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DIMAS MATTOS
Dimas Mattos é piloto de moto e empresário, esteve presente em 13 das 16 edições do Rally dos Sertões. Compete pela categoria Brasil Aberta, para motos acima de 450 cilindradas. Sempre bem humorado, mesmo com todos os percalços do rali, Dimas conta neste espaço todos os detalhes e bastidores de sua participação na prova.
30/06 - Parabéns ao Campeão!
A história de hoje não é minha, é de um rapaz que eu conheço há muitos anos e que faz um esforço gigantesco na sua preparação e em outras coisas, e que tem um jeito despojado e humilde de ser. E, por esse motivo as pessoas, nem imaginam o trabalho que ele faz. Eu falo do Zé Hélio.

Eu tenho um carinho enorme por ele e acompanho a carreira dele há muitos anos. Quando a Honda me chamou para eu convidar um piloto para andar na moto deles, não tive dúvida de que esse piloto teria que ser o Zé.

Então o chamei para a nossa equipe e ele conquistou o Sertões no ano passado, e muitos alegaram que foi sorte. E esse ano fizemos mais uma vez um bom trabalho e ele provou que não foi sorte, que foi uma extrema competência, e eu estou muito feliz por ele. Independente dos problemas que eu tive, do rali que eu fiz, eu estou feliz porque foi a segunda vitória dele com uma equipe oficial e é a prova de um trabalho muito legal que ele fez, fez a parte dele, e também o trabalho que nós fizemos por fora, como equipe, porque rali ninguém ganha sozinho.

Estou muito feliz, mais uma vez eu repito, e queria usar esse espaço para dar os parabéns para o Zé Hélio e ele fez por merecer, não foi por acaso. Ele se preparou muito bem. Nós preparamos a moto de uma forma espetacular, e conseguimos esse resultado. Parabéns, Zé Hélio! Parabéns para a nossa equipe também!
26/06 - Bons de garfo e limpinhos!
Uma característica da nossa equipe é a preocupação com a alimentação de todos. A minha esposa, Cristina, faz todo o cardápio do que vamos comer durante o rali. Congelamos tudo aqui no motorhome e de acordo com o cardápio, o Amauri, que é motorista, financeiro, cozinheiro e braço direito; vai descongelando as misturas e preparando o arroz, feijão – e ele faz um feijão espetacular. Então hoje, por exemplo, teve bobó de frango, lagarto, lingüiça e azeitona dentro, maravilhosos.

A nossa equipe é a única que engorda, por incrível que pareça. O Ludovic Boinnard vinha emagrecendo, e pensou que aqui ia emagrecer mais. Mas ele manteve o peso por causa da alimentação. Eles brincam que é a Santa Cristina! Todos os dias ela prepara janta e ceia, pois não almoçamos. A comida é fantástica, cada dia uma bela surpresa. Você não faz idéia dos pratos do pessoal. Se fosse por quilo, a galera ia dever demais.

Aqui o pessoal se alimenta mal e não se pode correr esse risco. Fora a chance de pegar algo estragado. Nós proibimos a equipe de comer fora do esquema, tem que comer aqui dentro. Come-se muito bem para ninguém passar mal, como é já há anos.

O Sandro, responsável pela limpeza pega jaqueta de cada piloto, tudo o que está nos bolsos ele transfere para os bolsos da jaqueta do lado, idêntica. Na jaqueta suja, dá um jato forte de água para tirar o grosso e vai para a máquina de lavar. Poderíamos ter até um patrocínio de sabão porque acabamos usamos demais. Vemos pilotos que começam o rali de branco, mas no terceiro dia tão marrons. Não é fácil manter a cor né, mas no nosso esquema, a gente sempre larga branquinhos.
26/06 - Recuperação na trilha
Eu estou bem contente porque ontem eu voltei definitivamente para o rali, e o objetivo agora é chegar em Natal (RN), rodando, andando de moto, que é o que eu mais gosto de fazer.

A nossa preocupação era com aquela dor na coluna. A dor continua, mas os exames não acusaram nada sério, o que nos tranqüiliza, mas eu não posso ficar dando muita pancada, então optei por andar mais tranqüilo ontem. Até brinquei com isso e prometi para a equipe que andando mais leve, ficaria entre o vigésimo e o trigésimo. E fiquei em vigésimo primeiro! Dentro do prometido! Eu prometi também que eu não ia abusar.

Mas largar lá atrás enche seu ego porque você passa tanta gente que é muito gostoso. E ao mesmo tempo eu acabei tomando um perdido porque é tanta gente que erra, que você acaba se confundindo também. Mas me encontrei, voltei para a prova e ontem foi um dia mais normal, mas foi muito prazeroso já que consegui voltar a rodar tranqüilo, sem tombo, zeradinho... estou muito contente.

E voltando aos perdidos, é impressionante como as pessoas se perdem! É marca para todo lado, e quando você anda lá na frente não tem quase marca no percurso então você faz o seu percurso, e com bastante marca, já que eu larguei quase em último, então imaginem as marcas. Isso foi bem engraçado ter acontecido, mas foi uma especial bem gostosa!
24/06 - O melhor rio do mundo!
Eu voltei a andar justamente na especial mais longa da história do Rally dos Sertões, de cerca de 530 quilômetros. Estava tudo bem até o quilômetro 400, onde a moto começou a fazer uns barulhos diferentes e foi perdendo rendimento, o motor apagou, tive um problema de válvula. Eu fiquei no meio do nada, da caatinga.

Um lugar bastante complicado, não tinha sombra, caatinga mesmo de castigar. Olhei na planilha e 3 quilômetros depois, tinha uma ponte e esperava que tivesse um rio. Coloquei a moto num local visível, pois a organização aparece e carrega. Deixei um bilhetinho engraçado, pois no lugar que eu parei tinha uma garrafa de velho barreiro e uma de conhaque São Joaquim da Barra. Coloquei as duas garrafas do lado do pneu e o bilhete dizendo: Amigos da técnica, como vocês demoraram muito para me resgatar, eu tomei as duas garrafas sozinho e não deixei nada. Agora eu vou cambaleando até o rio daqui a 3 quilômetros para me refrescar. Estou esperando vocês com a moto, hein? A gente tem que brincar, né?

Fui caminhando, mas é impressionante, o ser humano anda 5 quilômetros por hora, pensei que em 40 minutos estaria lá. O ser humano aqui não considera que está com bota de motocross, joelheira e calça andando na areia fofa e sob um sol de 40ºC. Foi mais de uma hora de caminhada para míseros 3 quilômetros. Quando tinha uma sobra, eu caia de joelhos e ficava descansando.

Ainda bem que eu ainda tinha água e chegando no ponto, eu avistei uma caminhonete da equipe e eles me receberam com água gelada. O rio era caudaloso, com mais ou menos 1 metro de profundidade e de longe, via o fundo do rio, água cristalina, geladinha, maravilhosa!

Foi um presente, arranquei a roupa no caminho, cheguei de bermuda e tchibum. Engraçado que como coisas simples, dependendo do momento, tornam-se maravilhosas. O rio realmente foi refrescante.

Eu quebrei às 11 da manhã e fui chegar no acampamento às 11 da noite. É uma via sacra que tivemos que fazer. A equipe técnica foi muito gente boa, deixo meu agradecimento, mas eles vão parando em todos os carros quebrados, todo mundo com problema. É uma via sacra mesmo! Não deu tempo de trocar o motor para hoje, então amanhã eu estou re-largando no Sertões.

Hoje fui o chefe de equipe, fui no final da especial, levei água, sanduíche, abasteci motos. Mas um dia só ta bom e quero voltar a pilotar!
23/06 - Incidentes e mais acidentes
Tudo começou com uma bela gripe, daquelas que derrubam mesmo, que se você estivesse em casa você ficaria na cama o dia inteiro. E é lógico que não vou abandonar o rali por causa de uma gripe, mas ela me atrapalhou, me desconcentrou e isso fez eu errar uma curva.

Eu perdi um pouco mais de tempo olhando para a planilha, para identificar uma curva, porque durante a corrida é como se você tirasse uma foto da planilha, você bate o olho e volta para a pista, e quando eu percebi estava em cima de um mata-burro em uma curva.

Para não bater no mata-burro eu acelerei e pulei, só que como era uma curva, eu varei a curva e tinha uma cerca de arame de fio liso, daqueles seis fios grossos lisos. E foi engraçado porque os mourões longes funcionaram como uma mola. A moto bateu na cerca e voltou e voou por cima dela, daí caiu do outro lado da cerca, e eu, obviamente, debaixo da moto.

Levantei e vi que destruiu no road-book porque o último arame enroscou nele e torceu. Então levantei a moto e resolvi cortar a cerca e peguei meu alicate. Fiz uma força descomunal e não consegui cortar um fio, de tão grosso. Então subi na moto e fui procurar a porteira. Andei um pedaço do pasto e não achei. Fui para o outro lado e vi que o pasto descia e subia e a cerca ia embora. Então voltei para o outro lado. Daí, resolvi entrar na mata e vi uma cerca de arame farpado e percebi que aquela eu conseguiria cortar. Parei de novo, peguei o alicate e cortei a cerca. Então, voltei pra estrada!!

Como tinha perdido o road-book, eu tinha que seguir alguém porque estava sem navegação. Fui pegar meu óculos, e cadê? Ele tinha caído. Fui até o ponto onde pulei a cerca, parei a moto na estrada, pulei a cerca de novo a pé, para procurar o óculos, e nisso passou um amigo meu que disse que não entendeu nada. Ele viu minha moto na estrada, eu do outro lado da cerca procurando alguma coisa no mato! Achei o óculos, finalmente! Pulei a cerca de novo, pela terceira vez, e voltei para a estrada. Essa foi a parte engraçada da história.

Aí vem a parte terrível: Andei 100 quilômetros na poeira, segui um homem que estava bem na corrida, então fui em um ritmo forte, e sem navegar, e não podia perder a poeira dele senão ia me perder. Por isso, fui passando rápido por obstáculos e acabei assumindo um risco. Na hora do calor da prova você assume riscos que depois com a cabeça fria você pensa que não deveria ter feito.

Fui atrás dele até o posto de abastecimento, no quilômetro 302. Cheguei uns vinte segundos atrás dele e na relargada, quando deu os vinte segundos, eu avisei que já tinha dado meu tempo, mas o rapaz que lá estava falou que ainda faltavam 30 segundos. Isso me deixou louco da vida! Esperei 50 segundos e fui atrás dele, mas ele estava muito na frente e para quem vinha atrás de mim, tinha um longo tempo também. Então tive que buscá-lo para voltar a andar na poeira dele.

Dois quilômetros depois do abastecimento, estava numa estrada rápida, eu devia estar a uns 100 km/h, o terreno afundava e passava um rio, e quando eu vi o rio, estava muito em cima e acelerei para passá-lo, já que não teria tempo de frear. A moto bateu na rampa de subida do rio, e desviou um pouco e entrou um palmo para dentro do mato. Se fosse um mato normal, eu sairia normalmente, mas tinha uma pedra de um metro de altura, aproximadamente, bem escondida no mato e eu bati nela a uns 90 km/h e voei bastante. Destruiu a frente da moto, o entortou eixo, destruiu a roda, e acabou o dia para mim ali e estragou as minhas pretensões.

Eu estava feliz porque estava entre os dez primeiros, numa prova com mais de trinta estrangeiros e agora, como era etapa maratona, eu não pude consertar a moto e voltei só na sexta etapa, a de hoje. O Jesus botou minha moto em ordem.

Desta forma não dá nem para chamar de “uma corrida de recuperação”, porque foram dois dias fora, mas não abandonei a prova porque, primeiro, eu gosto muito de andar de moto, e em segundo é muito ruim abandonar a prova depois de um acidente porque isso fica na cabeça. Aí na próxima prova você vai saber que na última vez que você andou, foi um belo chão que você tomou. Então eu volto tranqüilo para o Sertões, querendo chegar em Natal (RN).

Eu tive uma compressão na cervical por causa do acidente que doeu bastante, mas estava com o equipamento de segurança, que me protegeu bastante. Tirei um raio-x e os médicos me examinaram e não apareceu nada. Então estou pronto e liberado para andar!
21/06 - Repouso, hoje?
Já faz uns três dias que eu estou gripado e anteontem eu piorei bastante. Sabe aquelas gripes que te derrubam e você quer ficar de cama? Pois é...

Eu estava bem ruim ontem e até durante a especial eu tive vontade de vomitar. Mas aí fui no médico e tomei um litro de soro, me deram umas injeções e já estou me sentindo um pouco melhor.

Mas é aquela coisa de rali, né, porque o médico te fala: “Olha, você está muito gripado então, faça repouso”. Mas eu vou para a especial mais dura do Sertões gripadão! (risos)

É isso que é interessante no rali, o que nos faz conhecer nossos limites e ultrapassá-los. O problema é que não deu nem pra descansar ontem porque a planilha era muito grande! Em uma hora, fiz 100 quilômetros, sendo que o percurso tem mais de 400!

Mas é legal que mesmo com essas dificuldades eu consegui andar bem, fiz uma especial gostosa e fiquei entre os dez primeiros, e essa conquista é muito gratificante!
19/06 - O estudo das planilhas
Engraçado que, na teoria, o ideal é se fechar em um lugar e fazer a planilha, quieto. Eu até tenho uma mesa no meu quarto, sento na cama e uso a mesinha; fico lá fazendo a planilha. Só que elas estão tão grandes, levam de duas horas e meia a três horas pra fazer.

Eu fico no meu quarto e, da janela vejo a equipe lá fora, só falando besteira e dando risada. Aí eu não agüento, eu largo tudo e fico com eles. É um momento de descontração, todos juntos brincando, um conta uma história, outro conta outra...

E assim a gente vai levando aqui no rali, não pode ser também ao pé da letra, se não a gente não se curte o rali, e esse é o principal.
18/06 - Reencontro familiar durante a prova
Fomos para Santa Helena (GO) para fazer o Super Prime. E eu sei que um tio meu mora por lá. E faz uns 15 anos que não o via. Pedi para o locutor da prova anunciá-lo: “O Dimas tem raízes aqui! O tio dele, Roque Matos, mora aqui. O seu sobrinho lhe procura!". Mas então descobri que ele não estava lá por perto.

Comecei o Super Prime e percebi que tinha um tempinho livre para fazer o deslocamento final. Eu sabia que ele tinha um posto de gasolina pela cidade e fui à procura. Passei por três, e no quarto posto pedi para chamar meu tio. Um menino falou: “Eu sou o Roque”. Falei que não era possível, mas logo percebi que se tratava do meu primo. Eu não o conhecia, só tinha visto ele quando era mais novo.

Acabei indo pra casa dos meus tios, foi muito legal. Até ofereceram almoço, mas não dava muito tempo, né? Aceitei um suco só. Então meu tio veio com uma graça: “Pô, Dimas, você não tinha cabelos brancos!”, só consegui dizer “pois é!”.
16/06 - Troca da moto por vacinas
(Goiânia - GO) Tantos anos fazendo rali e agora aconteceu uma coisa inusitada dessa vez. Tínhamos um patrocinador que ia trazer nossas motos da Itália, onde elas ficam. Estava tudo certo. Mas falam que são os brasileiros que deixam tudo para a última hora, mas não são não. Eles foram enrolando, deixando... E como minha moto tem uma parte de nitrogênio, ela não pode viajar em avião com passageiros, só em aviões de carga, já que é considerado produto perigoso. E avião de carga da Itália para o Brasil, só uma vez por semana.

Agendaram para chegar uma semana antes do rali. Colocaram a moto dentro do avião, recebi o 'conhecimento aéreo', comprovando que a moto vinha. Fomos até Viracopos, em Campinas (SP), buscar a moto e descobrimos que a moto não veio. E só então fomos descobrir o que houve.

A moto estava dentro do avião, e chegou um lote de vacina. Por lei, a vacina é prioridade. E eles falaram: “tem que tirar alguma coisa de dentro de avião”, olharam, uma moto. “Tira essa moto de dentro do avião”. E colocaram as vacinas.

Conclusão: há uma semana do rali me avisaram que a moto não viria e talvez chegasse em um vôo no último sábado. Sai desesperado atrás de algum esquema, peguei moto do Brasil Moto Tour, mandei vir peças de todos os cantos e preparamos uma moto para eu andar. Nisso, me comprometi com patrocinadores.

Mas aí a moto chegou no domingo, mas já tinha me comprometido. No final deu tudo certo e um outro amigo, o francês Ludovic Boinnar, vai correr com ela.

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