainda estávamos baixo na montanha, mas que me fez pensar muito sobre o extremo que era o Denali. Na pressa de sair do Campo 2 achei que estava com mais roupa do que estava. Tinha estado trabalhando e me esqueci que tinha tirado duas camadas de blusas e acabei saindo com menos roupa do que era necessário. Passei bastante frio, principalmente quando paramos para buscar nosso equipamento e ao tirar minhas luvas grossas para guardar tudo na mochila minhas mãos se congelaram rapidamente e a sensibilidade desapareceu. Quando finalmente consegui guardar tudo coloquei minhas mãos nas axilas para aquecê-las. Pela primeira vez tive uma sensação de medo ao ver o quão rápido as coisas poderiam dar errado. Senti um novo respeito pelo lugar onde estávamos e me prometi tomar muito mais cuidado daqui para frente. Tudo nesta montanha é agressivo, o frio, o vento e até o sol. No dia anterior trabalhei sem filtro solar e hoje a pele ao redor das minhas narinas estava roxa e ardia muito.
Apesar de tudo caminhei e trabalhei super forte sem me cansar mostrando não só que estava aclimatado, mas em ótima forma física. Mais uma vez uma onda de otimismo me invadiu.
31/05/09 – Campo 2
Hoje, de acordo com o plano, iríamos levar parte do equipamento a um campo intermediário, mas ao sairmos da barraca vimos que isso não iria acontecer. O tormenta tinha vindo para ficar o tempo não podia estar pior. Vento, nevasca, frio e visibilidade zero nos fizeram voltar para o calor de nossos sleeping bags. Esperamos até as duas da tarde para ver se o tempo melhorava, mas conforme as horas foram passando vimos que o dia seria de descanso forçado.
Nosso animo só piorou quando conversamos com dois italianos que tinham ficado vários dias no Campo 4 e tinham descido sem nem ter feito uma tentativa. O vento forte os havia impedido sair do campo alto. Lembrei do que a Ana Boscarioli tinha me contado de sua tentativa ao cume quando os ventos fortíssimos tinham a feito voltar a 200 metros do cume. O clima durante o dia todo foi de expectativa e preocupação. Apesar disso tentei me manter calmo, afinal sabia que estas tempestades faziam parte da experiência de escalar o Denali e tínhamos tempo suficiente para esperar. E, no fim, se não fizéssemos o cume, sabia que a experiência seria muito importante e que estávamos aprendendo muito.
O dia foi bem desconfortável, pois durante a noite o vento havia rasgado a barraca cozinha e quebrado a haste de estrutura. Após alguns consertos improvisados ela estava usável, mas ventava e nevava dentro e quase não havia diferença de temperatura entre o lado de dentro e o de fora. Mesmo assim passamos várias horas lá, pois após a longa noite e a manhã que passamos dentro da barraca sentíamos a necessidade de ficar de pé ou sentado.
À noite conversamos muito e todos estavam muito mais descontraídos e unidos. A saturação de todos estava acima de 90 mostrando que todos estavam bem aclimatados. Despedimos-nos torcendo para que a tormenta terminasse e que pudéssemos subir no dia seguinte. Antes de dormir li mais um pouco do “The Boys of Everest” a história de um grupo de escaladores britânicos que nos anos 60 e 70 revolucionaram a escalada em rocha e gelo e que pagaram um preço altíssimo por isso. Boa parte dos personagens do livro morreu escalando, boa parte em um dos 8.000 metros do Nepal ou Paquistão. Influenciado por isso meu sono foi agitado e acordei um pouco deprimido com a sensação de ter sonhado coisas ruins, mas não me lembrava o que.
01/06/09 – Campo 2
Durante toda a noite pude ouvir o ruído incessante do vento sacudindo a barraca e às vezes sentia a barraca gelada e recoberta de gelo tocar o meu rosto com a força do vento. Quando acordei já sabia que não iríamos sair. Estávamos mais um dia presos na imobilidade do Campo 2.
O dia transcorreu entre leituras, conversa na cozinha gelada e cavando para tirar a neve que caia sem parar e que ameaçava soterrar nossas barracas e a cozinha. A cada saída quase nos congelávamos com o frio que só piorava. Este frio é uma coisa nova para mim. Até então minha referencia de frio tinha sido o Aconcagua, mas aqui era muito pior. A cada vez que tiro minhas luvas para fazer algo tenho em mente o risco de congelamento. No Aconcagua era frio, mas em nenhum momento tive que me preocupar com isso. No dia que conversamos com os guias sobre o equipamento eles nos disseram que nossas luvas, a de fleece, a grossa e os mittens, eram suficientes, mas noto que teria sido muito útil ter uma intermediaria fina, mas impermeável para poder trabalhar sem molhar e gelar as mãos.
Hoje vimos ainda mais gente baixando dos campos altos sem te podido fazer cume. Tanto trabalho por nada... Os que conversaram conosco nos contavam de ventos ainda mais fortes principalmente no Denali Pass, o primeiro obstáculo no caminho entre o Campo 4 e o cume.
Durante o jantar o Chris nos deu uma noticia que deixou a todos tristes e desanimados. A previsão de tempo dizia que a tormenta duraria mais cinco dias! Cinco dias! Se isso for verdade nossas chances de cume começam a se tornar bem pequenas. Apesar disso o Chris nos disse que amanhã deveríamos acordar cedo, pois ele queria tentar subir para deixar parte do equipamento em um campo intermediário mesmo com mal tempo. Fomos para a barraca fazendo cálculos. Se a previsão estivesse correta, daqui a cinco dias teria uma janela de bom tempo. Se nos fizéssemos o transporte amanhã, nos mudaríamos para o Campo 3 depois de amanhã e após outros dois dias estaríamos no Campo 4 prontos para subir ao cume. As janelas de bom tempo aqui são normalmente pequenas e se não estivéssemos no Campo 4 quando ela acontecesse corríamos o risco de não chegar lá em cima a tempo. Sabíamos também que subir nestas condições iria ser duro e ficar nos campos mais altos com mal tempo muito sofrido, mas mesmo assim preferíamos subir e encarar isso a ficar no Campo 2 e deixar a janela escapar.
Fomos dormir animados e preparados para um dia duro de escalada com mal tempo.
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Montanhas e montanhas recobertas por glaciares repletos de cravasses, picos rochosos pontiagudos e tudo isso raspando em nossas asas. Não sabia se filmava, fotografava ou se simplesmente ficava olhando hipnotizado este que era o mais lindo vôo que já tinha feito. No rosto da Andrea e dos outros seis companheiros de escalada podia ver os mesmos sentimentos. Mesmo acostumado com a grandiosidade dos Himalaias, a escala dessas montanhas me surpreendeu. Até onde a vista alcançava só se viam montanhas, glaciares e vales nevados. Estávamos sobrevoando o mais longo glaciar da América do Norte com mais de 90 quilômetros de extensão
Após uma larga curva perdendo altitude apareceu um platô de neve, nosso campo base, e deslizamos suavemente até pararmos. Antes que pudesse perceber já estávamos fora do avião com todo nosso equipamento empilhado na neve e o avião já tinha decolado em busca de mais escaladores. Só quando ele se foi e tudo de tornou silêncio que minha mente se aquietou o suficiente para admirar o lugar onde estava.
Só havia duas cores, o branco da neve e gelo e o azul do céu. Chris, nosso guia principal, nos contou o nome das montanhas ao nosso redor, mas neste momento não guardei nenhum. Apenas admirava deslumbrado. Nesta paisagem iria passar semanas. Que felicidade me invadiu!
Mas, não tivemos muito tempo para admirar tudo isso. Tínhamos muito trabalho a fazer. Caminhamos alguns metros até onde existiam várias plataformas na neve e ao redor de umas 40 barracas. A primeira missão foi construir uma grande plataforma na neve para montar nosso acampamento, cinco barracas Mountain Hardwear Trango 3, iguais a que tenho e que gosto muito. Por ao redor de uma hora trabalhamos duro até que o Chris ficou satisfeito. Por alguns instantes houve certo incomodo já que havia duas barracas para três pessoas e três barracas para duas pessoas cada. Os três guias ficariam em uma das barracas triplas, mas precisávamos de voluntários para ficar na outra. Como eu e a Andrea éramos um casal nos deram uma dupla e o Anush, o Richard e o Peter se voluntariaram para dividir a outra tripla. A dinâmica dessa barraca tripla seria motivo de inúmeras brincadeiras durante toda a expedição, pois Anush era sempre o atrasado e culpava o Richard que ocupava muito espaço que culpava ao Peter que tinha o melhor lugar na barraca e assim por diante.
Se pensamos que poderíamos descansar, e descanso estávamos precisando já que tínhamos dormido muito pouco, estávamos enganados. Ainda havia muito trabalho para fazer para deixar tudo pronto para o próximo dia. Começamos arrumando os trenós que usaríamos para levar parte do equipamento até o campo dois. Arrumamos os cordins que penderiam o equipamento, o outro que ligava o trenó a nossa mochila de forma que se caíssemos em uma greta ele não nos machucasse. Também fizemos chest harness, um sistema de nós na altura do peito para que se caíssemos em uma greta pudéssemos ficar de cabeça para cima e não ao contrário pelo peso das mochilas. Só terminamos tudo às nove da noite e após comer pizzas trazidas de Talketna entramos para o conforto de nossos sleeping bags menos 53 graus centígrados para uma curta noite de descanso merecido.
26/maio/09 - Campo Base – Campo 1
Fomos acordados as três da manha, já com a luz do maravilhoso verão do Alaska, uma noite muito curta. Só que entre o acordar e o começar a caminhar teve quatro horas de preparos. Derreter neve para o dia, preparar e comer o café da manhã, desmontar as barracas, preparar as mochilas e os trenós, usar pela primeira vez o CMC, clean mountain container, nossa privada portátil na forma de um cilindro de plástico rígido de 40 centímetros de altura por 30 de diâmetro com um saco plástico biodegradável, se encordar e finalmente partir, tudo isso demorava uma eternidade. E pela primeira vez nos deparamos com o frio e os ventos da montanha e isso que estávamos apenas a 2300 metros de altitude.
Nosso banheiro
Na conversa que tivemos em Anchorage nos contaram que este seria um dos dias mais duros de toda escalada, não por desnível vertical, apenas 300 metros, mas pela distancia horizontal de oito quilômetros, bastante neste tipo de terreno e principalmente pelo peso que carregamos. Eu estava com uma mochila de trinta quilos e mais ao redor de vinte no trenó! Desde o meu trekking no Rowaling Valley no Nepal que não levava tanto peso. O outro problema foi a falta de costume de puxar o trenó. A cada passo ele dava um tranco na cintura e após duas ou três horas eu já sentia dor em músculos que antes nem sabia que existiam e no final do dia contava os minutos para cada descanso que ocorria a cada hora de caminhada. O que compensava era a paisagem maravilhosa que nos rodeava. O dia estava lindo com céu azul e razoavelmente quente e caminhava de camiseta e uma camada só nas pernas. Não sabia que seria a última vez que poderia me vestir assim em dezoito dias de escalada...
Caminhamos por sete duras horas e os últimos dois quilômetros foram de pura agonia por dor muscular. A mochila pesada descansava de forma muito incomoda sobre os meus ombros já que o cinto dela não dava muito apoio por causa da cadeirinha (harness) que ocupava o lugar onde o cinto normalmente ficava. E o campo não chegava... Ele estava em uma depressão e só quando já estávamos em cima dele que ele se mostrou.
Também neste dia a fome me incomodou bastante e iria me perturbar por toda expedição. Existe uma fina linha entre levar comida suficiente para toda a expedição e não levar coisa demais por causa do peso. Eu como muito e necessito de pelo menos quatro mil calorias diárias para uma montanha como essa. Para mim, a equação não funcionou e perdi muito peso. Também hoje cometi um erro estratégico que ajudou a deixar o dia ainda mais difícil. Estou acostumado em escalar em gelo e andar em glaciares encordado, mas quando paramos, o grupo se junta para conversar e comer juntos. No Denali o perigo de cair em gretas é tão sério que mesmo nas paradas continuamos encordados e com a corda esticada entre um e outro. Tinha deixado meu almoço com a Andrea e quando paramos, ela estava longe de mim.
Jantamos uma comida maravilhosa e fomos dormir exaustos já mais de dez da noite, um dia de dezenove horas com muito esforço e muita beleza.
27/maio/09 - Campo 1 – próximo ao campo 2 – Campo 1
Durante a noite, nas várias vezes que acordei, escutei o suave ruído da neve caindo no teto de nossa barraca e a neve não parou de cair durante todo o dia. A programação de hoje foi levar parte de nosso equipamento para próximo ao campo dois, enterrar na neve lá e voltar ao Campo 1. Eu e a Andrea decidimos não levar o trenó e fazer uma mochila mais pesada. Isso funcionou as mil maravilhas, pois estamos acostumados a carregar peso nas costas, mas não com o trenó.
O dia teria sido mais ou menos tranqüilo não fosse o mau tempo. Nevasca acompanhada de uma neblina que cobria tudo nos impediu de ver por onde andávamos e com isso de ter a distração da linda paisagem. Estávamos em uma fila de doze escaladores divididos em três cordadas e muitas vezes não conseguia ver mais do que três ou quatro. Outras vezes, a neblina estava tão forte que parecia que caminhava em um mar de leite. Mesmo assim foi infinitamente mais fácil do que o dia anterior.
Acordamos às cinco da manhã e sem ter de desarmar as barracas estávamos prontos para sair às oito. Caminhamos por cinco horas e ao chegarmos os guias cavaram um buraco de dois metros de profundidade enquanto tiritávamos de frio. Enquanto andávamos o frio estava sob controle, mas a cada pequena parada tínhamos de nos agasalhar muito. Deixamos no buraco, cachê no jargão de montanha, a comida e combustível extra que havíamos trazido além das roupas mais quentes que usaremos nos campos mais acima e voltamos ao Campo 1.
Neste dia, estreamos dois novos equipamentos, os googles (óculos para nevascas usados também em ski) que se mostraram extremamente confortáveis e também os snow shoes que eram chamadas de raquetes de neve. Como estava nevando muito, ficou difícil andar com as botas duplas apenas e colocamos os snow shoes. Que diferença! De repente não afundava mais e caminhava com facilidade. Ah, se eu tivesse tido snow shoes na minha última tentativa do Mera Peak no Nepal quando por horas tentamos avançar enquanto afundávamos em neve fofa até os joelhos...
Enquanto caminhava pelo nevoeiro minha mente divagava e pensava nas nossas chances de fazer este cume. Se aqui está assim, lá em cima a coisa deve estar muito difícil. Pensava também no Cho Oyu e nas dificuldades de escalar um 8.000. Será que vou dar conta? Flutuo entre momentos de otimismo e falta de confiança. Agora estou forte, saudável e bem preparado psicologicamente para esses desafios, mas sei por experiências passadas que tudo pode mudar de um dia para o outro. Por ora, o truque é permanecer no presente e curtir cada momento desta linda montanha.
Como chegamos mais cedo tivemos tempo finalmente de conversar e conhecer melhor o grupo que, percebemos, e bem heterogêneo em termos de preparo físico e experiência em montanha. Richard é inglês, gerente de uma fábrica e escala há vários anos nos Alpes e na Escócia na Inglaterra. A taxa de sucesso do Denali é de 48%. Se nossa expedição tiver essa taxa apostamos no Richard para um dos que farão cume. Peter é nosso segundo candidato. Escocês e também experiente em escaladas em gelo e rocha está se preparando assim como nós para o Cho Oyu em agosto e Everest em março. E policial e mora perto de Manchester. Também tem vontade de fazer os Sete Cumes. Aljosa é da Slovenia, trabalha com importação de bebidas alcoólicas e tem bastante experiência não só em escalada, mas também em vários outros esportes de aventura como pára-quedismo e parapent. Outro bom candidato ao cume. Pascal tem a mesma idade da Andrea e é bem menos experiente e bem preparado, mas simpatizei bastante com ele. É austríaco, mas mora em Londres onde trabalha no mercado financeiro. Anush é indiano de Madras, mas mora em San Francisco. É brincalhão ao ponto de incomodar as vezes e é o palhaço da turma. É garantido escutar ruidosas risadas quando esta por perto e acampar ao seu lado significa dormir e acordar com sua voz. É razoavelmente inexperiente e apesar de parecer forte não creio que consiga chegar até o cume. Trabalha com programação de internet como todo bom indiano. George é o mais velho da expedição tendo 55 anos, mas parece ser 10 anos mais velho que eu. Já hoje teve problemas para acompanhar o grupo e o grupo teve que caminhar no seu passo. É canadense e tem várias empresas. É também, sem dúvidas, o mais rico do grupo. Ansi é da África do Sul, tem ao redor de 45 anos e é a mais inexperiente tendo feito apenas o Elbrus, Aconcagua e Kilimanjaro. Nunca fez escalada em gelo e sua experiência com crampons se resume ao Elbrus. Seria outra candidata a não fazer cume.
E, claro, que entre os candidatos ao cume na nossa avaliação estamos nós dois...
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