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Roma e Belli no Cape Epic 2011: uma experiência cega


Por Mario Roma | 06/04/2011 - Atualizada às 13:30

Mario Roma e Adauto Belli completaram o Cape Epic 2011 em uma bike Tandem
Mario Roma e Adauto Belli completaram o Cape Epic 2011 em uma bike Tandem
Foto: Divulgação Brasil Soul
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Acabou mais uma Cape Epic. Missão dada, missão cumprida, saí do Brasil com o objetivo de realizar esta epopéia de tandem com o meu parceiro de equipe Adauto Belli deficiente visual. Agora no avião, com o resto que sobrou de mim, avalio esta façanha. Normalmente quando termino uma prova longa tudo é esquecido logo após cruzar a chegada, mas desta vez não sai o cansaço do meu corpo nem de minha mente os inúmeros segundos de força, medo, respeito e alegrias.

Não tem como descrever o que vivi com Adauto na Tandem da RC Bikes nestes últimos oito dias pela África. Minha sensação é que teria de dar uma volta ao mundo de avião para descrever o que vivi e acho que isso se transformaria em um livro de tantos momentos épicos, descidas a mais de 70 kh/h segurando em meus braços uma bike com mais de 3 metros, 140 quilos e levando atrás uma pessoa cega. Não tinha nem como imaginar correr o risco de uma queda, pois seria algo impossível. A tensão é enorme, ao mesmo tempo relatando o que vinha pela frente, quando momentos como esse terminavam, vinham as enormes subidas onde a força foi necessária para vencer os 14000 metros de ascensão que percorremos. É surreal!

Nossos últimos três dias de prova foram além da emoção. Em uma das últimas etapas nossa amiga Raquel sofreu um acidente e paramos para socorrê-la. Antes disso já havíamos tido dois furos e estávamos atrasados, mas isso não era motivo para passar reto. E ali fiquei com meu parceiro cego e a Raquel completamente ensangüentada, e aquela bike enorme e os outros bikers descendo a milhão. Tinha de olhar três ações ao mesmo tempo, ficar de olho no Adauto, acudir a Raquel e ter o cuidado de não sermos atropelados pelos bikes descendo em alta velocidade. Que sufoco... Mas os médicos chegaram e fomos para a segunda área de apoio da etapa, onde a Raquel, mesmo estando gravemente acidentada, deu um show de boa disposição e humor.

Último segundo - E eu vivendo tudo aquilo in loco, minha cabeça não parava de processar o que estava ocorrendo: piloto de tandem, apoio de cego, fazendo resgate, tradutor, e tudo isso acontecendo e o relógio correndo. Após tudo ficar certo e os médicos decidirem levar a Raquel para o hospital, encaixamos nossas sapatilhas e partimos de novo. E o tempo ia passando, e eu me perguntava em silencio se iríamos conseguir chegar antes do tempo limite de prova. Recebemos a primeira informação faltando 30 km que estava apertado o nosso tempo e começamos a fazer uma força para além do natural, chegamos na placa de 10 km para chegada já exaustos e uma outra informação veio que estávamos em cima do muro para sermos cortados.

Iniciamos então uma verdadeira batalha entre nós mesmos, os dois gemíamos a cada pedalada, o percurso ia ficando mais complicado, entre a dor, a força e o sonho com uma estrada aberta para podermos acelerar a tandem, a realidade era de um piso de areia com calombos que a bike não acelerava de forma alguma. Finalmente entramos no singletrack, escutamos o som da área e o comentarista dizendo que faltavam 43 segundos para o corte. Aí não pedalamos, literalmente nos matamos por um single com uma tandem. Saímos de uma curva, entramos no gramado e o pórtico de chegada estava ali, há poucos metros. O locutor e umas boas centenas de pessoas começaram uma contagem regressiva. Dez, nove, oiito... E nós dois cegamente levantamos na tandem e iniciamos um sprint que não era natural, e cruzamos a chegada no último segundo.

A emoção era geral. Crianças e adultos choravam, a pele estava arrepiada de tanta emoção, e nos abraçamos pela conquista pessoal e de equipe inexplicável que tínhamos vivido neste dia, para nossa surpresa o fiscal da UCI caminhou para nós com o alicate na mão e cortou nosso numeral. Mas instantaneamente me olhou nos olhos e comentou: “sei o que fizeram lá atrás , mas tenho de seguir o protocolo. Entrem com recurso e tudo será resolvido.” E assim foi. A UCI mostrou que alem de competição, primeiro esta o lado humano em ajudar o próximo. Nossas placas foram devolvidas e nessa noite comemoramos com um bom vinho tinto e na companhia da Raquel que já tinha retornado do hospital, com algumas suturas, olho negro mas felizmente nada de maior gravidade.


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