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São Paulo, SP

Rumo ao Everest

Rumo ao Everest

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A empolgação até o fim


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 29/09/09 às 17:20 na(s) categoria(s) Todos posts
23 de setembro de 2009 - Olhei para o altímetro e vi que já estava a 7.700 metros e pensei no que isso significava. Estava quase na mesma altitude do Nuptse, um dos gigantes do Himalaia que vejo cada vez que guio grupos ao campo base do Everest. Realmente estava lá, tão alto?

Na minha frente, por outro lado, o Lui começou a diminuir seu passo e com isso fazia paradas cada vez mais longas para recuperar o fôlego. Perguntei se estava bem e ele disse que sim, apenas cansado. Pedi para ultrapassá-lo já que ele também estava acompanhado por uma sherpa e segui adiante. Após mais meia hora, para minha grande surpresa, encontrei o restante do grupo. A Andrea estava a minha frente e isso me deixou extremamente feliz já que desde que havia saído da barraca sabia com certeza de que não iria vê-la até o final da escalada, pois ela era muito mais rápida do que eu. Havíamos chegado à temida Yellow Band, o trecho de escalada mista, gelo e rocha, que a esta altitude 7.800 metros era um desafio considerável. Uma grande fila havia se formado com um grupo de alemães que tentavam chegar ao cume sem oxigênio, mas que estavam demorando uma eternidade para cruzar este desafio. Quando finalmente chegou minha vez de cruzar os dois trechos de rocha, me deparei com uma parede de rocha saindo do gelo. Apesar da altitude extrema e da grande inclinação fui subindo sem maiores problemas usando as pontas dos crampons contra as paredes de rocha e usando a corda fixa como apoio.

Um pouco mais tarde, bastante ofegante, estava acima do obstáculo e com uma longa encosta de neve a minha frente levando ao platô do cume. As primeiras luzes do alvorecer pela primeira vez me permitiam ter uma idéia de onde estava. Tinha atingido 8.000 metros. Não podia acreditar! Estava a 8.000 metros! Acima de mim apenas 14 montanhas no planeta. Continuei subindo sabendo que eu chegaria no cume. Ao invés de estar mais cansado, me sentia cada vez mais leve, mais energético apesar de já estar escalando a mais de 7 horas sem beber uma gota de água ou comer nada. Acho que o sonho me empurrava para cima. Parte do grupo parou para trocar de cilindros de oxigênio e ao checar o meu vi que ainda tinha metade sobrando, o suficiente para chegar de volta ao campo 2. A Andrea seguiu na frente e eu um pouco atrás. O restante do grupo tinha ficado para trás e agora, já com o sol brilhando no horizonte, alcancei o enorme platô do Cho Oyu. 

Deste ponto era mais meia hora até o cume verdadeiro, meia hora de caminhada quase plana. Eu sabia que só chegaria no cume quando pudesse ver o Nepal com o Everest, Lhotse e Nupse, além de dezenas de outras montanhas que conhecia tão bem dos meus vinte anos de trekkings no Khumbu. E então, de repente, estava lá, de frente ao Everest, no cume da sexta mais alta montanha do planeta. O frio de menos 30 graus tinha se composto com o vento dando uma sensação térmica de menos de 40 graus negativos. Quase mecanicamente tirei as fotos de cume, filmei a Andrea com as suas bandeiras de patrocinadores e país (ela se tornava na primeira mulher centro americana a escalar um 8.000 metros).



Quando acabamos com nossos deveres olhamos um para o outro, nos abraçamos e choramos e nestes segundos liberei toda a emoção que estava no meu coração, todo o cansaço desse mês de esforços, privações, dores e alegrias. Após vinte anos de sonhos estava onde tantas, tantas vezes tinha me imaginado estar. Tentava compor a imagem que tinha das pessoas que tinham escalado um 8.000, meus heróis, com estar ali, no cume do Cho Oyu. Será possível que eu agora também fazia parte desse tão seleto clube? O Everest estava a poucos quilômetros de mim e a poucas centenas de metros acima. Em março eu estaria a caminho do seu cume e agora, visto da perspectiva do Cho Oyu, ele já não era tão intimidante. Eu tinha conseguido chegar no topo do Cho Oyu. Também chegaria no Everest. Por momentos me senti invencível até que o Victor nos lembrou que escalar uma montanha significava chegar no seu topo e voltar a sua base e que só havíamos feito metade do caminho. Aos poucos foram chegando o restando do nosso grupo, o Lucas de Zorzi, o Luis Antônio Felber, os três malteses, Greg, Robert e Marco e com muita tristeza soube que o Lui havia voltado 200 metros abaixo do cume por causa de problemas com sua visão. Não estávamos os oito companheiros lá em cima. Faltava o Lui.



Quando me preparava para descer, tive um acesso de tosse e por um minuto fiquei com uma terrível ânsia de vômito que passou ao recolocar a máscara de oxigênio. Tinha ficado no cume ao redor de 40 minutos sem oxigênio e os efeitos do ar extremamente rarefeito estavam agindo.

Do caminho de volta ao campo 2 eu me lembro muito pouco. Não é surpreendente dado o estado de exaustão que me encontrava. Lembro da descida da Yellow Band rapelando com as pontas dos crampons raspando nas rochas, e da longa descida do campo 3 vendo o campo 2 lá em baixo e enganadoramente perto. A noite foi um tanto quanto agitada como sempre que se dorme muito cansado.

No dia seguinte, como tinha sido predito pela previsão meteorológica, amanheceu com um céu cinza feio e o tempo foi piorando durante o dia e quando chegamos no campo 1 já estava nevando. Chegamos no campo base às 2 da tarde cobertos de neve e fomos recebidos por carinhosos abraços de Pemba, nosso cozinheiro, e uma mesa cheia de petiscos. Sabia que se fosse para a barraca não sairia de lá de modo que fiquei na barraca refeitório até a noite. Quando o grupo todo chegou, o Victor abriu uma caixa com 24 cervejas e o Pemba uma de coca cola e esquecendo o cansaço, trocamos experiências até às 9 da noite. O Lui nos contou que conforme foi subindo foi percebendo que seu olho esquerdo foi ficando estranho e que ao redor de 8.000 metros já não enxergava nada deste olho.

Seu sherpa queria que ele seguisse até o cume que estava a não mais do que uma hora de escalada, mas ele decidiu sabiamente que era melhor voltar. Ele também disse que estava com vontade de voltar a tentar após alguns dias de descanso, mas, se ele estava tão cansado como eu, isso só poderia ser possível se parte deste descanso fosse em Tingri ou algum lugar bem mais baixo do que o campo base. No Cho Oyu, o campo base fica a 5700 metros, 400 mais alto do que o do Everest e nós já estamos aqui ou acima desta altitude há 20 dias e sinto que não existe aclimatação verdadeira a esta altitude. Cada vez que vou da minha barraca até a barraca refeitório, meros 15 metros, fico ofegante.

Estou felicíssimo de ter conseguido chegar no cume do Cho Oyu, mas agora quero ir embora, quero descer para poder me recuperar do cansaço acumulado deste mês. Aqui, isto não é possível.



Nossa expedição foi abençoada em muitos sentidos. Nunca ouvi falar de um período tão longo de tempo perfeito em uma montanha de 8000 metros. De nós oito sete chegaram no cume e um a 200 metros dali. Não tivemos nenhuma doença séria entre nos, só as habituais mazelas de montanha, gripes, dores de garganta, diarréias e dores de cabeça. Ninguém se acidentou. Convivemos super bem por mais de um mês e saímos da expedição como amigos que querem e vão se rever em alguma outra montanha deste lindo planeta. Não dá para pedir mais do que isso. Como única mancha na nossa felicidade, no dia seguinte ao nosso cume ficamos sabendo que um americano de 73 anos que estava tentando pela segunda vez o Cho Oyu havia morrido ao descer do cume. Ainda não sabemos de detalhes, mas aparentemente ele morreu ao chegar ao campo 2 de enfarto ou derrame, condições razoavelmente freqüentes em alta montanha. Seu corpo será trazido ao campo base amanhã por um grupo de seis sherpas, tarefa ingrata e perigosa. Ele subiu com o auxilio de Martin, um guia californiano que no decorrer deste mês se tornou nosso amigo e nós todos estamos muito tristes por Cliff que morreu e por Martin que tem nos próximos dias várias tarefas difíceis.

Agora é descansar por dois dias enquanto esperamos os yaks que levarão nosso equipamento ao campo intermediário e de lá tomar os jeeps que nos levarão de volta a Katmandu, onde devemos chegar dia 29 de setembro. 

Por apenas algumas poucas horas duvidei da validade do que estava fazendo nesta montanha e isto foi nas primeiras horas do dia de cume quando ainda não tinha encontrado meu ritmo. De resto foi um dos meses mais felizes de minha vida e não vejo a hora de repetir esta experiência no Everest no começo do próximo ano. Ainda não sei responder a clássica pergunta de porquê alguém dedica tanto tempo e dinheiro, arriscando a saúde e a própria vida para ficar alguns minutos no topo de alguma montanha. Não sei formular uma resposta lógica para isso, apenas sei dizer que no fundo do meu coração está a resposta e ele me diz para seguir escalando e chegando no topo das montanhas e estou acostumado a seguir o que ele me diz.



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Quase desistência


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 29/09/09 às 16:50 na(s) categoria(s) Todos posts
23 de setembro de 2009 - Apesar de eu achar que já tinha levado quase tudo o que precisava para o campo 2 fiquei surpreendido com o peso da mochila. Além disso, tem o peso que está no corpo: as botas duplas com 3 quilos, a cadeirinha com mosquetões, os crampons e as roupas pesadas no corpo.

Saímos as 7 e meia da manhã com bastante frio, apesar do céu azul, com planos de chegar ao campo 2 no máximo à uma da tarde. Com isso teria ao redor de 8 horas de descanso antes de sair para o cume. Após meia hora de escalada encontrei o Lui se queixando de muita dor nas mãos por causa do frio. Tinha saído com luvas finas e a manhã estava realmente gelada. Tirei suas luvas e coloquei suas mãos nas minhas axilas enquanto abria um pacote de hand warmers (pequenos envelopes de substância química que ao reagir com o ar produzem calor) e pegava minhas luvas mais grossas. Após vinte minutos de muita dor suas mãos esquentaram e prosseguimos.

Subi o obstáculo entre o campo 1 e o 2, o Ice Cliff. Desta vez, bem mais aclimatado, consegui subir com muito mais facilidade. Cheguei ao campo 2 as duas da tarde e fui imediatamente para a barraca para me hidratar e descansar. Por duas horas eu e a Andrea derretemos litros de neve e comemos um pouco, o máximo que nossos estômagos aceitavam a esta altitude extrema. O plano era sair à meia noite de modo que eu teria 8 horas para descansar antes do grande dia.

Quando já estava pronto para dormir o Marco veio de barraca em barraca avisar que o Victor tinha decidido antecipar a saída para as 10 e meia da noite. Já há vários dias que todas as expedições sabiam que o dia 24 era o que a previsão meteorológica tinha avisado ser o melhor dia de cume e todos tinham acertado seus planos para subir nesta mesma noite. Com isso, o Victor achou melhor sair mais cedo para tentar evitar as filas nas cordas fixas da Yellow Band, uma área de rochas um pouco acima do campo 3. Desde a tragédia de 1996 quando 10 escaladores morreram no Everest em parte por causa dos congestionamentos nas cordas fixas próximas do cume que este tipo de situação é temido e evitado.

Com este novo horário de partida, tinha apenas 4 horas para dormir, pois o preparar para sair em alta montanha raramente tarda menos do que duas horas entre derreter neve, tentar comer algo e se vestir e equipar. Apesar da ansiedade crescente, consegui dormir superficialmente por algumas horas e despertei um pouco mais descansado às 8:30 da noite quando tocou o despertador. As próximas duas horas passaram muito rápido, mais do que eu posso recordar. Só sei que às 10:30 da noite metade do grupo já estava do lado de fora das barracas colocando os crampons. Pela primeira vez vesti meu down suit, o traje integral de pena de ganso sobre duas camadas de roupas térmicas. Coloquei a máscara de oxigênio com fluxo de 2 litros e saí do calor da barraca para enfrentar o frio de 7.100 metros. 

A noite estava estrelada e sem absolutamente nada de vento, mas mesmo assim fria. Tinha vontade de urinar, mas só de pensar no trabalho com o down suit e a cadeirinha acabei desistindo. Na confusão da escuridão cortada pelo facho das lanternas de cabeça vi que o Victor já estava saindo acompanhado de 2 ou 3 outros. Acabei de me arrumar, me despedi da Andrea lhe desejando boa sorte e comecei a caminhar. Após 50 metros de plano iniciei a subida que levaria 400 metros mais acima ao campo 3 e me surpreendi com a facilidade com que ganhava os metros verticais por causa do oxigênio. Acima de mim, podia ver uma longa fila de luzes que iam até se misturarem com as estrelas. Mais expedições tinham tido a mesma idéia que nós de sair cedo. Não reconhecia ninguém e não sabia quem era de nosso grupo e quem não era. 

Tudo se resumia a escuridão com vultos, todos vestidos da mesma maneira, down suits vermelhos cobrindo todo o corpo e o rosto encoberto pelas máscaras de oxigênio. Conforme fui caminhando, comecei a sentir um desconforto cada vez maior por causa do calor. O que mais temia estava acontecendo. Tinha me vestido com demasiadas camadas e como ainda era razoavelmente cedo, antes da meia noite, não estava frio o suficiente para todas as roupas que estava usando. A sensação de calor foi minando minhas energias e minha velocidade foi caindo assustadoramente. Tirar alguma camada era impensável. Teria de parar, tirar os crampons, as botas, o down suit e isso, além do extremo gasto de energia, me exporia ao frio da noite à quase 7.500 metros. Para piorar a situação minha lanterna quase apagou e não conseguia colocar os pés de maneira eficiente nas pegadas deixadas pelos que tinham ido à minha frente e escorregava com freqüência. Tinha uma lanterna sobressalente, mas para pegá-la teria de parar, tirar a mochila, buscar a lanterna e nesta altitude onde cada pequeno movimento significa ficar ofegante por alguns minutos o simples fato de pegar uma lanterna era algo que estava além do que eu podia pensar. 

Mas, além do cansaço, nesta altitude sentia uma espécie de preguiça mental, só de pensar em parar e fazer algo já me dava um desanimo extremo, então continuei mesmo sem enxergar muito. Achei que ia encontrar com Victor e o resto do grupo no campo 3 e concentrei todas minhas energias em ganhar esses 400 metros para dai poder parar junto com o grupo. Fiquei amargamente desapontado ao chegar ao campo 3 e ver que o grupo não estava mais lá. Não sei se tinham parado e já partido ou se nem haviam parado. Sentei na neve e fiquei pensando no porque estava lá. Não estava escalando, estava simplesmente caminhando em uma interminável encosta. Não estava me divertindo, estava apenas sofrendo com o calor, com a falta de oxigênio, no escuro, sozinho. Veio uma enorme pena de mim mesmo e uma vontade enorme de descer. 

Escalar em gelo e neve era outra coisa. Quando estava em uma parede de gelo tinha que usar minhas habilidades de escalador, colocar o ice axe de maneira correta, cravar as pontas dos crampons de maneira correta. Aqui não, estava apenas caminhando e sofrendo. Para piorar, o Padawa, nosso sherpa principal chegou até onde eu estava para ver o que estava acontecendo e eu lhe perguntei quem estava atrás de mim e ele me disse que eu era o último. Isso acabou de me liquidar psicologicamente. Eu era o último? Como? Eu que sempre sou tão forte? Ainda muito dividido entre continuar e voltar, levantei e recomecei a subir. Daí, quase como por milagre, me senti mais forte e o calor que até agora tinha minado minhas forças desapareceu e comecei a melhorar meu ritmo e em pouco tempo estava atrás do Lui e o simples fato de ter a companhia dele me fez sentir que tudo estava correto. Com o novo ritmo comecei novamente a sentir prazer de estar lá.

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Trabalho pela frente


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 29/09/09 às 15:54 na(s) categoria(s) Todos posts
22 de setembro de 2009 - Como a caminhada ao campo 1, agora já aclimatados e leves, demoraria apenas 3 ou 4 horas, cada um de nós saiu em horários diferentes. Eu e a Andrea fomos os últimos a sair e caminhamos vagarosamente, poupando energia. Chegamos ao campo 1 às 3 da tarde prontos para descansar, mas um trabalho duro nos esperava.

 

Nesses dias que nossa barraca ficou ao sol, o gelo embaixo do piso derreteu e o terreno ficou tão irregular que não era possível dormir. Tiramos a barraca do lugar, cavamos o gelo e preenchemos os buracos com neve até que a plataforma estava novamente habitável. O tempo continuava lindo com céu azul e sem vento. Precisamos de apenas mais 2 dias de tempo bom!

 

Nos dedicamos então a hidratar-nos e comer o que conseguirmos, pois amanhã já estaremos acima de 7.000 metros e o apetite desaparecerá.

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Preparação final para o Cho Oyu


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 21/09/09 às 15:31 na(s) categoria(s) Todos posts
21 de setembro de 2009 - Hoje é dia de trabalho. Arrumar as mochilas, separar a comida dos campos altos, recarregar as baterias dos eletrônicos. Comer e hidratar. No café da manhã fazemos a revisão do estado de saúde de todos. Eu tive diarréia ontem, o Felber também. O Greg, um homem de 100 quilos e físico perfeito está abatido por vômitos durante toda a noite. O Lucas está tentando combater o segundo episódio de laringite e está muito preocupado. O Lui ontem caminhando de volta a barraca a noite torceu o pé. Fora isso, todos com saúde perfeita e prontos para subir.

 

Agora são meio dia e dentro de 3 dias, dentro de exatamente 72 horas, sonho estar no cume da sexta mais alta montanha da Terra. Não sei se vou conseguir, nenhum de nós sabe. Estamos nesta expedição há 23 dias e amei cada segundo dela. O cume será um prêmio. Sinto assim agora, mas sei que se não chegar será muito difícil pensar assim. Sei que ficarei frustrado. Coloquei muita energia nisso tudo. Muitos sonhos, muito dinheiro, muito tempo. Quero o cume. Mas, tenho que aceitar o que vier.

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Mudanças de decisão e treinamentos


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 20/09/09 às 15:30 na(s) categoria(s) Todos posts
20 de setembro de 2009 - Acordo às 8h da manhã depois de um sono de um século e me deixo ficar na barraca ouvindo música. Ouço o chamado para o café da manhã, mas me viro para o outro lado e meio durmo meio presto atenção nas letras das músicas que passam um após outra sem que eu me de conta muito bem do que estou ouvindo. O Ipod está na função de repetição. Horas mais tarde ouço chamarem para o almoço. Acho um chocolate na barraca e decido ficar ali dentro. A temperatura está perfeita, pela porta aberta entra uma brisa fria. Pela fresta da barraca vejo o Cho Oyu dois quilômetros e meio acima de mim e penso que em mais dois dias estarei subindo rumo ao seu cume. Fecho os olhos e durmo um pouco mais.

 

Às 3h da tarde temos o treinamento do equipamento de oxigênio. Todos, com exceção do Lucas e da Andréa, decidem ir com oxigênio. Percebemos que sem não teríamos chance. Mas, nas montanhas não é só sua vontade que conta. A previsão do tempo nos conta que temos apenas mais quatro dias de tempo bom antes que os ventos fortíssimos se abatam sobre nossa Deusa Turquesa roubando qualquer possibilidade de cume por pelo menos uma semana.

 

Fazemos nossas contas e vemos que se queremos ter os dois dias de descanso, o mínimo para que possamos subir novamente, temos que partir para o cume a partir do campo 2, 1.100 metros abaixo do cume. Não temos tempo para subir ao campo 3. Sair do campo 2 sem oxigênio é loucura e a Andrea e o Lucas com dor no coração também tem que desistir de seus planos. Vamos todos com oxigênio suplementar. O Victor está feliz. Para ele é muito mais seguro que todos os seus clientes façam desta forma.

 

Provamos as máscaras, testamos o regulador, colocamos e tiramos o regulador dos cilindros. Repetimos os movimentos até que eles se tornem automáticos, pois lá em cima, de noite, a -20ºC ou -30ºC, com as mãos dormidas e o cérebro embotado pela anóxia, podemos facilmente aumentar o fluxo de oxigênio quando pensamos que estamos diminuindo um erro que já custou muitas mortes. Temos dois cilindros de oxigênio cada um, o que dá dezesseis horas a dois litros por minuto. Isso deverá ser administrado por nós. Quando fizermos um trecho mais duro como a Yellow Band aumentaremos para 3 ou 4 litros por minuto. Se ficarmos parados em alguma fila de corda fixa, o grande medo sempre nessas montanhas, diminuiremos para 1 litro por minuto. Mas, essas são as chances de erro. Então voltamos a praticar.

 

Durante o resto da tarde perguntamos as mil dúvidas que nos veio a mente. O que pode dar errado? Como é o terreno acima do que já conhecemos. Como é a Yellow Band? Quantas horas até cada parte? O que acontece se o oxigênio acabar? A partir de que parte na descida podemos descer sem oxigênio e sobreviver? Qual é o horário que devemos desistir não importa onde estejamos? De repente todos tem perguntas urgentes como se durante todos esses dias não tivéssemos falado mil vezes sobre tudo isso. É como se agora de repente a escalada tivesse adquirido realidade. Agora não são mais suposições e sim nossa realidade. Os medos aparecem à superfície.

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A cada passo um recorde pessoal


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 19/09/09 às 15:29 na(s) categoria(s) Todos posts
Saí do campo base do Cho Oyu com uma mochila de 16 quilos e um misto de otimismo e apreensão. Estava possivelmente indo até 7.500 metros, de longe o mais alto ponto de minha vida e para passar uma noite a 7.100 metros, algo que com meu histórico de aclimatação vagarosa inspirava bastante medo.

 

O dia estava lindo, o quinto dia em seguida de céu azul e sem vento. Sei que essas janelas de bom tempo tem duração limitada e que, mais do que agora que ainda estamos em altitude razoavelmente moderada, esse bom tempo nos fará falta mais acima na montanha.

 

O trajeto até o campo 1, agora já bem conhecido, foi tranquilo e tivemos a tarde toda para descansar e preparar-nos para o segundo dia mais difícil da expedição, o do campo 1 ao campo 2. Com um desnível de 700 metros e rompendo a barreira dos 7.000 metros. Esse dia só perde para o dia de cume em dificuldade.

 

Saímos do campo 1 às 7h da manhã levando uma mochila pesada com sleeping bag de altitude, as pesadas roupas de frio extremo, rádio e comida para uma ou duas noites no campo 2. Parte do caminho já tinha feito no primeiro ciclo até embaixo do ice cliff e desta vez foi mais fácil com a aclimatação adquirida.

 

Daí veio a parte mais técnica de toda a escalada, uma parede de ao redor de 50 metros de neve e gelo. Se isso fosse ao nível do mar não teria muitos problemas, mas qualquer trecho técnico a esta altitude fica extremamente mais complicado. Prendi meu jumar, o mosquetão de segurança e avancei confiante, afinal eram apenas 50 metros. Mas, após apenas alguns passos já estava ofegante ao extremo e ganhar esses poucos metros me tomou 35 minutos e cheguei ao platô acima exausto e tive que ficar outros 20 minutos sentado tentando recuperar as forças. Nesse meio tempo chegou o Marco em condições semelhantes e após ele se recuperar seguimos juntos. Mas, o sofrimento não havia acabado. Na nossa frente tínhamos uma encosta de 35 graus de 100 metros de altura que nos tomou outra uma hora para escalar.

 

Um passo, duas respirações, mais um passo. Quando o terreno se tornava mais irregular, ou quando ao colocar um pé ele escorregava novamente ficava ofegante e tinha que respirar várias vezes antes de poder prosseguir. Ao final desta longa encosta se seguiram várias outras de inclinação mais moderada e aos poucos a marca mágica dos 7.000 metros ia chegando. Quando finalmente a atingimos, em seis horas de duríssima escalada, paramos para comemorar. Era o meu ponto mais alto e o recorde de Malta. Seguimos os últimos 130 metros até o acampamento com extremo cansaço, mas a Andréa, que já havia chegado lá uma hora e meia antes, nos estava esperando com chá quente e bolachas com queijo.

 

Para minha surpresa, passei o restante do dia sem dor de cabeça e me sentindo razoavelmente bem. Durante a tarde e o começo da noite nos dedicamos a atividade predominante de uma expedição: derreter neve e nos hidratar. Não consegui comer quase nada, o que é normal nesta altitude. Uma grande lassidão tomou conta de mim e qualquer movimento necessitava de um grande planejamento. Pensava que precisava colocar mais um casaco, mas entre perceber que precisava e conseguir energia para fazê-lo, um grande tempo passava.

 

Acordamos às 5h30 para nos preparar para a caminhada do dia, chegar ao campo 3 a 7.500 metros. Toca o despertador, abro os olhos e torno a fechá-los. Me aconchego no fundo do sleeping bag. Qualquer movimento desencadeia uma chuva gelada de pequenos flocos de neve sobre tudo. Passam os minutos e eu digo a mim mesmo e a Andrea que precisamos começar a nos preparar, derreter neve, beber, tentar comer. Após 20 minutos finalmente tenho energia para me levantar e me agasalhar. Fora do conforto do saco de dormir está gelado. Abro o zíper da barraca e mais uma chuva de neve cai molhando tudo. Com socos doloridos no saco de neve consigo quebrar alguns blocos de gelo para colocar na panela. O fogareiro produz um calor fraco que tarda vários minutos para derreter alguns poucos blocos de gelo. Os minutos desaparecem e quando olho no relógio já são 6h30. Uma hora se foi sem que eu percebesse. Consigo tomar um litro de chá fraco e dois pacotinhos de sopa instantânea com não mais do que 150 calorias cada.

 

Tento comer mais, mas não desce. Esse será o meu combustível para a subida.

Às 7h30 finalmente estou pronto depois de colocar a cadeirinha, as botas duplas congeladas apesar de terem dormido dentro da barraca, os crampons e camadas de roupas. Caminho lentamente tentando não ficar ofegante. Tenho apenas 40 ou 45% do oxigênio do nível do mar. Em poucos metros as horas de descanso desaparecem e novamente estou exausto. Finalmente sinto no meu corpo aquilo que tantas vezes li. Acima de 6.000 metros não existe descanso, não existe recuperação, apenas desgaste. O esforço do dia anterior volta. Subo 150 metros e vejo que não tenho mais forças para prosseguir. Viro e desço para minha barraca sentindo o gosto amargo da derrota. A opção da subida sem oxigênio está descartada. Este era a prova. Se hoje eu fosse bem tentaria sem oxigênio.

 

Com esforço tiro os crampons e me largo na barraca que aos poucos vai se aquecendo ao sol da manhã. Durmo pesadamente sem sonhos e acordo com a voz do Lui me perguntando se estava bem. Ele tinha desistido da subida também. Um pouco mais tarde chega o Felber e depois o Lucas que tinha semi congelado seus pés. Ele é o único entre nós que não tem botas para 8.000 mais quentes. Durmo novamente. Acordo com a Andrea chegando ao campo. Ela foi a única que chegou no objetivo do dia, 7.500 metros, novo recorde para a Guatemala. Mas, está exausta também. Arrumo nossas coisas, derreto mais gelo e ao meio dia e meia estamos a caminho do campo base, 1.400 metros abaixo e um longo caminho para minhas pernas cansadas. Desço meio em transe ainda abatido psicologicamente com o desempenho do dia. Minha força de vontade faz com que as pernas se movam, mas o corpo todo pede que eu pare e fique onde estou. Passamos pelo campo 1, deixamos algumas coisas, pegamos outras e seguimos. Às 5h30 da tarde chego ao campo base recuperado pela maior concentração de oxigênio. Que felicidade, dois dias para descansar antes de subir novamente.

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O espaço que procurávamos


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 09/09/09 às 16:48 na(s) categoria(s) Todos posts
Hoje (9), após onze dias de caminhada de aproximação e caminhadas de aclimatação finalmente chegamos no nosso campo base, nossa casa por pelo menos 20 dias e talvez bem mais, dependendo da janela de bom tempo que determinará o dia de nossa primeira tentativa de cume.

 

A caminhada demorou 4 horas, mas para mim pareceu muito mais, pois estava muito cansado pelo esforço do dia de ontem. Logo ao levantarmos tivemos como presente uma maravilhosa visão da Deusa Turquesa, do Cho Oyu, agora muito mais próximo do que da última vez que o vimos em Tingri. Ficamos hipnotizados estudando a rota enquanto o Victor nos contava onde estava o campo dois e o três de onde partiremos para o cume. Visto desta distância as escarpas parecem muito inclinadas e intimidantes e a altura que temos que subir parece quase impossível, mais de 2.500 metros verticais de gelo e neve.

 

Chegamos ao campo base e mais trabalho nos esperava para montar o campo. Eu e a Andrea escolhemos uma pequena plataforma que não era suficiente para nossa barraca e por uma hora cavamos e tiramos pedras do chão duro para finalmente termos um espaço como queríamos. Afinal estaremos aqui por muito tempo.

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Planos para após o Cho Oyu


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 09/09/09 às 16:26 na(s) categoria(s) Todos posts
Após quatro noites no campo base chinês, nesta terça-feira mudamos de acampamento para o intermediário a 5.300 metros, a mesma altitude do campo base do Everest. Eu, a Andrea e o Marco resolvemos fazer a caminhada rapidamente como um treino e demoramos duas horas e vinte minutos ao invés das 4 esperadas. Mas, não sabíamos dos planos do Victor e pouco depois que todos chegaram, nós comemos, nos hidratamos e saímos para mais uma caminhada de aclimatação, a mais dura até agora. Subimos uma montanha atrás do campo e chegamos a 6-24 metros, ou seja, um ganho vertical de mais de 1.100 metros em relação ao campo. Cheguei muito cansado, mas feliz de ter conseguido e fomos brindados com um bonito glaciar e lindas vistas da montanha em frente ao Cho Oyu pela qual estou apaixonado. Ainda não sei o nome, mas suas formas me atraem e me pego estudando uma possível rota e pensando que talvez após o Cho Oyu...

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Melhoras nas condições climáticas


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 09/09/09 às 16:25 na(s) categoria(s) Todos posts
No dia 7 de setembro, segunda, além de ter chovido toda a noite, amanheceu completamente encoberto e chovendo. Desde que saimos de Katmandu o tempo tem gradualmente piorado e após Tingri já não pudemos avistar o Cho Oyu que se encontra constantemente coberto por nuvens negras. Isso não chega a nos preocupar já que ainda levaremos bastante tempo para chegar mais alto na montanha.


Saímos para nossa caminhada diária com uma chuva fina que não chegou a atrapalhar. Resolvemos fazer hoje algo mais leve, apenas 4 horas sem muito ganho de altitude. Seguimos vale acima e ao encontrarmos algumas rochas praticamos escalada em bolders e voltamos para o acampamento. Como no dia seguinte seguiremos para o campo intermediário, 400 metros acima deste, tivemos a tarde livre para organizar nossa bagagem e equipamento e deixá-los prontos para os yaks que vão levar tudo até o campo base.

 

Aproveitamos também para tomar um banho quente, lavar alguma roupa e eu e o Greg, o outro médico, organizarmos nossa mochila de primeiros socorros e medicamentos. A tarde o tempo melhorou um pouco e tenho esperança de que amanhã possamos caminhar com céu azul, ou pelo menos sem chuva.

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Caminhadas para aclimatação


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 09/09/09 às 15:56 na(s) categoria(s) Todos posts
No segundo e terceiro dias de aclimatação no campo base chinês (dias 5 e 6 de setembro) fizemos duas caminhadas longas de aclimatação, a primeira chegando a 5.400 metros e a segunda a 5.700 metros. Nesta segunda caminhada chegamos a altitude do campo base permanente e eu me senti extremamente forte ganhando altitude sem problemas e não me sentindo exausto na volta. As noites também tem sido excelentes sem dores de cabeça ou insônia, dois sintomas comuns na altitude.

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Expedição ao Cho Oyu, finalmente estou a caminho


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 28/08/09 às 21:36 na(s) categoria(s) Todos posts
Caros amigos

 

Para vocês que vem acompanhando meu blog há seis meses não é surpresa o fato de que estou com as malas, ou melhor, com os duffle bags prontos para embarcar para meu grande desafio deste ano, a escalada da sexta mais alta montanha do planeta, o Cho Oyu no Tibete com 8201 metros. A jornada para chegar aqui não foi curta nem fácil. Há 16 meses que eu e a Andrea estamos treinando com muito empenho e dedicação. Alias, não foi só uma questão de treino. Nossa vida toda nesses meses foi dirigida para esta objetivo, nossa vida pessoal e profissional. Não poderia ser de outra forma. Montanhas com mais de 8.000 metros exigem uma dedicação quase integral devido a sua duração, seráo 45 dias, seu custo, e o preparo físico necessário para poder enfrentar o ar com menos de 35% de concentração de oxigênio do nível do mar.

Nesses meses todos fizemos inúmeros trekkings, sempre com as mochilas carregadas ao máximo, mesmo quando tínhamos carregadores a nossa disposição como nos trekkings que guiamos. Também escalamos bastante, mesmo sabendo que o Cho Oyu não seja uma montanha técnica. Um dos maiores trunfos para aumentar suas chances em alta montanha é conhecer o seu corpo, como ele reage em altitude e até onde pode chegar em termos de esforço. Onde está aquela última grama de reserva que você nem imagina que existe. E isso só se adquire escalando. Colocando seu corpo a prova. Neste ano subimos um total de mais de 50.000 metros entre trekkings e escaladas e com isso não só melhoramos nosso condicionamento como aprendemos muito de como nosso corpo reage ao stress e a altitude. Escalamos o Sajama, o Pequeno Alpamayo, o Aconcagua, a Rota francesa do Huayna Potosi, o Elbrus, o Kilimanjaro, o McKinley, o Chimborazo e o Cotopaxi. Nessas aventuras fui em boa parte bem sucedido, mas também tive pneumonia no Aconcagua, nos perdemos na descida do Sajama nos obrigando a fazer um dia de quase 20 horas, tivemos de tentar de novo o Cotopaxi, pois na primeira tentativa os ventos nos obrigaram a humildemente voltar. Também ficamos presos por cinco dias no campo dois do McKinley por causa de uma feroz tempestade. Tantas histórias em apenas 16 meses. E agora chegou o momento da grande prova.

Estou muito confiante de que todo este treino vai nos ajudar a chegar lá em cima. Me sinto muito forte e decidido, mas mais do que isso estou saboreando cada minuto desta jornada, cada metro ganho, cada cume conquistado. No fim, é isso que mais importa. Estar feliz com o que se está fazendo, estar presente e feliz.

Vamos estar enviando boletins para o blog a cada 2 ou 3 dias via satelite. Acompanhe e torca por nós.

Grande abraço

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Ao redor do Manaslu, o último treino


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 27/08/09 às 05:56 na(s) categoria(s) Todos posts
No dia 30 de agosto partiremos para o Tibete para escalar nossa primeira montanha com mais de 8.000 metros, o Cho Oyu. Para aumentar nossas chances de cume devemos  estar no melhor preparo possível e por isso decidimos usar esses 20 dias antes da escalada para fazer um lindo trekking chamado ”Ao Redor do Manaslu”, a oitava mais alta montanha da Terra. Há muito venho ouvindo coisas lindas sobre este trekking, de sua paisagem maravilhosa, de sua riqueza cultural e, mais do que tudo, de como poucas pessoas o fazem por sua longa duração e pelo fato de obrigatoriamente você ter de ir de forma organizada com carregadores e sherpas. Mais e mais buscamos este tipo de lugar, lugares que, por serem difíceis para os outros, nos dá a possibilidade de uma experiência real, verdadeira.

Então, às cinco da manhã, partimos de Katmandu em um ônibus caindo aos pedaços para descobrir se tudo que tínhamos ouvido era verdadeiro. A época estava longe de ser a melhor. Agosto é o auge da monção, o mês que mais chove no Nepal. Além disso, e para mim que sofro com o calor, estamos no meio do verão e este trekking começa a 500 metros e tarda vários dias para chegar a 2000, onde a temperatura começa a melhorar.

A viagem de sete horas demorou nove, nada mal para as muitas vezes que quase encalhamos. O cenário estava magnífico com plantações de arroz com duas semanas de idade quando os brotos tem uma cor de verde inigualável.

Chegamos em Arughat, o principal vilarejo da região com um calor intenso, mas achamos um hotelzinho muito básico, mas limpo e com um bom dal baat tarkari, a comida local que será nossa dieta diária nos próximos muitos dias. Arroz, lentilhas e verduras é o que a população nepalesa come dia após dia de café da manha e jantar. Apesar da proibição de irmos sem carregadores e guias locais decidimos que é isso exatamente o que queremos. Estamos levando nossa barraca, comida para cinco dias e no restante vamos depender de achar pequenos "hoteis" que nos preparem alguma comida.

 

 

Saimos no dia seguinte tarde,  pois choveu até as 9 da manhã. Passamos no posto policial e a primeira coisa que nos perguntaram era onde estava nosso guia, para o que eu respondi em nepalês que eu era o guia. O policial ficou muito surpreso por eu falar o idioma e antes que se recuperasse do susto já tinhamos partido felizes de estarmos só nós dois caminhando pelo interior do Nepal em uma região remota.

Neste primeiro dia, a paisagem foi dominada pelos campos de arroz em terraços lindíssimos que competiam em beleza com os que tinhamos visto nas Filipinas no começo do ano. A trilha bem acidentada seguia o caudaloso Budhi Gandaki que será nosso companheiro por muitos dias. Os vilarejos habitados por Gurungs, uma das 20 etnias do Nepal, eram muito pequenos, uma diferença marcante com as prósperas e grandes vilas da região do Everest. As casas tinham em frente bandeiras verticais conhecidas por "Cavalos Voadores" sinal de que estavamos em região budista. Apesar da beleza do lugar, o dia foi dificílimo por causa do calor. Suavamos litros e mesmo bebendo muito sentiamos que não conseguiamos repor o que perdíamos. Mesmo assim, fizemos um dia longo na esperança de ganhar um pouco mais de altitude e com isso diminuir o calor. Mas, a trilha sobe lentamente e ao acabarmos o dia sabíamos que o seguinte seria tão dificil quanto este.

 

 

No dia seguinte o vale se tornou mais estreito, o rio muito mais violento e a trilha com inúmeros sobe e desce. O calor estava ainda pior, pois o sol havia saído das grossas nuvens que haviam coberto o céu no dia anterior  e a humidade opressiva deixava a respiração muito difícil. Mas, pelo menos, havia uma boa coisa, as sangue sugas que tanto haviam incomodado na última vez que eu havia feito um trekking nesta estação do ano, estavam ausentes, inexplicavelmente ausentes.

Nossa longa caminhada foi recompensada ao chegarmos à Tatopani, onde haviamos planejado dormir. O nome deste minúsculo vilarejo de cinco casas significa " agua quente" e fazendo juz ao seu nome, ao lado da casa onde dormimos havia uma fonte de água deliciosamente quente, na temperatura perfeita. Aos poucos sentimos todas as dores do dia desaparecerem enquanto nos banhávamos na deliciosa fonte. Após o farto dal baat, fomos para nosso quarto para dormir. Mas, na falta de sangue sugas havia uma cobra de um metro e meio passeando tranquilamente pela porta do quarto e dentro havia duas aranhas de 15 centímetros cada além de vários ratinhos que nos acordaram muitas vezes durante a noite com suas correrias.

 

 

Nosso terceiro dia ainda foi quente embora já um pouco menos, pois subimos à 1300 metros. Se o rio estava violento antes, agora descia em ondas impressionantes, saltando de rocha em rocha com um ruido ensurdecedor. Caminhamos boa parte do dia por dentro de uma linda floresta, a trilha estreita as vezes subindo uma centena de metros para então voltar a caminhar ao lado do rio. À uma da tarde, mais uma vez exauridos pelo calor, decidimos parar em um convidativo gramado e colocar nossa barraca.

Para nós, que desde março, estamos nas montanhas, estes três dias de trekking nas terras baixas do Nepal tem sido uma mudança maravilhosa, apesar do calor. Mas, sabemos que em mais alguns dias estaremos mais uma vez cercados de neve e dentro de nossos sleeping bags tiritando de frio. Estamos felizes de ter vindo!

 

 

 Nos dois próximos dias de caminhada continuamos seguindo o rio e ainda sofrendo muito com o calor. Por estarmos em  pleno verão, mesmo a 1800 metros a humidade é muito desagradável e com poucas horas de caminhada já nos sentimos completamente exaustos. Apenas no quinto dia à tarde que sentimos que deixamos o calor para trás. Nesta maravilhosa tarde caminhamos por dentro de uma das mais lindas florestas que já vi no Nepal. Árvores enormes, riachos de montanha e pinheiros compunham o cenário ao redor da estreita trilha que subia ininterruptamente em direção à vila de Namrung à 2600 metros. O Budhi Gandaki aqui não tem mais do que vinte metros de largura, mas ainda desce de maneira selvagem com grandes corredeiras que fazem o meu coração de kayaker bater forte. 

Aproveitando que este e o último dia em relativa baixa altitude, enquanto cozinhávamos tomamos uma pequena garrafa de whisky nepalês como aperitivo. Esse luxo não será muito comum nos próximos meses.

Apesar de estarmos em plena época de chuva, ela tem sido generosa connosco. Durante os dias não tem chovido e temos dormido embalados pelo gostoso ruido da chuva no teto da barraca.

 

 

Por mais dois dias continuamos subindo o vale do Budhi Gandaki e finalmente ganhando altitude. Os vilarejos foram ficando cada vez mais tradicionais tibetanos já que estávamos agora a não mais do que dez quilômetros da fronteira e chegando a um dos vilarejos que servem de base para uma rota tradicional de comércio entre o Tibete e o Nepal, ainda hoje usada pelos locais.

 

 

Cada vez mais este trekking me atrai tanto pela natureza como pela cultura. É sem duvida um dos trekkings mais interessantes que já fiz e mesmo que não tenhamos nenhuma vista das montanhas, como parece que acontecerá, ainda assim isso é compensado pela gente que encontramos no caminho, sempre com um grande sorriso e um interesse sicero em nós. Além disso, a natureza aqui é quase virgem e me faz pensar como deve ter sido o Nepal cinquenta anos atrás quando o turismo, a superpopulação e o desmatamento modificassem tanto a paisagem. Aqui, nada disso ainda aconteceu e fico feliz de ter tido a oportunidade de ver esta região antes das inevitáveis mudanças que virão.

Passamos pelos vilarejos e vemos um casal de ferreiros, ele batendo o ferro em brasa e ela avivando o fogo com um fole feito de pele de algum animal que maneja com destreza jogando um constante vento na fogeira. Mais adiante, vemos um grupo de mulheres tecendo suas elaboradas roupas em teares tradicionais enquanto outras produzem o fio de lã que será então tingido para ser usado no tear. As crianças levam no pescoço uma infinidade de medalhas com figuras religiosas, Buda, Padma Sambava, Tara alem de relicários feitos pelos lamas. Tudo isso é para proteção contra as doencas e os sempre presentes maus espíritos. Aqui, neste lugar remoto, os lamas e os shamans ainda são os principais médicos e a medicina ocidental ainda é vista com desconfiança e só usada caso a tradicional não funcione.

 

 

Finalmente, após oito dias de caminhada dura,  chegamos ao último vilarejo antes do passo que nos levará ao outro vale, o dos Annapurnas, onde estivemos há apenas três meses. Samdo está situado no começo de um lindo platô cercado de montanhas altíssimas, entre elas o maciço do Manaslu que teima em se esconder entre as nuvens cinzas que derramam sobre nós uma fina e gelada garoa. Como vamos ficar aqui três noites e usar este lugar como base para algumas caminhadas de aclimatação, resolvemos dormir em um pequeno e muito simples "hotel". A idéia é chegar em Katmandu o mais aclimatados possível e com isso não ter problemas nos primeiros dias de viagem até o campo base do Cho Oyu.

Somos os unicos extrangeiros por aqui e nos livros de controle dos postos de polícia onde controlam nossas permissões para estarmos nesta região restrita vemos que cinco dias antes de nós passou um francês e que depois dele nós somos os unicos. Que privilégio estar no século 21 em um lugar ainda tão isolado e intocado!

Após sete dias de caminhada dura e ininterrupta, decidimos tirar o dia para descansar a passamos o dia lendo embaixo dos sleeping bags. À 3700 metros, mesmo no verão, a temperatura está razoavelmente baixa piorada pela humidade vinda da garoa incessante. Depois de vários dias de razoável bom tempo, parece que a monção voltou.

No dia seguinte, o tempo continuou horrível e desistimos de nosso plano de fazer uma caminhada até a fronteria com o Tibete. Nossas chances de ver algo são muito reduzidas e resolvemos partir para Dharamsala, uma pequena construção de pedra na metade do caminho para o Larka La, o passo que liga o vale do Makalu com o vale dos Annapurnas, com 4900 metros.

 

 

Arrumamos nossas coisas e às 9 da manhã saimos  debaixo de uma chuva fina que em breve aumentou de intensidade e nos acompanhou por todo o dia. Cruzamos o portal de entrada do vilarejo, atravessamos a pequena ponte de madeira e seguimos uma estreita trilha que imaginamos seria a correta. A visibilidade estava muito pequena com uma bruma que cobria tudo. Seguimos a trilha próxima do rio por entre um labirinto de grandes pedras, mas em breve vimos que o caminho não poderia ser aquele. Resolvemos subir as encostas por entre uma vegetação rasteira e encontramos uma trilha bem marcada e, mais confiantes, seguimos a trilha que subia e descia por entre muita lama. Por três vezes tivemos que cruzar riachos que desciam dos vales laterais. Em um deles não conseguimos achar um caminho saltando de pedra em pedra como tinhamos feito com os outros e não teve outra maneira do que tirar as botas, arregaçar as calças e atravessar a torrente água até acima dos joelhos. Neste ponto, já estávamos completamente molhados e com muito frio. Porém, ainda acreditávamos que conseguiríamos chegar ao nosso objetivo e com a esperança de roupas secas e uma boa sopa continuamos, embora dalí para frente a trilha tinha se tornado apenas um pouco de grama amassada pelo passar dos yaks. Ainda assim seguimos, mas já desconfiando que tínhamos tomado o caminho errado desde que saimos da vila. A certeza veio quando nos deparamos com uma queda abrupta de mais de cem  metros acima de um enorme glaciar. Sem ter outra alternativa, resolvemos voltar todo o caminho que tinha nos tomado quatro horas para percorrer. Chegamos de volta o nosso "hotel', nos trocamos e preparamos um bom jantar e aos poucos fomos nos sentindo humanos novamente.

No final da tarde, a chuva parou e saimos pelo povoado para tentar conversar com alguém e ver onde tinhamos errado. Consideramos contratar um guia, mas não estávamos felizes com isso. Tínhamos até então feito o trek sozinhos e queríamos continuar asim. Por sorte, encontramos dois rapazes que estavam se preparando para, no dia seguinte, cruzar a fronteira do Tibete onde iam comprar comidas e outros artigos que pudessem vender Eles, com muita calma, nos mostraram onde tínhamos errado e nos disseram que agora não teríamos mais problemas em encontrar a trilha correta e que não precisaríamos de guias. Fomos dormir contentes com as novidades e decidimos que, como tinhamos perdido um diam irIamos fazer o passo de uma só vez e por isso colocamos o despertador para as 5:40. Teríamos um longo dia pela frente subindo 1400 metros e descendo o mesmo do outro lado.

 

 

Às 5:30 acordo com a Andrea me sacudindo e apontando pela janela. O tempo tinha limpado completamente e pela primeira vez neste trekking tínhamos céu azul sem  uma nuvem e as montanhas que até então tinham se escondido estavam abertas iluminadas pelo sol nascente. Que espetáculo! O Manaslu, com seus dois picos, estava dourado com os primeiros raios. Arrumamos nossas coisas mais uma vez, tomamos um rapido café da manhã e saimos em direção ao sol que não tardou em nos brindar com seu calor. Estávamos com as roupas de ontem, molhadas e frias e aquele calor foi um bálsamo. Cruzamos novamente a ponte e seguimos as instruções que haviam nos dado e em poucos metros estávamos na trilha correta. Tinhamos estado tão próximos...Mas, no final tudo tinha dado certo. Se tivessemos ido no dia anterior para Dharamsala teriamos perdido o espetáculo das montanhas.

A trilha seguiu um vale que ontem nem sabiamos que existia por causa da bruma e em pouco tempo tínhamos ganhado os 700 metros que separavam Samdo de Dharamsala. O lugar era lindíssimo, um pequeno plato gramado com vários yaks pastando placidamente com seus sinos balançando e produzindo o som que tanto associo com Nepal. O Manaslu reinava a sul e não pudemos deixar de pensar que seria ótimo voltar aqui no futuro para escalá-la. No dia seguinte era meu aniversário de 53 anos e decidimos honrar uma tradição de procurar passar nossos aniversarios em lugares especiais. Nesses últimos anos conseguimos isso. Em 96 passamos em Bishkek, a capital do Kirgistão. Em 97 foi na Guatemala a bordo do meu recém comprado veleiro. Em 98 foi no topo do Chimborazo, no Equador, e agora por que não ficar neste lindo lugar e fazer o passo no dia seguinte? Montamos nossa barraca e passamos o dia secando nossas coisas, nos deliciando com o sol morno das montanhas e lendo. Amanhã, no meu aniversário, o Larka La.

 

 

Acordamos com calma e  seguimos em direção ao passo subindo gradualmente por entre uma vegetação que foi se tornando cada vez mais escassa ao passarmos a barreira dos 4.500 metros. De repente, vemos a nossa frente uma pequena lagoa com um tom de azul turquesa inacreditável. Era de um azul tão forte que parecia irreal. A água absolutamente cristalina refletia os picos nevados na calma da manhã sem vento. De onde vinha um azul tão maravilhoso? Sem respostas, ficamos admirando o melhor presente de aniversário que poderia ter recebido. A muito custo seguimos nosso caminho e em menos de três horas estávamos no topo do passo rodeados pelas tradicionais bandeiras de horação tibetanas.

A descida bastante íngrime nos levou a um pequeno vilarejo de apenas cinco casas ao meio de uma área plana e gramada por onde um riacho descia preguiçosamente. O tempo tinha voltado a piorar e o pequeño vale estava envolto em uma grossa neblina e nos enfiamos dentro de nossos sleeping bags para passar o restante do dia lendo.

 

 

Ao acordarmos não podíamos acreditar no que víamos. Por todos os lados estávamos cercados de montanhas nevadas lindas. Elas estavam lá o tempo todo, mas não tínhamos idéia! Tomamos nosso café da manhã de chapati, o pão local, com uma omelete e seguimos trilha abaixo. Nesses dias todos de dal baat, uma dieta bem pobre em proteinas, vínhamos sonhando com ovos, mas, nos viliarejos bastante pobres, aparentemente isso é um luxo incomum.

Com rapidez perdemos altitude enquanto voltávamos a caminhar por uma maravilhosa floresta temperada rica em liquens, cogumelos de todas as formas e tamanhos e árvores altíssimas. Ao lado o nosso novo companheiro, o rio Marsiangdi Kola começava a ganhar força ao ser alimentado pelas inúmeras quedas d’água que despencavam das altas montanhas. Mais tarde, no dia seguinte, ele seria uma torrente de águas amarronzadas descendo selvagemente pelo vale. Saboreamos este dia de caminhada pela linda floresta sabendo que por muito tempo não teremos este tipo de paisagem, apenas a aridez do platô tibetano e o gelo eterno do Cho Oyu.

 

 

No último dia do trekking voltamos a nos deparar com o calor do início do trekking, mas após algumas horas chegamos à estrada e antes que pudessemos nos adaptar já estávamos no burburinho de Katmandu, cercados de barulho, poiluição e muita gente. A deliciosa paz que tivemos o privilégio de vivenciar nestes fantásticos 16 dias repentiamente era uma coisa do passado. Agora temos pela frente sete dias de organização para a grande expedição do ano: Cho Oyu.

 

 

 

 

 

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Novamente no cume da África


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 01/08/09 às 09:23 na(s) categoria(s) Todos posts
As primeiras impressões de nossa chegada não poderiam ser mais diferentes do que quando chegamos à Rússia. A temperatura estava perfeita e mesmo na saída do pequeno aeroporto de Kilimanjaro já podíamos sentir que estávamos em outra realidade. Os sorrisos ao nosso redor nos acolhiam e nos enchiam de alegria. O rapaz segurando a placa com nosso nome apresentou-se como Hanz, um nome pouco condizente com sua pele muito escura e dentes incrivelmente brancos. Disse-nos que era um de nossos guias e que no último

Dia de nossa expedição nos contaria a historia por trás de seu nome pouco usual.  Ao partirmos da Tanzânia doze dias depois acabamos nos esquecendo de perguntar. Mais um motivo para voltar...

Esta era minha segunda escalada ao Kilimanjaro e torcia para que esta experiência fosse deferente da última, quatro anos atrás. Naquela ocasião eu estava levando um grupo que frequentemente viaja comigo. Eles haviam me pedido para desenhar uma viagem em Mali e Niger, dois paises muito pobres da África Sub Sahariana. Me encantei com Mali, mas achei que Niger exigia muito esforço para pouca recompensa. O deserto de Teneré e lindíssimo, mas chegar lá exigia muito tempo e muitas centenas de desconfortáveis quilômetros. Sugeri substituir Niger pela escalada do ponto mais alto da África. Eles gostaram da idéia, mas eu nunca tinha feito esta viagem e não tinha testado nenhum operador como é meu costume antes de levar um grupo a um destino novo. Arriscamos e nos demos mal. A viagem foi cheia de desagradáveis surpresas e deixou um gosto um pouco amargo apesar de todo o grupo ter chegado ao cume, com exceção de um dos clientes que apresentou sinais de malária no campo três e que acabou tendo que ser carregado montanha abaixo por mim e por dois dos guias locais. Apesar das minhas recomendações ele não tinha usado repelente em Mali.

O primeiro encontro com meu novo operador local acabou de desfazer qualquer dúvida que essa viagem seria diferente. Apesar de ser minha primeira viagem com ele já estávamos trabalhando com ele há três anos com excelentes resultados.

Dormimos longas horas descansando do Elbrus e do longo vôo de Moscou a Tanzânia. Na manhã seguinte saí para tomar o café da manhã sob um céu incrivelmente azul e rodeado de minha flor predileta, frangipani.  À noite recebemos nosso grupo, que apesar de terem se conhecido horas antes já estava entrosado, brincando uns com os outros como normalmente são os grupos de brasileiros. Que diferença em relação ao nosso grupo de anglo saxões do McKinley. Imediatamente soube que seria uma ótima viagem!

No dia seguinte fomos para uma pousada na entrada do parque de propriedade de nosso operador. Todos tiveram a mesma impressão, estávamos em um Monte Verde no meio da Tanzânia. Bungalows rodeados de pinheiros e um bar com lareira onde fiz o breefing da escalada e pude conhecer um pouco mais de cada um de nossos onze clientes. Apesar de ser um grupo muito heterogêneo, de 27 a 62 anos, mercado financeiro a policial, homens e mulheres, experientes trekkers a completos iniciantes, todos estavam felizes de estar onde estavam e de estar compartindo esta experiência com os outros.

Nosso primeiro dia de trekking foi um dia fácil por uma linda floresta tropical com macacos columbus, lindos com sua enorme cauda branca. Chegamos ao nosso acampamento após apenas três horas de caminhada com um ganho de 600 metros verticais. Infelizmente o lugar de acampamento era pequeno e com a chegada de outros grupos acabamos ficando uma barraca ao lado da outra. O Kilimanjaro é uma montanha muito popular e apesar de estarmos usando a rota menos popular por ser mais cara, ainda assim tinha bastante gente na trilha. A proporção staff / cliente nesta montanha é de impressionantes quatro para um entre guias locais, carregadores e pessoal de cozinha.

 

O segundo dia foi muito mais difícil com outros 800 metros de ganho vertical e oito horas de caminhada. Apesar disso o grupo caminhou de forma uniforme. Infelizmente o Kilimanjaro se manteve tímido coberto por nuvens aparecendo apenas brevemente algumas poucas vezes. No dia seguinte novamente tivemos um dia fácil apesar de que a altitude de mais de 4000 metros já se fazia sentir. Para compensar o esforço tivemos lindas vistas do Kilimanjaro e do pico ao lado dele, o Mawenzi que por toda nossa escalada seria um companheiro constante.

O Kilimanjaro quebra todas as regras de segurança em termos de aclimatação. Normalmente se diz que não se deve subir mais do que 400 metros por dia e que a cada 1000 metros de ganho se deve dormir duas noites no mesmo lugar. Era nosso terceiro dia e já estávamos a 4300 metros! Por conta disso eu havia recomendado a todos que tomassem Diamox, um diurético que comprovadamente ajuda no processo de aclimatação e também havia colocado um dia a mais no roteiro.

 

Com isso, no dia seguinte ficamos novamente no acampamento Mawenzi Turn Hut e usamos o dia para fazer uma caminhada de aclimatação de 4 horas chegando até 4700 metros, a altitude que dormiríamos no dia seguinte. A visão durante esta caminhada foi fantástica, de um lado o imponente cume do Kilimanjaro com sua caldeira emergindo das nuvens que cobrem a planície africana e do outro os muitos cumes rochosos do Mawenzi.

Chegou então o grande dia, um dia longo, cansativo que nos levaria ao ponto mais alto da África! Saímos às 8 da manhã em direção ao School Hut, um abrigo a 4750 metros que usaríamos como base para o ataque ao cume. Como este abrigo pertence ao nosso operador, tínhamos todo ele apenas para nós. Não que isso nos desse muito espaço. O lugar era um quarto de dez por seis metros com um enorme beliche cheio de colchões um ao lado do outro onde nos acomodamos para a longa espera desde o meio dia, horário que chegamos, até a meia noite, hora tradicional de iniciar a subida de 1.150 metros até o cume.

Passamos à tarde preparando nossas mochilas, comendo e hidratando, pois no dia seguinte teríamos ao redor de 15 horas de caminhada em altitude. Eu e a Andrea revisamos o equipamento de cada um dos clientes recomendando que tivessem três camadas de roupas nas pernas, duas meias, e quatro camadas no tronco além de gorro, duas luvas, echarpe, filtro solar e labial, óculos escuros e snacks.

Fomos dormir após o jantar às seis da tarde, mas a ansiedade, os roncos eventuais e o amontoado de gente não deixou ninguém dormir bem. Apesar disso quando tocou o despertador as onze todos estavam de bom humor e animados para o desafio que tinham pela frente. Tomamos um breve “café da manhã”, dividimos o grupo entre eu, a andrea e os cinco guias locais de modo que cada um de nós seria responsável por no máximo dois clientes podendo com isso dar atenção a cada um deles nesta longa e difícil noite. Pontualmente a meia noite com uma temperatura de ao redor de oito graus negativos começamos a subida, procurando dar um ritmo lento, porém constante. Após uma hora, o grupo havia se dividido em três subgrupos com a Andrea, o Pilli, a Marjorie, o Alexandre, o César, o Guto e a Gita na frente, o João, o Daniel, o Irineu e o Marcelo no meio e eu e o Paulo no final. Conforme as horas corriam e nós subíamos a temperatura ia baixando cada vez mais e as paradas que tínhamos planejado fazer a cada hora se tornaram mais breves, pois mesmo nos poucos segundos que levávamos para beber um pouco de água semi congelada e comer algum snack já nos esfriávamos muito. Após quatro horas de caminhada estávamos já bastante próximos de nosso primeiro objetivo, o Gilman’s Point a 5685 metros já na borda da cratera.

Adiantei-me um pouco para ver como estava o grupo da frente já que a Andrea tinha ficado um pouco para trás com o César. Cheguei ao Gilman’s Point junto com o grupo da frente às 5 horas, um tempo bastante bom quando normalmente se planeja chegar aí ao nascer do sol, uma hora mais tarde. Após nos abraçarmos e comemorarmos um pouco nossa conquista seguimos adiante, agora contornando a borda da cratera em direção ao cume verdadeiro do Kilimanjaro, o Uhuru Peak com 5895 metros.

Mas, estava preocupado com o Paulo que tinha ficado bastante para trás. Mesmo sabendo que estava acompanhado por um de nossos experientes guias locais resolvi voltar para acompanhá-lo. Sabia que havia grandes chances de não fazer o cume, mas isso neste momento não interessava, queria ter certeza de que ele estava bem. Voltei ao Gilman’s Point e comecei a descer a forte inclinação que precede este ponto e encontrei-o ofegante e dizendo que estava um pouco tonto. Segui em sua frente fazendo um passo extremamente lento, fazendo uma parada para respirar a cada passo e com isso ele começou a se sentir melhor e subimos com grande esforço até o Gilman’s Point. Não sabia muito bem como ele estava, mas ele queria seguir então começamos a caminhar pela borda da cratera, mas após alguns metros ficou claro para mim que seria uma temeridade continuar. Talvez ele até conseguisse chegar ao cume, mas com certeza teria muita dificuldade em voltar. Medi a sua saturação e estava bastante baixa, 64. Auscultei seu pulmão para ver se havia algum sinal da temida HAPE (edema pulmonar de altitude), mas não encontrei nenhum sinal suspeito.

Voltamos ao Gilman’s Point, filmamos e fotografamos um pouco e começamos a longa descida de mais de 1000 metros até o Kibo Hut. Ele estava exausto e com freqüência se desequilibrava e eu fiz a descida inteira segurando-o pelo capuz de seu casaco para evitar que ele caísse. Após longas duas horas chegamos ao hut e arranjei uma cama para ele dormir um pouco. Estávamos agora em outra rota, a apelidada de Coca Cola e para comemorar nosso feito comprei uma para cada um de nós. Nunca uma coca foi tão deliciosa como essa. Já eram 8 da manhã e eu não havia bebido ou comido nada a noite inteira. Sempre preocupado com o bem estar do grupo fui deixando para beber mais tarde e finalmente quando estava disposto a fazê-lo acabei dando toda minha água e também o chá que trazia em minha garrafa térmica para o Paulo que necessitava mais do que eu.

Às onze horas o restante do grupo chegou. Estavam exaustos também, mas extremamente felizes com sua chegada ao cume. Todos eles haviam logrado colocar os pés no ponto mais alto da África. Após um merecido almoço seguimos mais quinze quilômetros até o nosso acampamento, outros 1100 metros abaixo. Eles haviam completado um dia muito difícil com 1150 metros de subida a noite, com frio, terreno escorregadio e descido 2100 metros. A noite de sono que se seguiu foi a melhor de toda a viagem.

Quando terminamos o jantar e fomos para nossa barraca finalmente a Andrea pode me contar de seu dia já que desde que iniciamos a subida não tinha tido a oportunidade de conversar com ela. O Kilimanjaro tinha sido o quarto dos seus Sete Cumes e ela estava exultante.

O dia seguinte foi delicioso! Descemos outros 1000 metros em vinte quilômetros e apesar do cansaço do dia anterior caminhamos como se nada tivéssemos feito. O oxigênio estava fazendo milagres com nosso corpo e a cada passo nos sentíamos mais e mais fortes. No portão do parque comemoramos com merecidas cervejas e tomamos a van rumo ao nosso delicioso hotel em Moshi.

A viagem tinha sido um sucesso completo e eu me sentia realizado pessoal e profissionalmente. Mesmo não tendo chegado ao cume verdadeiro sentia que tinha sido parte do porque este grupo de pessoas tinha realizado seu sonho. Para mim isso bastava.

Com o Kilimanjaro fechamos um ciclo de treinos deste ano e nos sentimos mais do que prontos para nosso desafio maior de 2009, chegar ao cume do Cho Oyu, a sexta mais alta montanha da Terra com 8201 metros, nossa última etapa antes de enfrentar o Everest em abril de 2010. Agora uma sucessão de vôos longos nos levaria ao Nepal e de lá ao Cho Oyu.

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Elbrus, o ponto mais alto da Europa


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 18/07/09 às 12:49 na(s) categoria(s) Todos posts
Para eu gostar de um país é fundamental eu gostar das pessoas do país. Ele pode ser lindo, exótico, diferente e ter as mais lindas montanhas do planeta, mas se eu não me encantar com seus habitantes, nada disso compensará. E a Rússia neste sentido é um país difícil de gostar. As pessoas são secas ao ponto de parecerem rudes e os serviços são dados a contragosto. Você pode filosofar, buscar razões históricas, culpar o regime, mas no fim o que fica é uma sensação de que você não é bem vindo. Os sorrisos são raros e as palavras gentis inexistentes. Saímos de nossos dois dias em Moscou com a impressão de que os russos são tristes, que a burocracia é infernal e que as mulheres e os monumentos são lindos. Mas, só isso.

A idéia de ir para o Elbrus nasceu junto com nosso plano de fazer os Sete Cumes, a montanha mais alta de cada continente. Quase ninguém ouviu falar desta montanha e todos se surpreendem ao ouvir que é o Elbrus e não o Mont Blanc a montanha mais alta da Europa. Não sonhava em escalar o Elbrus e planejei vir mais porque era uma etapa para os Sete Cumes. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma cadeia de montanhas lindíssima, os Cáucasos, com picos nevados imponentes apesar de não muito altos para padrão asiático, vales que não deixam nada a dever aos suíços e a elegância do Elbrus com seus dois cumes quase da mesma altura. Apaixonei-me instantaneamente pela região. É como se fossem os Alpes europeus só que sem gente. Vales íngrimes em forma de ferradura com florestas de pinheiros e rios de corredeira que nascem de glaciares imensos e se conectando com outros vales igualmente desertos. As possibilidades de trekking são infinitas e, como sempre me deparo com lugares assim já comecei a pensar em possíveis roteiros para próximas viagens.

Passamos três dias instalados em um antigo centro de treinamento de alpinistas da era soviética chamado Elbrus Camp. Lá, por setenta anos viveram, treinaram e usaram como base as estrelas do alpinismo soviético dormindo em quartos comunitários, comendo em refeitórios, acordando às seis da manhã e escalando utilizando material ultrapassado e pesado. Em fotos branco e preto vemos rostos duros que nos transmitem força e determinação. Para nós tudo é muito mais fácil. Saímos para caminhadas de aclimatação subindo a cada dia um pouco mais tentando preparar nosso organismo para os 5642 metros do cume do Elbrus onde queremos estar em poucos dias.

Em muitos aspectos a escalada do Elbrus é singular e para todos nós, eu, a Andrea e nossos quatro clientes, é uma maneira diferente de escalar uma montanha. Normalmente vamos ganhando altitude gradualmente dormindo cada vez mais alto. Aqui estaremos usando apenas duas bases, o Elbrus Camp em um vale a 2000 metros e os “barrels” já na encosta do Elbrus a 3700 metros. Desses dois pontos fazemos caminhadas cada vez mais altas para aclimatarmos, mas voltamos a dormir nos mesmos dois pontos.

Após três dias caminhando por lindos vales estamos prontos para mudarmos para a montanha propriamente dita. Tomamos três ski lifts carregados com nosso equipamento de escalada e comida para seis dias. E, de repente, estamos em um lugar que não podia imaginar. Nossa casa para os próximos 4, 5 ou 6 dias, dependendo de nossa sorte com o tempo, era um container de metal com dois grande beliches para dezesseis pessoas, mas que será de nos sete contando com Victor, nosso guia local. Ao redor do container estão estacionados vários snow cats, pequenos caminhões com esteiras para se deslocar na neve que levam esquiadores e escaladores montanha acima e abaixo. Movem-se com grande ruído e lançando uma feia fumaça negra no azul escuro do lindo céu de altitude. Um pouco acima bandeiras da Red Bull anunciam um campeonato de snow board e a nova afluente juventude russa vestida com roupas que até então associava com grupos de rap salta rampas de neve fazendo piruetas. Olhando em direção aos dois cumes do Elbrus vejo filas de escaladores subindo ou descendo e de quando em quando passam em grande velocidade motos de neve, versões adaptadas de jet skis, zigzagueando entre os escaladores. Tento sem muito sucesso juntar tudo isso com a imagem que tenho de escalar uma montanha. No final do dia, o pôr-do-sol na grande cordilheira me reconcilia e me devolve a paz.



Nos próximos dois dias fazemos caminhadas de aclimatação chegando a 4600 metros, o ponto de partida para nossa tentativa de cume já que neste dia usaremos o snow cat para o percurso inicial de mil metros acima dos barrels. No dia seguinte enquanto o grupo descansa, eu e a Andrea decidimos fazer uma tentativa de chegar ao cume para conhecer a rota e também para garantir que teríamos chegado ao cume caso precisemos voltar com algum dos clientes. Como essa decisão é feita de última hora acabamos saindo muito tarde, as 10:30 da manhã. Tomamos um snow cat que nos deixa mil e cem metros abaixo do cume e de lá seguimos por uma longa encosta que contorna o cume leste até o colo. Coloco um ritmo forte e em três horas chegamos à parte plana que separa os dois cumes. O tempo normal de escalada para grupos é de oito a dez horas, mas nós estamos em uma forma física excelente e dominamos o mais importante conhecimento de montanha que é conhecer o seu próprio ritmo, aquela velocidade que você consegue caminhar por horas seguidas sem ter de parar e com a máxima economia de esforço.

Quando chegamos ao colo o tempo começa a se deteriorar e a visibilidade diminui para poucos metros. Não conhecemos o caminho, mas a cada vinte metros a rota é sinalizada por marcadores de bambu. Continuamos, mas desde que saímos tínhamos decidido que voltaríamos às 16 horas não importa onde estivéssemos. No dia seguinte subiríamos novamente ao cume com os clientes e desta vez acordaríamos a uma da manhã para estar começando no máximo as 3. Tínhamos de ter algumas horas de descanso e do cume até os barrels eram mais de 2.000 metros de descida.

A encosta se tornou mais inclinada a partir do colo e a visibilidade piorou ainda mais e em alguns lugares não conseguimos nem enxergar a próxima sinalização. Subimos em um ritmo bem mais lento já que a altitude se faz sentir de forma marcante. Não estamos aclimatados para esta altitude e cada passo exige um esforço enorme. Não podemos consumir todas nossas energias, temos que pensar na subida de amanhã. A cada passo respiramos duas vezes. Já são duas e meia e ainda faltam 150 metros. Estamos ganhando apenas dois metros verticais por minuto. Neste ritmo não vamos chegar. Seria tão mais fácil voltar e tentar chegar amanhã com muito mais tempo. Mas, mesmo assim seguimos. Ainda temos tempo. Caminhamos com a cabeça abaixada por causa do vento que está cada vez mais forte. Nuvens lenticulares envolvem o topo anunciando piora do tempo. Às 3 da tarde o altímetro mostra 5550 metros, mas de repente a Andrea vê bandeiras sacudindo violentamente a nossa frente. Sem saber chegamos ao cume. O altímetro estava errado. Nem podemos acreditar, estamos realmente no topo. Dou os últimos passos incrédulo. Fizemos a escalada em quatro horas e quinze minutos, um tempo excepcional! Como se os deuses da montanha estivessem apenas esperando por nossa chegada, um minuto depois uma fortíssima nevasca nos cobre de flocos redondos e secos como isopor. A temperatura está insuportável. A idéia de que do cume poderíamos ver o mar Negro e o Cáspio parece inacreditável. Mal podemos ver um ao outro. Tiramos as habituais fotos, filmamos um pouco com as mãos reclamando do frio e corremos para baixo fugindo da tempestade. Nos quinze minutos que estivemos no cume nossas pegadas desapareceram e aos poucos conforme descemos a trilha também é coberta pela neve que cai abundantemente. Estimulo a Andrea para que ela desça mais rápido. Ela é mais cautelosa nas descidas do que eu, mas as condições estão piorando rapidamente e quero chegar ao colo o mais rapidamente possível. A partir de lá o caminho é mais fácil e o risco de avalanches menor. Ela entende a nossa situação e perdemos altitude rapidamente. Em meia hora estamos seguros e a partir daí é só colocar um pé diante do outro e seguir baixando. Com a neve fresca escorregamos montanha abaixo como se estivéssemos descendo uma duna de areia. Às cinco e meia da tarde, menos de seis horas de escalada entramos nos barrels para receber os parabéns do grupo. Nossa ida os deixa aliviados. Sabem que podem fazer. Tem mais confiança, pois agora já conhecemos o caminho. Agora e descansar e começar tudo novamente em menos de oito horas.

Acordo com o insistente barulho do despertador sem saber onde estou. Olho ao meu redor completamente confuso. Estava dormindo tão profundamente que não sei por que estou sendo arrancado do conforto do meu sleeping bag tão cedo. Ouço o barulho do vento ao redor dos barrels. Será um dia difícil.

As três e quinze, estamos sentados no snow cat no escuro e frio da madrugada. Ele avança lentamente em direção ao nosso ponto de partida, mil metros acima. Quarenta e cinco longos e frios minutos depois chegamos a 5650 metros e descemos. O vento que vínhamos sentindo não era do movimento do snow cat, era da montanha mesmo. O frio intenso e o vento fortíssimo surpreende. Nada nesses dias todos nos havia preparado para isso. O começo é bem confuso. Havíamos combinado de que o Caio seguiria comigo, o Alfredo com o Victor e o Papi e o Bala com a Andrea. Mas, na escuridão e frio da manhã não se vê nada e começo a andar com o Caio e o Bala comigo. Mantenho um passo bem lento para fazer o cume em ao redor de oito horas. Pé direito, respiração, pé esquerdo, respiração, bastão, bastão. Vinte centímetros verticais de ganho a cada passo. Em cinco mil passos estaremos lá. Caminhando vamo-nos aquecendo e aos poucos estabelecendo um ritmo. Após meia hora sinto o Caio diminuir de ritmo e a Andrea nos ultrapassa levando com ela o Papi e o Bala. Sei que eles serão os mais rápidos e sigo no ritmo que planejei. O Caio não conseguiu uma bota dupla do seu tamanho (47) e está usando a minha bota sem a parte de dentro, instável e frio. Foi o melhor que pudemos fazer, mas sei que isso pode ajudar a roubar o tão sonhado cume dele. O Alfredo fica para trás. Não consigo vê-lo, mas sei que está com o Victor e fico tranqüilo. O nascer do sol é espetacular com tons intensos de violeta cobrindo todo o leste. Um pouco mais adiante vemos aparecer a sombra do Elbrus no horizonte. Dou três passos e paro para apreciar o espetáculo. Todo o esforço vale a pena. Apesar de subir muito lentamente sinto que o Caio está ficando para trás. Diminuo o ritmo ainda mais e proponho respirar três vezes a cada passo. Isso funciona por algum tempo, mas conforme ganhamos altitude mesmo isso se torna muito difícil. O Caio, talvez pelo frio que sobe de seus pés, tem as mãos geladas. Tiro os seus mittens e massageio suas mãos até senti-las quentes entre as minhas. Volto a fazer isso mais duas vezes nas próximas duas horas. Sinto que será muito difícil para ele encontrar motivação e forças para chegar ao cume. Já estamos escalando há quatro horas e meia e ainda nem chegamos ao cume. Serão necessárias outras quatro horas para chegar lá. Mas, o que mais preocupava era a volta. Mesmo sem a bota interna seus dedos encostavam-se à frente da bota e a volta seria uma tortura. Após cinco horas chegamos ao começo do passo, uma área um pouco mais protegida onde finalmente podemos parar e comer algo. Antes com o vento para era impensável. Enquanto comemos em silencio, cada um considerando o que fazer, o Victor chega com o Alfredo. Ele diz que está muito cansado, mas acho que ele tem energias para continuar. Digo aos dois que aquele era o ponto de se comprometer em mais quatro horas de subida ou voltar. O Caio decide voltar e prefiro não insistir para que continue. Tenho medo da volta e do tempo que está mais uma vez cada vez pior. As nuvens na forma de aranha causada pelos ventos fortíssimos passam em cima de nossas cabeças formando formas lindas e amedrontadoras. Fico com pena pelo Caio, mas acho que é a decisão mais sábia.

A volta demorou quase a mesma coisa que a subida e, se antes tinha dúvidas se havíamos agido corretamente, agora tenho certeza que sim. Também eu estou esgotado. Caminhar neste ritmo tão inferior ao meu natural é esgotador. Chegamos aos barrels a uma da tarde, oito horas após havermos saído. Três horas depois chegam todos os outros felizes de haver conquistado seus objetivos. Estamos prontos para voltar, eles para suas casas e eu e a Andrea para nossa próxima montanha, o Kilimanjaro. Nosso objetivo dos Sete Cumes está cada vez mais próximo. Para mim só faltam duas, o Everest e o Vinson e para a Andrea quatro. Mas, mais do que números e conquistas sinto que estou feliz por ter a oportunidade de estar nas montanhas, de fazer o que amo e de ajudar outras pessoas a realizarem os seus sonhos. Cada montanha me ensina novas coisas, me expõe a novas dificuldades e me deixa mais pronto para os desafios dos gigantes que temos pela frente: Cho Oyu e Everest. O medo vai dando lugar à confiança. Em poucos meses teremos a oportunidade de estar no topo do mundo. Cada vez mais acredito nisso...

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Indo para o cume do Denali (McKinley)


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 04/07/09 às 12:04 na(s) categoria(s) Todos posts
02/06/09 – Campo 2 (3300 metros)  – Campo intermediário entre o Campo 2 e o 3 (4000 metros)

 

Acordamos ansiosos para ver como estava o tempo e para nossa tristeza uma enorme nuvem lenticular, sinal de mau tempo e fortes ventos, estava parada no topo do Denali. Apesar disso havia alguns grupos subindo a encosta de 30 graus que dava inicio ao caminho ao Capo 3. No café da manhã o Chris nos disse que preferia esperar um pouco para ver se o vento acalmava pois tínhamos pela frente o Windy Corner, uma espécie de Cape Horn do Denali, ou seja, o lugar que poderia permitir ou impedir nossa ida ao Campo 3.

Ficamos andando de um lado para o outro esperando o sinal verde para partirmos, agora mais difícil ainda já que o tempo, pelo menos no Campo 2 onde estávamos não estava muito ruim. Finalmente ao meio dia o Chris decidiu partir e com muita alegria fomos nos equipar.

No topo desta primeira encosta olhei para trás e pela primeira vez tive uma idéia melhor do tamanho do Campo 2. Durante todos esses dias de mau tempo mal tivemos a oportunidade de andar muito pelo campo e só de cima que vi o tamanho real dele. Tinha ao redor de 50 barracas em um espaço razoavelmente pequeno, todas com seus muros de blocos de neve, algumas com bandeiras de seus paises, outras com esculturas em gelo, resultado do ócio forçado dos últimos dias. Foi lindo de ver, mas estava feliz de partir ainda que por algumas horas já que só estávamos indo fazer um transporte e voltaríamos para dormir mais uma noite lá.  

Um pouco mais acima o vento voltou a piorar com rajadas fortíssimas que chegavam a me desequilibrar. Depois de algumas aprendi o truque. A Andrea estava na mesma corda, na minha frente, e quando ela se desequilibrava por uma rajada eu já ma preparava para segundos depois recebê-la. Passamos por varias cravasses parcialmente cobertas por pontes de neve sólidas e fiquei feliz de estar escalando em princípios de junho e não mais adiante quando as pontes derretem e as cravasses ficam mais expostas e obrigam a grande zig-zags para seguir o caminho. O Windy Corner fez jus ao seu nome apesar de que o vento forte, mas constante que enfrentamos era mais fácil do que as fortes lufadas. Apesar do vento e do conseqüente frio eu estava muito bem agasalhado com duas camadas nas pernas, quatro no tronco, luvas grossas, máscara de neoprene no rosto, gorro e echarpe e me senti muito confortável.

Deixamos nosso equipamento enterrado na neve e nos voltamos para descer ao Campo 2. De onde estávamos podíamos ver o platô do Campo 3 não muito distante e também o Head Wall, a parte mais inclinada da escalada com cordas fixas que iríamos enfrentar dali a poucos dias.

 

Quase já podia sentir o gostinho de chega a parte mais alta da montanha. Só dependia do tempo se manter estável. Enquanto descíamos o tempo foi abrindo ainda mais e lá em baixo, na direção do Campo Base, podíamos ver a tundra, o primeiro verde desde que aterrisamos tantos dias atrás.

Quando fomos dormir o tempo tinha limpado completamente e dormimos com o coração cheio de felicidade.

 

03/06/09 – Campo 2 (3300 metros) – Campo 3 (4300 metros)

 

Acordamos com uma manhã maravilhosa, o céu azul escuro de altitude e o sol refletindo no topo das montanhas. Saímos as 10 da manhã para finalmente deixar permanentemente o Campo 2 que nos hospedou involuntariamente tantos dias. Como não queria subir com o trenó minha mochila acabou ficando bem pesada, muito mais do que eu esperava. A caminhada foi tranqüila até certo ponto quando o George mais uma vez parou e nos disse que não conseguiria seguir. Para evitar o que já tinha acontecido após o Campo 1 acabamos dividindo o peso dele entre alguns de nós e eu fiquei com mais quatro quilos. Como já estava quase no meu limite, a caminhada deste ponto em diante foi muito dura. O que amenizava o esforço era a vista que se tornava cada vez mais espetacular. O Denali finalmente aparecia em toda sua grandeza e quando cheguei tive a nítida sensação de que todos esses dias tinham sido apenas uma caminhada de aproximação e que a verdadeira escalada estava a nossa frente.

O Campo 3 fica em um lindo platô na beira do Head Wall, a encosta de 50 a 55 graus que nos leva até uma fina crista no final da qual se encontra o nosso último campo, o 4. A vista não poderia ser mais espetacular. Atrás de nós o Denali se elevando dois mil metros verticalmente. Ao sul as silhuetas do Mount Hunter e do Foraker, as duas montanhas que vem nos fazendo companhia desde o inicio da escalada e que aos poucos estão ficando mais baixas conforme vamos ganhando altitude. E todo ao redor glaciares maravilhosos, imponentes e amedrontadores em sua magnitude. 

No campo 3 tem um posto dos guarda parques e em frente de sua barraca colocam a previsão do tempo diariamente e assim que chegamos fomos checar o que teríamos pela frente e as noticias não eram muito boas. A previsão era de dois dias de ventos fortíssimos de mais de 60 quilômetros por hora. Como o caminho entre o Campo 3 e o 4 passa por uma crista muito exposta o vento é uma preocupação grande.

Após descansarmos um pouco começamos o duro trabalho de montar o campo, aplainar as plataformas para as barracas e fazer a cozinha. O que não precisamos fazem aqui foi o nosso banheiro já que no campo 3 existe a mais peculiar privada que já vi. Um cercado de madeira de um metro de altura ao redor de uma privada, mas com o último lado aberto para a montanha e também para quem quer que passe por ali. O lado bom é que a vista da privada era a mais linda imaginável, montanhas, glaciares e a imensidão do Alaska. Não fosse o frio seria um bom lugar para apreciar a vista confortavelmente sentado.  

Ao chegar estava me sentindo muito fraco e cansado, mas após comer e me hidratar as forcas voltaram. Mais uma vez percebi o quanto estava sofrendo por falta de comer o suficiente. Eu necessito pelo menos 4000 calorias para este tipo de esforço físico e não creio que esteja comendo mais do que 2500.

Após o jantar tivemos muita dificuldade em entrar em nossa barraca. A vista com a suave luz do entardecer estava absolutamente mágica e apenas o crescente tiritar nos obrigou a buscar refugio no calor de nossos maravilhosos sleeping bags.

 

04/06/09 – Campo 3 (4300 metros) – transporte (4000 metros) -  Campo 3

 

Infelizmente o período de bom tempo não foi muito longo. Pela manhã o céu estava coberto e nevava levemente. Para piorar acordei muito cansado após uma péssima noite. Tive dor de cabeça e acordei diversas vezes. A barraca tinha ficado em terreno irregular e o meu lado estava inclinado e cheio de calombos. Ao caminhar para o café da manhã, uma distancia de não mais do que cinqüenta metros, cheguei cansado e preocupado. Tudo me lembrava minha última experiência no Aconcagua quando após um dia duro, a ida de Confluência para o campo base percorrendo a Playa Ancha, tive uma noite horrível e acordei com o mesmo cansaço e desânimo. Uma profunda sensação de que meu corpo não estava bem em grande contraste do que vinha sentindo até então. Será que a altitude estava me afetando ou será que alguma coisa mais grave estava começando a se manifestar. O fantasma de minha experiência no Aconcagua, o sofrimento de quatro noites horrorosas no campo base, o diagnóstico de uma pneumonia que acabava minhas esperanças de que melhoraria e que poderia compartir o cume com a Andrea e com o grupo que guiava, o resgate por helicóptero, tudo voltava a minha mente como se tivesse acontecido há poucos dias e não há mais de um ano atrás.

O que seria uma fácil caminhada até onde tínhamos deixado o equipamento, uma descida de meia hora e uma subida de setenta minutos, para mim foi bastante cansativa e cheguei de volta ao acampamento exausto e deprimido. Será que mais uma vez iria começar uma montanha super bem para adoecer poucos dias depois? Chegar ao topo desta maravilhosa montanha era um sonho de muitos anos e agora que estávamos a um passo de chagar lá eu iria ser obrigado a voltar? Decidi não arriscar, se alguma coisa estava começando iria tentar reverter isso. Fui para a barraca e escondido tomei um antibiótico. Não contei a Andrea para não preocupá-la e como o restante do dia era de descanso aproveitei e fiquei lendo na barraca.

No final da tarde já me sentia muito melhor, a lassidão tinha ido embora e apesar de que ainda sentia muito medo um pouco do pessimismo já tinha ido embora. Passamos uma hora treinando a técnica de subida em corda fixa que usaríamos no dia seguinte e fomos dormir cedo.

 

05/06/09 – Campo 3 (4300 metros) – transporte (4900 metros)  -  Campo 3

 

Considerando que comprei boa parte do equipamento por internet sem ver e tocar, tive muita sorte, pois quase tudo era exatamente o que buscava e o que precisávamos. Mas, não podia esperar que 100% funcionassem. No segundo dia de expedição meu colchonete, um modelo novo da Thermoarest chamado Neo Air, de repente explodiu e uma grande bolha se formou no lado da cabeça. Com o passar dos dias essa bolha cresceu até que ontem quando fui dormir ela estava tão grande que não dava mais para usar. Com isso dormi apenas sobre o meu colchonete não inflável e com isso passei muito frio e a noite foi desconfortável. Apesar disso acordei bem disposto e me sentindo, para meu grande alívio, energético. O tempo estava exatamente como eu tinha rezado para que estivesse, encoberto, mas sem nevascas. Hoje seria um dia importante e duro, nossa primeira subida do Head Wall, a parte mais técnica da escalada e estava com medo de sofrer com o calor caso estivesse tempo bom.

Já as oito estávamos a caminho e a primeira parte foi bem tranqüila com um ritmo bom, inclinação constante e neve firme. A vista a cada passo se tornava mais e mais espetacular e rapidamente nossas barracas foram se transformando em pequenos pontos na imensidão de gelo. Após subirmos 300 metros chegamos às cordas fixas e daí a coisa se complicou. O tempo piorou e o vento aumentou dramaticamente e em pouco tempo estávamos cobertos de uma neve fina que voava horizontalmente queimando nosso rosto. Às vezes tinha a sensação de estar andando em uma superfície movil onde ondas de neve percorriam velozmente a encosta cobrindo nossas pegadas em poucos segundos. Como estava na cordada mais lenta, quando cheguei à plataforma na base da corda fixa o restante do grupo já estava lá há algum tempo e a Andrea estava gelada e reclamando que não sentia seus pés. O Chris, sempre atencioso e preocupado com a possibilidade de congelamento de extremidades, pediu para a Andrea tirar as botas duplas, tarefa nada fácil quando se está em uma pequena plataforma de gelo em uma encosta inclinada e com um vento fortíssimo. Para nosso grande alívio a cor dos pés estava normal e após um pouco de massagem eles melhoraram e pudemos seguir. A subida das cordas fixas foi um processo muito lento, em parte pelo grande numero de gente e em parte por causa da inexperiência de todos com o manuseio dos jummars, equipamento que desliza corda acima, mas trava ao se aplicar pressão e com isso dá segurança e apoio para se subir grandes inclinações como a que estávamos. A subida desses próximos 300 metros nos tardou mais de uma hora e meia e quando chegamos à crista o vento mais forte que já tinha vivido nos esperava. Tentamos nos abrigar atrás de algumas rochas, mas o vento de mais de 90 quilômetros por hora nos castigava horrivelmente. A cena era caótica com todos gritando um ao outro instruções que ninguém ouvia. A sensação térmica era seguramente inferior a quarenta graus negativos e rapidamente estávamos perdendo a sensação nas mãos. Não houve outra alternativa do que mudar os planos. A idéia inicial era deixar o equipamento na metade da crista, já próximo ao Campo 4, mas seria muito arriscado fazer a crista que é extremamente exposta com caídas de ambos os lados de mais de mil metros. Rapidamente cavamos um buraco na neve e deixamos tudo lá mesmo e voltamos para a segurança do Campo 3.

Não chegamos a correr nenhum risco real, mas pela primeira vez sentimos a fúria dos ventos do Denali e de repente tudo o que tínhamos ouvido falar da dureza desta montanha se tornou mais real.

Após descermos ao redor de cem metros subitamente o vento acalmou e pude ver onde estava. Nunca em uma montanha tive uma sensação de desnível tão impressionante. Abaixo de nós, praticamente seiscentos metros verticais, estava o Campo 3 que daqui de cima não era mais do que pontos coloridos cercados de pequenos muros de gelo. O cume do Mount Hunter já estava abaixo de nós e o do Foraker que antes se agigantava agora estava apenas ligeiramente mais alto. Estava exultante! Tinha feito a parte mais técnica da montanha sem grandes problemas e tinha enfrentado ventos fortíssimos e superado esta prova. Sentia-me extremamente forte, poderia ter continuado a escalada por muito mais horas. Sentia que nada poderia me parar agora. Que diferença em relação há vinte quatro horas antes...

Chegamos de volta ao campo às três da tarde após sete horas de escalada e não havia uma brisa. Dentro da barraca estava tão quente, mais de trinta graus, que tivemos de tirar toda a roupa e abrir as portas. Mais uma vez me surpreendi com a enorme variação de temperatura nesta montanha.

 

 

06/06/09 – Campo 3 (4300 metros)

 

Dormi até as dez graças a Andrea que na noite anterior tinha ido até o guarda parques e conseguido um outro colchonete emprestado. A noite foi extremamente fria, mas com dois colchonetes e meu super sleeping bag dormi super bem mesmo com os calombos.

O dia foi dedicado a recuperar as forças, comer e ler. Passei boa parte do dia lendo na barraca e tirando pequenas siestas. Tivemos um excelente brunch e, uma das raras vezes, estava com a deliciosa sensação de barriga cheia. O otimismo geral foi reforçado pela previsão de tempo que dizia que uma frente de alta pressão estava entrando e com isso teríamos ventos mais fracos e aumento da temperatura. Para o dia seguinte a previsão era de ventos de “apenas quarenta quilômetros por hora”. Mas, melhor do que isso era que teríamos pela frente dois dias de bom tempo, exatamente os dias que estávamos planejando ir ao cume. Que felicidade!

Após o jantar tivemos uma surpresa deliciosa: sorvete como sobremesa e o melhor foi a maneira como ele foi feito, com neve e leite condensado!

Ao voltarmos para a nossa barraca a vista estava estupenda com as montanhas se tingindo de tons pastel com o por do sol as 10 da noite.

 

07/06/09 – Campo 3 (4300 metros) – Campo 4 (5212 metros)

 

Acordamos as cinco e levamos três horas para ficarmos prontos e o caminho ate as cordas fixas foi razoavelmente tranqüilo. Como antes de entrar nas cordas estava muito frio eu acabei me agasalhando muito e acreditando que continuaria frio não tirei nada antes de entrar na encosta e uma vez que você está nas cordas fixas não dá para parar, é muito inclinado e sempre tem gente atrás de você.

Com isso acabei ficando com muito calor e isso me roubou toda energia. Ironicamente, eu sempre tenho mais medo de passar calor nas montanhas do que frio. No caminho entre o campo 1 e o 2 no Everest sempre leio do horror que é o calor quando o sol sai de manhã. O Vale do Silêncio, como é chamado o longo vale entre esses dois campos funciona como um enorme refletor do calor do sol e se antes do sol sair a temperatura está ao redor de dez graus negativos, após vai a mais de trinta positivos!

 A Andrea estava no seu dia de pouca energia, isso sempre acontece na montanha, um dia você está ótimo e no próximo não tanto. Quando chegamos no topo das cordas fixas ela estava bem cansada e eu peguei vários quilos da mochila dela e acrescentei a minha que já estava pesada. Com isso segui com ao redor de vinte e cinco quilos o que, para esta altitude, é bastante.

O restante do caminho foi por uma longa crista em partes muito inclinada e extremamente exposta. A cada lado podíamos ver espetacularmente as paredes da montanha despencando por centenas e centenas de metros. O Campo 3 estava lá longe, diretamente abaixo de nós. Apesar das lindas vistas seguíamos muito concentrados sabendo que uma escorregada poderia ser muito perigosa apesar de estarmos encordados.

Chegamos ao Campo 4 após duras sete horas e meia de escalada e bastante cansados. Era a primeira vez nesta montanha que estávamos acima de cinco mil metros e o ar rarefeito se fazia sentir. Mal chegamos e nos pusemos a trabalhar na construção de nosso acampamento que acabou ficando um pouco afastado dos outros grupos. Com a tormenta que enfrentamos no Campo 2 e cronograma de todos que estavam subindo ficou parecido e agora muitos escaladores se encontravam no Campo 4 e tivemos que acampar mais afastados. O que deu mais trabalho foi a construção de um bom muro de blocos de neve e a Andrea me surpreendeu com sua energia e habilidade com a serra cortando blocos por quatro horas. A falta de energia que ela sentia no começo do dia desapareceu e, como sempre, ela não se sentia afetada pela altitude de forma alguma.

Para economizar esforço, nesses dias que passaremos no Campo 4 montamos menos barracas e com isso por noites dividimos a barraca com a Anse e com isso nosso conforto diminuiu muito. Se fosse nossa escolha teríamos trazido mais uma barraca pois isso seria compensado pelo melhor descanso nesses dias, mas como tudo o mais nesta expedição, essa decisão não era nossa.

No final da tarde vimos várias pessoas descendo do cume e imaginei a felicidade delas com a sorte de ter um dia assim como hoje com céu azul e razoavelmente pouco vento. Será que para nós também será assim? Será que o bom tempo se manterá?

 

Dia 08/06/09 – Campo 4 (5212 metros)

O que seria um dia de descanso total para o preparo para o dia de cume acabou sendo apenas parcialmente tranqüilo, pois o dia amanheceu com muito vento e decidimos reforçar os muros, fazê-los mais altos para que não tenhamos surpresas. Não é raro ter barracas destroçadas pelos ventos aqui neste campo e todo o cuidado é pouco. Com isso, trabalhamos mais três horas serrando blocos de neve, um trabalho extremamente pesado.

Ontem o Anush chegou muito cansado no campo e sentindo muito frio e acabou indo para dentro de sua barraca e ficando lá enquanto todos que também estavam cansados, pois o dia tinha sido duro, trabalhavam. Hoje quando decidimos reforçar os muros ele não saiu novamente para ajudar e quando fui à sua barraca para perguntar como estava ele respondeu com uma voz de vítima que continuava se sentindo fraco. Tenho certeza de que estava “quebrando a mão”, mas nada podia fazer. Cada um decide o quanto quer ajudar. Para mim, essas atividades são sempre bem vindas para quebrar a inatividade desses dias de descanso a também acho que ajudam a aclimatar melhor.

Com o forte vento todos que planejavam sair para o cume tiveram que desistir e nós que planejamos subir amanhã acompanhamos o tempo durante todo o dia com muita ansiedade. No final da tarde, como tem sido o padrão, o vento amainou e tivemos um lindo fim de tarde.

Jantamos cedo e fomos para a barraca preparar o equipamento para o grande dia. Deixamos tudo já dentro da mochila para evitar esquecer algo já que tudo o que separamos é de importância vital!

 

Dia 09/06/09 – Campo 4 (5212 metros) – Cume (6194 metros) – Campo 4

 

Tive uma noite muito agitada com a ansiedade de como amanheceria. Além disso, ao redor de meia noite o vento voltou a aumentar e como a barraca estava completamente congelada por dentro por causa de nossa respiração por varias horas tivemos uma chuva constante de flocos de gelo deslocados pelas lufadas de vento. Por mais que tentasse me esconder dentro do sleeping bag o gelo encontrava maneiras de entrar e derreter no meu rosto me acordando. Apesar disso acordei bem disposto e energético e muito feliz ao ouvir que ainda bem cedo os fogareiros na barraca dos guias já estavam funcionando sinal de que o tempo estava bom. Abri a barraca e o dia mais lindo de toda a expedição me esperava. Não havia uma nuvem, o céu estava daquele tom escuro que só existe acima de cinco mil metros e não havia nenhuma brisa, o mais perfeito dia de cume que se pode pedir.

Entre acordar e sair foram longas quatro horas de preparação, pois derreter água para o café da manhã de doze pessoas e mais água para o dia todo a esta altitude não é um trabalho fácil. Durante essas quatro horas eu olhava para o topo da montanha torcendo para que as nuvens lenticulares que anunciam mal tempo não chegassem. Às nove e meia estávamos finalmente prontos para sair e o ritmo foi razoavelmente lento, pois todos sentiam a altitude. Subimos por duas horas uma longa encosta que leva ao Denali Pass, uma sela trezentos metros acima do campo. Até então o tempo continuava bom, mas imediatamente após cruzarmos o passo um enorme vendaval os atingiu com ventos de pelo menos 90 por hora. Infelizmente o grupo estava muito heterogêneo com o George e o Anush andando muito lentamente. Como sempre, o Chris quis juntar o grupo todo apesar de que no dia anterior ele disse que os grupos seguiriam cada um ao seu passo. Com isso acabamos ficando uma hora parados com um vento absurdo e um frio preocupante. Coloquei tudo o que tinha de roupa, mas mesmo assim quando finalmente saímos, eu estava tiritando. Um pouco mais adiante o vento acalmou e tivemos que parar mais uma vez, agora para tirar roupa e nisso a Andrea se descuidou de sua mochila e para nosso desespero vimos a mochila lentamente deslizar encosta abaixo. Ainda tentei alcançá-la, mas como estava encordado não consegui. Aos poucos ela foi ganhando velocidade e desaparecendo montanha abaixo. Nesses curtos segundos vimos a escalada da Andrea naufragar, pois dentro da mochila tinha água, comida e roupas, coisas fundamentais sem as quais seria muito complicado ela seguir. Por uma incrível sorte um pouco mais abaixo a encosta terminava em um platô sem cravasses e a mochila parou. Muito irritado o Chris se desencordou de seu grupo, se encordou na Andrea e os dois desceram para buscar a mochila enquanto o resto do grupo seguia. Como o ritmo da Andrea era bem mais forte do que o restante do grupo ao redor de meia hora mais tarde eles nos alcançaram. Quando estávamos prontos para prosseguir o George e o Anush disseram que não tinham mais condições de continuar. Estavam muito cansados e apesar de saber que faltavam apenas trezentos metros teriam que descer. O Chris pediu para uma das expedições que já estava descendo para levar os dois e prosseguimos. Já era três e meia da tarde, estávamos escalando há seis horas e o tempo ainda estava bom, mas agora iríamos entrar na parte que tradicionalmente venta mais, a crista final que leva ao cume.

Eu estimava que iríamos levar ao redor de duas horas para chegar ao cume, mas eu estava muito enganado. Para chegar à crista existe uma encosta razoavelmente inclinada com uma corda fixa e com muitos grupos tentando o cume como nós havia uma fila enorme de gente subindo e já vários grupos descendo. Com isso demoramos duas horas só para chegar até a crista e lá tivemos também que esperar muito para deixar passar os grupos que estavam descendo. Finalmente as oito da noite estávamos a caminho do cume caminhando por uma crista de em partes não mais do que um metro de largura com quedas de dois mil metros a cada lado.

O tão temido vento não veio e pudemos com muita cautela percorrer os últimos metros que nos separavam do tão sonhado cume. Às nove horas, com uma linda luz e acima de todas as montanhas por mais de dez mil quilômetros nos abraçávamos emocionados no topo da montanha mais alta da América do Norte!

A vista era fabulosa, mas não durou muito. Como que se o tempo estivesse apenas esperando que chegássemos lá em cima, poucos minutos após chegarmos grossas nuvens cobriram todo o céu e o frio que estava brutal ficou ainda mais forte. Agora que escrevo tenho um pouco de dificuldade em reviver o que senti quando cheguei, mas lembro que naquele momento mais do que felicidade sentia um grande alivio de ter chegado. Em breve estaríamos de volta a Anchorage, ao calor, aos confortos. Tinham sido duríssimos treze dias, com muito frio, vento constante, neve, desconforto, esforço físico e mental e tudo isso tinha acabado. Agora era descer ao Campo 4, de lá ao Campo 2 e então ao Campo Base, cada vez mais quente e mais fácil. A felicidade só veio quando chegamos de volta ao campo três horas mais tarde, a meia noite e entramos no aconchego de nossa barraca. Tinha sido um dia duríssimo de quinze horas e tínhamos logrado chegar ao nosso objetivo. Agora sim podíamos relaxar e realmente curtir nossa conquista. A Andrea era a primeira mulher de seu país a escalar o Denali e eu tinha concluído um sonho de muitos anos.

 

10/06/09 Campo 4 – Campo 2

 

Saímos razoavelmente tarde após um muito merecido descanso e fiemos uma longa parada no Campo 3 para comer, rehidratar e pegar as coisas que tínhamos deixado enterradas. Com isso acabamos chegando ao Campo 2 bastante tarde, e só fomos dormir a meia noite após preparamos as plataformas para as barracas, cozinhar e jantar. A descida tinha sido tranqüila, mas o cansaço do dia anterior e de todos os outros dias se fazia sentir. Por alguns momentos consideramos não parar no Campo 2 e seguir diretamente para o Base, mas o George não conseguiria chegar lá. Mais uma vez, por causa dele, tivemos que mudar os planos. Um grande trabalho de montar acampamento para duas horas de sono já que as duas da manhã  estávamos acordados nos preparando para seguir. A idéia era chegar cedo no Campo Base, tomar o avião para Talketna e seguir este mesmo dia de carro para Anchorage.

 

11/06/09 – Campo 2 – Campo Base – Talketna - Anchorage

 

Um pouco grogues de sono começamos o longo caminho de volta, mas fomos recompensados por um dos amanheceres mais lindos de minha vida com o sol dourando o topo das montanhas e os longos vales gelados se tingindo de cor de rosa. Estava feliz também por ter feito a escalada no período que fizemos. As grandes cravasses que na subida estavam cobertas por neve, agora na volta já estavam começando a se abrir mostrando suas profundezas azuis assustadoras. Em poucos dias a rota seria um pesadelo com mil desvios e zig-zags para encontrar pontes de neve fortes o suficiente para agüentar o peso dos escaladores. Mentalmente enviei desejos de boa sorte aqueles que vinham depois de nós.

Enquanto caminhava revivia todos os momentos desses dias que tão profundamente tinham me marcado. Estava muito feliz de ter conseguido fazer o cume, de ter tido forcas, boa saúde e sorte com o tempo, uma conjunção de fatores não muito fácil de conseguir. Mas, também podia apreciar o quanto tínhamos aprendido nesses dezesseis dias e o quão mais preparados estávamos para enfrentar nossos próximos desafios. Sentíamos-nos muito mais preparados para os desafios do Cho Oyu (8201 metros) e confiantes em nosso equipamento para os rigores do clima do Everest. Mas, mais do que tudo, estava feliz de poder ter tido a oportunidade de viver esses dias plenos na montanha, de ter visto as lindas paisagens do Alaska, seus mágicos amanheceres e entardeceres e de ter realizado mais este sonho.

Agora viria o Elbrus, a mais alta montanha da Europa que ainda não conhecia e uma volta ao Kilimanjaro, o ponto culminante da África, por uma rota nova do outro lado da montanha. Essas duas montanhas seriam a trabalho, mas que maior felicidade do que sentir que o seu trabalho é exatamente a sua paixão?

 

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Enfrentando a tormenta


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 04/07/09 às 10:53 na(s) categoria(s) Todos posts
28/05/09 – Campo 1 – Campo intermediário entre o Campo 1 e o 2

 

Acordamos às seis da manhã, mas só saímos as dez com as já habituais quatro horas de trabalho para comer, desmontar acampamento e se encordar, tudo mais demorado com a dificuldade de coordenar doze pessoas.  Apesar de estarmos no começo da expedição já posso perceber algumas pequenas coisas que deixam a vida um pouco difícil. Nunca tinha feito uma escalada com tanta gente e nem com a obrigação de todos andarem no mesmo ritmo. Até hoje, nas minhas escaladas as cordadas eram de duas ou três pessoas e se tinha mais do que uma cordada cada um andava em seu ritmo. Aqui não, as cordadas são de quatro pessoas e as três cordadas andam juntas e param ao mesmo tempo e com isso nosso ritmo é muito lento e quebrado. A cada minuto alguém tem de parar para urinar ou para tirar ou colocar roupa ou alguma outra coisa e com isso não fazemos um ritmo, coisa tão importante para eu render em um dia longo. Outro problema aqui é a coisa do banheiro. O McKinley é limpíssimo, em parte por causa das regras de uso dos banheiros. Cada expedição leva os seus cmc (clean mountain container) e todos tem de usá-los sob o risco de serem expulsos da montanha. Isto é ótimo, mas tem o seu preço. Imagina que para você sair da barraca é necessário colocar as enormes botas duplas Millet que vem até o joelho, mil camadas de roupa, gorro, luvas e óculos escuros. Daí, você anda até o cmc da tua expedição colocado estrategicamente em algum lugar que seria mais discreto, mas que na realidade está em plena vista de todos já que nos acampamentos as barracas estão uma ao lado da outra. Está nevando e ventando de modo que ao abaixar as várias camadas de calças o vento inunda a parte de dentro de tuas roupas de neve que se derreta ao entrar em contato com a tua pele que até então estava quentinha por estar dentro do sleeping bag. Com as enormes botas e três camadas de calças abaixadas até o joelho é quase impossível acocorar e manter o equilíbrio já que a superfície onde está o cmc é irregular. Você tenta se equilibrar se apoiando na parede de gelo e sua luva fina de fleece (que você usa para ter mais destreza já com as luvas grossas impermeáveis você não consegue fazer nada) se enche de neve e molha. Finalmente você consegue achar uma posição adequada e neste momento um companheiro de escalada passa na tua frente e te cumprimenta “good morning!”. Ainda inibido, estamos apenas no terceiro dia de escalada, nos últimos dias isto já nem te incomoda, você responde encabulado. Aí vem mais um problema, não se pode urinar no cmc e você tem que ter a mão a sua pee bottle, o cantil de plástico que todo escalador tem para evitar sair da barraca à noite para urinar e se congelar ou mesmo escorregar no gelo e morrer como aconteceu com um escalador coreano no Everest em 96. Então, com uma mão você está segurando o pee bottle, com a outra se apoiando e se molhando em uma parede de gelo, as suas pernas adormecem comprimidas pelas calças e botas duplas. E você ainda assim consegue concluir o que foi fazer. Por tudo isso, até agora, a ida matinal ao banheiro foi o trabalho mais difícil.

Hoje, em nossa ida do Campo 1 ao Campo 2, resolvemos levar os trenós, pois de qualquer forma precisaríamos deles no Campo 3 para trazer na volta todo o equipamento. E ao subir com o trenó hoje descobri que na subida ele não incomoda tanto quanto no plano já que como ele fica para trás tencionado não dá os trancos que tanto me incomodaram no primeiro dia.

Hoje o dia foi muito melhor, estava mais presente, sem pressa apesar de que o tempo continuava horrível, sem visibilidade alguma e nevando muito. Ontem, por causa do mal tempo só pensava em chegar, hoje me convenci de que as nevascas serão parte de nossa escalada e o melhor é relaxar e curtir. Também começo a me entender melhor com meu equipamento neste ambiente tão hostil. Resolvi carregar minhas luvas grossas dentro do meu anorak e com isso tive muito mais flexibilidade com as grandes variações de temperatura entre quando estamos andando e quando paramos.

Após cinco horas de caminhada razoavelmente leve apesar da tormenta fizemos uma de nossas paradas de rotina para descansar e comer e o George, que vinha caminhando muito devagar, disse que não conseguiria prosseguir, estava muito cansado e com frio. O vento estava super forte e a neve vinha horizontalmente em nosso rosto. O lugar era muito exposto e acampar ali, em minha opinião, era loucura. Mas, foi exatamente isso que fizemos. Argumentei contra essa decisão com o Chris, mas não teve jeito. Poderíamos ter prosseguido e o George poderia ter ficado com um dos guias, poderíamos ter descasado e prosseguido, mas acabamos trabalhado duro sob um vento infernal fazendo as plataformas e montando barracas tudo para no próximo dia seguir mais uma hora. Olhava no rosto dos outros e via que sentiam o mesmo que eu. Porque, por causa de um dos clientes que sabia que a montanha era dura e que veio mesmo assim sem boa forma física, todos tinham que sofrer. A regra que diz que o grupo não pode se separa e que tem que andar junto sempre é absurda. Mas, nada podíamos fazer e passamos a noite lá. Estava tão claro no meu rosto a minha desaprovação que o Chris veio falar conosco na nossa barraca um pouco mais tarde. Eu disse que achava que o George tinha que descer para não prejudicar todo o grupo. Esses gastos inúteis de energia podiam comprometer as chances de cume de todos. Hoje tinha sido um dia fácil em baixa altitude e mesmo assim o George não tinha dado conta. Que chances ele teria então de fazer um dia dificílimo como o dia de cume em grande altitude? O Chris disse que iria pensar e decidiria no dia seguinte.

Ao entrar na barraca mais uma vez li a frase que está escrita à caneta na parte lateral do tecido interno: “Only those who will risk going too far can possibly find out how far one can go” T. S Eliot. (Apenas aqueles que arriscam ir longe demais podem descobrir quão longe se pode ir). Durante esses dias esta frase me inspirou muito e nos dias que cheguei à barraca cansado ela me ajudou a focar no meu objetivo.

 

29/05/09 – Campo intermediário entre o Campo 1 e o 2 – Campo 2

 

Acordamos mais tarde já que hoje seria um dia tranqüilo, uma hora de caminhada até o Campo 2 com um ganho pequeno de altitude. Fizemos tudo com calma, pois apesar de continuar completamente sem visibilidade tinha parado de nevar. Saímos após o meio dia e em pouco tempo chegávamos ao campo dois onde, de acordo com o plano, ficaríamos três noites. Ao chegarmos fomos brindados com uma linda visão do Denali entre as nuvens. 

A tensão provocada pela parada do George no dia anterior estava no ar e todos se perguntavam o que iria acontecer com ele, mas as horas passaram e nada aconteceu e no fim do dia o Chris nos disse que ele iria ficar e no dia seguinte decidiria.

Após chegarmos cavamos as plataformas para apenas duas barracas já que tínhamos encontrado um espaço já murado para colocar as outras. Mas, trabalhamos muito duro para fazer a cozinha já que a mais ou menos um metro de profundidade encontramos uma camada de gelo dura como cimento.

Tivemos tanto trabalho que às oito da noite ainda estávamos cavando e decidimos deixar para acabar no dia seguinte.

 

30/05/09 – Campo 2 - Campo intermediário entre o Campo 1 e o 2 – Campo 2

 

Logo pela manhã, após o café da manhã, trabalhamos mais três horas para acabar a cozinha e depois disso descemos ao campo intermediário para buscar as coisas que tínhamos deixado lá dias antes. O tempo não podia estar pior, um vento frio fortíssimo levantava a neve recém caída e queimava nosso rosto nos obrigando a trabalhar e depois caminhar com as máscaras de rosto colocadas. A visibilidade era novamente zero e tivemos que usar o GPs para poder encontrar o ponto onde tínhamos enterrado nosso equipamento apesar de estar marcado com wands (varas de bambu com um triangulo de tecido vermelho na ponta). Enquanto estávamos cavando chegaram dois esquiadores perguntando pelo caminho ao Campo 1 e nós indicamos a direção geral, mas ficamos muito preocupados por eles já que as chances de se perderem ou de caírem em uma cravasse era grande. Dois dias antes de voarmos para o Camp Base um americano tinha desaparecido em uma situação semelhante e ainda não tinha (e nem seria) encontrado.   

Neste dia cometi um erro que não teve maiores conseqüências, pois ainda estávamos baixo na montanha, mas que me fez pensar muito sobre o extremo que era o Denali. Na pressa de sair do Campo 2 achei que estava com mais roupa do que estava. Tinha estado trabalhando e me esqueci que tinha tirado duas camadas de blusas e acabei saindo com menos roupa do que era necessário. Passei bastante frio, principalmente quando paramos para buscar nosso equipamento e ao tirar minhas luvas grossas para guardar tudo na mochila minhas mãos se congelaram rapidamente e a sensibilidade desapareceu. Quando finalmente consegui guardar tudo coloquei minhas mãos nas axilas para aquecê-las. Pela primeira vez tive uma sensação de medo ao ver o quão rápido as coisas poderiam dar errado. Senti um novo respeito pelo lugar onde estávamos e me prometi tomar muito mais cuidado daqui para frente. Tudo nesta montanha é agressivo, o frio, o vento e até o sol. No dia anterior trabalhei sem filtro solar e hoje a pele ao redor das minhas narinas estava roxa e ardia muito. 

Apesar de tudo caminhei e trabalhei super forte sem me cansar mostrando não só que estava aclimatado, mas em ótima forma física. Mais uma vez uma onda de otimismo me invadiu.

 

31/05/09 – Campo 2

 

Hoje, de acordo com o plano, iríamos levar parte do equipamento a um campo intermediário, mas ao sairmos da barraca vimos que isso não iria acontecer. O tormenta tinha vindo para ficar o tempo não podia estar pior. Vento, nevasca, frio e visibilidade zero nos fizeram voltar para o calor de nossos sleeping bags. Esperamos até as duas da tarde para ver se o tempo melhorava, mas conforme as horas foram passando vimos que o dia seria de descanso forçado.

Nosso animo só piorou quando conversamos com dois italianos que tinham ficado vários dias no Campo 4 e tinham descido sem nem ter feito uma tentativa. O vento forte os havia impedido sair do campo alto. Lembrei do que a Ana Boscarioli tinha me contado de sua tentativa ao cume quando os ventos fortíssimos tinham a feito voltar a 200 metros do cume. O clima durante o dia todo foi de expectativa e preocupação. Apesar disso tentei me manter calmo, afinal sabia que estas tempestades faziam parte da experiência de escalar o Denali e tínhamos tempo suficiente para esperar. E, no fim, se não fizéssemos o cume, sabia que a experiência seria muito importante e que estávamos aprendendo muito. 

O dia foi bem desconfortável, pois durante a noite o vento havia rasgado a barraca cozinha e quebrado a haste de estrutura. Após alguns consertos improvisados ela estava usável, mas ventava e nevava dentro e quase não havia diferença de temperatura entre o lado de dentro e o de fora. Mesmo assim passamos várias horas lá, pois após a longa noite e a manhã que passamos dentro da barraca sentíamos a necessidade de ficar de pé ou sentado.

À noite conversamos muito e todos estavam muito mais descontraídos e unidos. A saturação de todos estava acima de 90 mostrando que todos estavam bem aclimatados. Despedimos-nos torcendo para que a tormenta terminasse e que pudéssemos subir no dia seguinte. Antes de dormir li mais um pouco do “The Boys of Everest” a história de um grupo de escaladores britânicos que nos anos 60 e 70 revolucionaram a escalada em rocha e gelo e que pagaram um preço altíssimo por isso. Boa parte dos personagens do livro morreu escalando, boa parte em um dos 8.000 metros do Nepal ou Paquistão. Influenciado por isso meu sono foi agitado e acordei um pouco deprimido com a sensação de ter sonhado coisas ruins, mas não me lembrava o que.  

 

01/06/09 – Campo 2

 

Durante toda a noite pude ouvir o ruído incessante do vento sacudindo a barraca e às vezes sentia a barraca gelada e recoberta de gelo tocar o meu rosto com a força do vento. Quando acordei já sabia que não iríamos sair. Estávamos mais um dia presos na imobilidade do Campo 2.

O dia transcorreu entre leituras, conversa na cozinha gelada e cavando para tirar a neve que caia sem parar e que ameaçava soterrar nossas barracas e a cozinha. A cada saída quase nos congelávamos com o frio que só piorava. Este frio é uma coisa nova para mim. Até então minha referencia de frio tinha sido o Aconcagua, mas aqui era muito pior. A cada vez que tiro minhas luvas para fazer algo tenho em mente o risco de congelamento. No Aconcagua era frio, mas em nenhum momento tive que me preocupar com isso. No dia que conversamos com os guias sobre o equipamento eles nos disseram que nossas luvas, a de fleece, a grossa e os mittens, eram suficientes, mas noto que teria sido muito útil ter uma intermediaria fina, mas impermeável para poder trabalhar sem molhar e gelar as mãos.

Hoje vimos ainda mais gente baixando dos campos altos sem te podido fazer cume. Tanto trabalho por nada... Os que conversaram conosco nos contavam de ventos ainda mais fortes principalmente no Denali Pass, o primeiro obstáculo no caminho entre o Campo 4 e o cume.

Durante o jantar o Chris nos deu uma noticia que deixou a todos tristes e desanimados. A previsão de tempo dizia que a tormenta duraria mais cinco dias! Cinco dias! Se isso for verdade nossas chances de cume começam a se tornar bem pequenas.  Apesar disso o Chris nos disse que amanhã deveríamos acordar cedo, pois ele queria tentar subir para deixar parte do equipamento em um campo intermediário mesmo com mal tempo. Fomos para a barraca fazendo cálculos. Se a previsão estivesse correta, daqui a cinco dias teria uma janela de bom tempo. Se nos fizéssemos o transporte amanhã, nos mudaríamos para o Campo 3 depois de amanhã e após outros dois dias estaríamos no Campo 4 prontos para subir ao cume. As janelas de bom tempo aqui são normalmente pequenas e se não estivéssemos no Campo 4 quando ela acontecesse corríamos o risco de não chegar lá em cima a tempo. Sabíamos também que subir nestas condições iria ser duro e ficar nos campos mais altos com mal tempo muito sofrido, mas mesmo assim preferíamos subir e encarar isso a ficar no Campo 2 e deixar a janela escapar.

Fomos dormir animados e preparados para um dia duro de escalada com mal tempo.

 

 

 

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Início da expedição ao Denali (McKinley), Alaska


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 23/06/09 às 19:33 na(s) categoria(s) Todos posts
 

 

Neste e nos próximos boletins conto os dezoito dias que estivemos escalando o Denali (McKinley).

 

25/maio/09 - Anchorage – Talketna – Campo Base

 

Desde cedo já estávamos acordados acabando de arrumar o equipamento e deixando prontos os últimos detalhes que sempre ficam para a última hora. Mas, não só isso nos tinha tirado cedo da cama. Hoje era o grande dia, o início de nossa expedição ao Denali, nosso maior desafio desde que começamos nosso projeto “Rumo ao Everest”.

As sete da manhã, partimos para uma viagem de 3 horas a Talketna, a pequena cidade de onde tomaríamos o vôo ao campo base. Para minha surpresa, imagens de Alaska como um lugar ermo, viajamos por uma highway americana. Mesmo assim a viagem foi bem bonita com muito verde e poucos sinais de civilização. No meio do caminho uma parada para nossa primeira visão do Denali aparecendo entre as nuvens e muito acima de todas as outras montanhas da Alaska Range. O cume estava cinco quilômetros acima de nós, inacessível. Dali era difícil pensar que em talvez menos de 15 dias iríamos estar lá em cima.

Chegamos ao pequeno aeroporto de Talketna, pesamos nossos equipamentos e calçamos nossas botas duplas que por muitos dias seria nosso único calçado. Não havia uma hora fixa para sairmos, dependia do tempo, de quantos grupos tinha antes do nosso e da disponibilidade de aviões. Fomos então ao escritório do parque nacional onde nos fizeram uma apresentação em Power Point sobre a montanha com ênfase em segurança e o que fazer com lixo e dejetos orgânicos. E daí nos sentamos ao lado da pista para esperar o vôo. Olhava com fascinação os pequenos aviões com skis nos quais em breve embarcaria. Após uma hora nos chamaram e em poucos minutos estávamos voando sobre uma das paisagens mais alucinantes que já tinha visto.

Montanhas e montanhas recobertas por glaciares repletos de cravasses, picos rochosos pontiagudos e tudo isso raspando em nossas asas. Não sabia se filmava, fotografava ou se simplesmente ficava olhando hipnotizado este que era o mais lindo vôo que já tinha feito. No rosto da Andrea e dos outros seis companheiros de escalada podia ver os mesmos sentimentos. Mesmo acostumado com a grandiosidade dos Himalaias, a escala dessas montanhas me surpreendeu. Até onde a vista alcançava só se viam montanhas, glaciares e vales nevados. Estávamos sobrevoando o mais longo glaciar da América do Norte com mais de 90 quilômetros de extensão

Após uma larga curva perdendo altitude apareceu um platô de neve, nosso campo base, e deslizamos suavemente até pararmos. Antes que pudesse perceber já estávamos fora do avião com todo nosso equipamento empilhado na neve e o avião já tinha decolado em busca de mais escaladores. Só quando ele se foi e tudo de tornou silêncio que minha mente se aquietou o suficiente para admirar o lugar onde estava.

Só havia duas cores, o branco da neve e gelo e o azul do céu. Chris, nosso guia principal, nos contou o nome das montanhas ao nosso redor, mas neste momento não guardei nenhum. Apenas admirava deslumbrado. Nesta paisagem iria passar semanas. Que felicidade me invadiu!

Mas, não tivemos muito tempo para admirar tudo isso. Tínhamos muito trabalho a fazer. Caminhamos alguns metros até onde existiam várias plataformas na neve e ao redor de umas 40 barracas. A primeira missão foi construir uma grande plataforma na neve para montar nosso acampamento, cinco barracas Mountain Hardwear Trango 3, iguais a que tenho e que gosto muito. Por ao redor de uma hora trabalhamos duro até que o Chris ficou satisfeito. Por alguns instantes houve certo incomodo já que havia duas barracas para três pessoas e três barracas para duas pessoas cada. Os três guias ficariam em uma das barracas triplas, mas precisávamos de voluntários para ficar na outra. Como eu e a Andrea éramos um casal nos deram uma dupla e o Anush, o Richard e o Peter se voluntariaram para dividir a outra tripla. A dinâmica dessa barraca tripla seria motivo de inúmeras brincadeiras durante toda a expedição, pois Anush era sempre o atrasado e culpava o Richard que ocupava muito espaço que culpava ao Peter que tinha o melhor lugar na barraca e assim por diante.

Se pensamos que poderíamos descansar, e descanso estávamos precisando já que tínhamos dormido muito pouco, estávamos enganados. Ainda havia muito trabalho para fazer para deixar tudo pronto para o próximo dia. Começamos arrumando os trenós que usaríamos para levar parte do equipamento até o campo dois. Arrumamos os cordins que penderiam o equipamento, o outro que ligava o trenó a nossa mochila de forma que se caíssemos em uma greta ele não nos machucasse. Também fizemos chest harness, um sistema de nós na altura do peito para que se caíssemos em uma greta pudéssemos ficar de cabeça para cima e não ao contrário pelo peso das mochilas. Só terminamos tudo às nove da noite e após comer pizzas trazidas de Talketna entramos para o conforto de nossos sleeping bags menos 53 graus centígrados para uma curta noite de descanso merecido.

 

26/maio/09 - Campo Base – Campo 1

 

Fomos acordados as três da manha, já com a luz do maravilhoso verão do Alaska, uma noite muito curta. Só que entre o acordar e o começar a caminhar teve quatro horas de preparos. Derreter neve para o dia, preparar e comer o café da manhã, desmontar as barracas, preparar as mochilas e os trenós, usar pela primeira vez o CMC, clean mountain container, nossa privada portátil na forma de um cilindro de plástico rígido de 40 centímetros de altura por 30 de diâmetro com um saco plástico biodegradável, se encordar e finalmente partir, tudo isso demorava uma eternidade. E pela primeira vez nos deparamos com o frio e os ventos da montanha e isso que estávamos apenas a 2300 metros de altitude.

                                           Nosso banheiro

Na conversa que tivemos em Anchorage nos contaram que este seria um dos dias mais duros de toda escalada, não por desnível vertical, apenas 300 metros, mas pela distancia horizontal de oito quilômetros, bastante neste tipo de terreno e principalmente pelo peso que carregamos. Eu estava com uma mochila de trinta quilos e mais ao redor de vinte no trenó! Desde o meu trekking no Rowaling Valley no Nepal que não levava tanto peso. O outro problema foi a falta de costume de puxar o trenó. A cada passo ele dava um tranco na cintura e após duas ou três horas eu já sentia dor em músculos que antes nem sabia que existiam e no final do dia contava os minutos para cada descanso que ocorria a cada hora de caminhada. O que compensava era a paisagem maravilhosa que nos rodeava. O dia estava lindo com céu azul e razoavelmente quente e caminhava de camiseta e uma camada só nas pernas. Não sabia que seria a última vez que poderia me vestir assim em dezoito dias de escalada...

Caminhamos por sete duras horas e os últimos dois quilômetros foram de pura agonia por dor muscular. A mochila pesada descansava de forma muito incomoda sobre os meus ombros já que o cinto dela não dava muito apoio por causa da cadeirinha (harness) que ocupava o lugar onde o cinto normalmente ficava. E o campo não chegava... Ele estava em uma depressão e só quando já estávamos em cima dele que ele se mostrou.
Ao chegar ao campo a rotina do dia anterior se repetiu, cavar uma plataforma, montar as barracas, prendê-las o mais solidamente possível na neve com estacas de gelo e daí um trabalho novo, construir a cozinha/sala de estar, um enorme buraco de quatro metros de diâmetro por dois de profundidade no gelo e neve e cobri-lo com uma barraca na forma de uma pirâmide. O resultado final era fantástico, lugar para cozinhar, assentos para todos comerem sentados, prateleiras para guardar mantimentos, tudo de neve e protegidos dos ventos inclementes que nos acompanharam expedição a fora. Mas, para isso havia que trabalhar ao redor de 4 horas!

Também neste dia a fome me incomodou bastante e iria me perturbar por toda expedição. Existe uma fina linha entre levar comida suficiente para toda a expedição e não levar coisa demais por causa do peso. Eu como muito e necessito de pelo menos quatro mil calorias diárias para uma montanha como essa. Para mim, a equação não funcionou e perdi muito peso. Também hoje cometi um erro estratégico que ajudou a deixar o dia ainda mais difícil. Estou acostumado em escalar em gelo e andar em glaciares encordado, mas quando paramos, o grupo se junta para conversar e comer juntos. No Denali o perigo de cair em gretas é tão sério que mesmo nas paradas continuamos encordados e com a corda esticada entre um e outro. Tinha deixado meu almoço com a Andrea e quando paramos, ela estava longe de mim.

Jantamos uma comida maravilhosa e fomos dormir exaustos já mais de dez da noite, um dia de dezenove horas com muito esforço e muita beleza.

 

27/maio/09 - Campo 1 – próximo ao campo 2 – Campo 1

 

Durante a noite, nas várias vezes que acordei, escutei o suave ruído da neve caindo no teto de nossa barraca e a neve não parou de cair durante todo o dia. A programação de hoje foi levar parte de nosso equipamento para próximo ao campo dois, enterrar na neve lá e voltar ao Campo 1. Eu e a Andrea decidimos não levar o trenó e fazer uma mochila mais pesada. Isso funcionou as mil maravilhas, pois estamos acostumados a carregar peso nas costas, mas não com o trenó.

O dia teria sido mais ou menos tranqüilo não fosse o mau tempo. Nevasca acompanhada de uma neblina que cobria tudo nos impediu de ver por onde andávamos e com isso de ter a distração da linda paisagem. Estávamos em uma fila de doze escaladores divididos em três cordadas e muitas vezes não conseguia ver mais do que três ou quatro. Outras vezes, a neblina estava tão forte que parecia que caminhava em um mar de leite. Mesmo assim foi infinitamente mais fácil do que o dia anterior.

Acordamos às cinco da manhã e sem ter de desarmar as barracas estávamos prontos para sair às oito. Caminhamos por cinco horas e ao chegarmos os guias cavaram um buraco de dois metros de profundidade enquanto tiritávamos de frio. Enquanto andávamos o frio estava sob controle, mas a cada pequena parada tínhamos de nos agasalhar muito. Deixamos no buraco, cachê no jargão de montanha, a comida e combustível extra que havíamos trazido além das roupas mais quentes que usaremos nos campos mais acima e voltamos ao Campo 1.

Neste dia, estreamos dois novos equipamentos, os googles (óculos para nevascas usados também em ski) que se mostraram extremamente confortáveis e também os snow shoes que eram chamadas de raquetes de neve. Como estava nevando muito, ficou difícil andar com as botas duplas apenas e colocamos os snow shoes. Que diferença! De repente não afundava mais e caminhava com facilidade. Ah, se eu tivesse tido snow shoes na minha última tentativa do Mera Peak no Nepal quando por horas tentamos avançar enquanto afundávamos em neve fofa até os joelhos...

Enquanto caminhava pelo nevoeiro minha mente divagava e pensava nas nossas chances de fazer este cume. Se aqui está assim, lá em cima a coisa deve estar muito difícil. Pensava também no Cho Oyu e nas dificuldades de escalar um 8.000. Será que vou dar conta? Flutuo entre momentos de otimismo e falta de confiança. Agora estou forte, saudável e bem preparado psicologicamente para esses desafios, mas sei por experiências passadas que tudo pode mudar de um dia para o outro. Por ora, o truque é permanecer no presente e curtir cada momento desta linda montanha.

Como chegamos mais cedo tivemos tempo finalmente de conversar e conhecer melhor o grupo que, percebemos, e bem heterogêneo em termos de preparo físico e experiência em montanha. Richard é inglês, gerente de uma fábrica e escala há vários anos nos Alpes e na Escócia na Inglaterra. A taxa de sucesso do Denali é de 48%. Se nossa expedição tiver essa taxa apostamos no Richard para um dos que farão cume. Peter é nosso segundo candidato. Escocês e também experiente em escaladas em gelo e rocha está se preparando assim como nós para o Cho Oyu em agosto e Everest em março. E policial e mora perto de Manchester. Também tem vontade de fazer os Sete Cumes. Aljosa é da Slovenia, trabalha com importação de bebidas alcoólicas e tem bastante experiência não só em escalada, mas também em vários outros esportes de aventura como pára-quedismo e parapent. Outro bom candidato ao cume. Pascal tem a mesma idade da Andrea e é bem menos experiente e bem preparado, mas simpatizei bastante com ele. É austríaco, mas mora em Londres onde trabalha no mercado financeiro. Anush é indiano de Madras, mas mora em San Francisco. É brincalhão ao ponto de incomodar as vezes e é o palhaço da turma. É garantido escutar ruidosas risadas quando esta por perto e acampar ao seu lado significa dormir e acordar com sua voz. É razoavelmente inexperiente e apesar de parecer forte não creio que consiga chegar até o cume. Trabalha com programação de internet como todo bom indiano. George é o mais velho da expedição tendo 55 anos, mas parece ser 10 anos mais velho que eu. Já hoje teve problemas para acompanhar o grupo e o grupo teve que caminhar no seu passo. É canadense e tem várias empresas. É também, sem dúvidas, o mais rico do grupo. Ansi é da África do Sul, tem ao redor de 45 anos e é a mais inexperiente tendo feito apenas o Elbrus, Aconcagua e Kilimanjaro. Nunca fez escalada em gelo e sua experiência com crampons se resume ao Elbrus. Seria outra candidata a não fazer cume.

E, claro, que entre os candidatos ao cume na nossa avaliação estamos nós dois...

 

 

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Saindo para o Denali (McKinley)


Publicado por MANOEL AUGUSTO MONTEIRO MORGADO em 25/05/09 às 04:57 na(s) categoria(s) Todos posts
Não sabia mais se era de manhã ou à noite, se era hora de comer o café da manhã ou jantar, minha cabeça doía, meus pés estavam inchados e os olhos vermelhos. No entanto, não conseguia tirar os olhos da pequena janela do avião. Abaixo de mim e até onde a vista alcançava eram montanhas cobertas de neve, glaciares e rios congelados. Eu deveria ter esperado por isso, afinal estava chegando ao Alaska, mas acho que devido a grande correria dos últimos dois meses nem tive muito tempo de pensar o que nos esperava em termos de paisagem. Só sabia uma coisa, tinha vindo para escalar o McKinley, ou como prefiro chamar usando o nome local Denali, “Grande Montanha” com 6193 metros.

Havíamos saído de Katmandu para uma seqüência de vôos que não recomendo a ninguém:

Katmandu – Delhi – New York – Houston – Anchorage

Foram 44 horas entre vôos e aeroportos. Desembarcamos às 8 da noite, digo do dia já que nesta época do ano a noite dura não mais do que 3 ou 4 horas, e fomos para o nosso bed and breakfast, uma simpática casa não muito longe do centro. Anchorage e uma cidade de 300.000 habitantes, pacata e cercada de montanhas salpicadas de neve. Ruas largas, mais de 150 quilometros e ciclovias, malls, gostosos restaurantes. Me lembrei muito de minhas estadas na Austrália, em Hobart e Camberra. E gostei...

Chegamos 4 dias antes da partida para a montanha para ter tempo de descansar e superar a terrível diferença de fuso de 14 horas. Aprendi da maneira dificil o quanto isso pode ser prejudicial. No ano passado acabei perdendo a chance de cume no Aconcagua por um erro assim. Desta vez queria ter certeza de que iria entrar na montanha da melhor forma possível.

Nos dias que aqui estivemos acabamos de comprar nosso equipamento, comemos muito e dormimos a suficiente, andamos de bicicleta pela cidade e deixamos nossa vida profissional a mais arrumada possível afinal serão vinte dias na montanha incomunicáveis.

Hoje, 24 de maio conhecemos nossos outros sete companheiros de escalada alem dos três guias. No primeiro contato nos pareceram um pouco frios, mas estando acostumados a receber grupos brasileiros onde após dez minutos todos já são amigos precisamos dar desconto para o caráter de americanos e europeus, que demoram um pouco para aquecer.

Foi estranho estar do outro lado de minha vida profissional, ou seja, ao invés de guia, cliente. Hoje foi a revisão do equipamento e foi interessante ver a forma como outros guias fazem aquilo que faço com todos os grupos que recebo. Nosso equipamento estava em perfeita ordem e não foi necessário comprar mais nada. O shopping frenzy dos últimos dias deu resultado!

Amanhã as 7:30 partimos para Talketna, uma pequena cidade a três horas daqui de onde, se o tempo estiver bom, tomaremos o pequeno avião ao campo base. Depois de amanhã já estaremos fazendo nosso primeiro dia de escalada, uma longa caminhada com snow shoes do campo base ao campo um, pouco ganho de altitude, mas muitas milhas de deslocamento horizontal com mochilas de 30 quilos e puxando trenós de 20! A partir daí serão sempre duas viagens de campo a campo, uma para levar parte do equipamento e voltar ao campo original e a segunda com outra parte do equipo e ficando no campo mais elevado. E neste sistema de yoyo chegaremos até o high camp de onde, com o tempo permitindo tentaremos o cume.

Quem quiser acompanhar diariamente o que está acontecendo na montanha pode acessar o link: http://may242009denali.blogspot.com (em inglês)

Deseje-nos boa sorte!      

 

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