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Bicicletas de roda fixa: mais do que uma magrela de catraca presa e sem freio, um estilo de vida


Por Pedro Sibahi | 11/11/2011 - Atualizada às 14:00

Biker com sua fixa, em São Francisco
Biker com sua fixa, em São Francisco
Foto: Divulgação Masf SF
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Talvez você já tenha esbarrado com uma delas, mas provavelmente achou que era só uma estradeira nas ruas da cidade. Suas origens são incertas. Uns alegam que descendem de velocistas, outros defendem que foram criadas na rua, sem pai nem mãe. Independente de quem esteja certo, o fato é que as bicicletas de roda fixa, ou apenas fixas, têm ganhado terreno em vários lugares do mundo – e há cerca de três anos, também no Brasil.

Seu nome indica qual é a principal característica dessas magrelas: a catraca dentada (ou pinhão) da roda traseira não é livre, ou seja, ela é rosqueada diretamente ao cubo (onde a roda fica presa). Assim, girou a pedivela, a roda gira; parou de pedalar, a bike é freada – não tem essa de andar na banguela! Além disso, elas não possuem marcha e muitos adeptos também preferem que elas não tenham freios – os “pilotos” seguram a bike só com o pedal, mesmo nas descidas.

“De 10 anos para cá, as fixas começaram a aparecer mais forte em Londres, São Francisco e Nova York”, conta Pablo Gallardo, dono de três dessas fixas e sócio-fundador da primeira loja especializada de São Paulo, a Tag and Juice, na Vila Madalena (Rua Gonçalo Afonso, 99, www.tagandjuice.com.br). O designer topou com as fixas na Austrália, há três anos. Quando voltou, trouxe a bike e toda a cultura que a envolve.

Pablo também não sabe afirmar onde as fixas surgiram. “Para falar da origem, não tem como não citar as bicicletas de velódromo”, utilizadas em corridas olímpicas, também de roda fixa e sem marchas. Contudo, “para algumas pessoas, ela tem origem na rua, com os mensageiros (os curriers) das décadas de 1920 e 1930: pedalar nelas era o jeito mais simples e rápido de eles se locomoverem para as entregas, naquela época”, conta. Para alguns, incluindo Pablo, os primeiros mensageiros que usavam fixas provavelmente eram também atletas velocistas, aposentados ou não. Além disso, “se você pesquisar, todas as bicicletas eram fixas e não tinham marcha há anos atrás.”

Se a cultura das fixas começou a se espalhar pelo mundo há décadas, no Brasil ela ainda está engatinhando. São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, soma atualmente pouco mais de 400 fixers, segundo Pablo. Lá fora, as fixas já rodam em grandes números há 20 anos. “Entre 1990 e 1991, a galera de São Francisco começou difundí-la com muita força”, diz Pablo. “A fixa se espalhou principalmente por cidades planas, como Paris, Sydney e Nova York”.

“Quando voltei da Austrália, não conhecia ninguém que andava com uma bicicleta dessa. Um dia, fui a uma pedalada noturna [que acontece toda última sexta-feira do mês na Avenida Paulista, em São Paulo] e conheci um cara que tinha uma”, diz. A partir de então, Pablo começou a fazer mais contatos, formou um grupo para jogar bike-polo em uma quadra de tênis e organizou, em São Paulo, a FixOlimpix, competição com provas de técnica e velocidade sobre as duas rodas. “Há dois anos existiam 30 pessoas de fixa em São Paulo. Depois de meio ano, já eram cem”, diz, animado.

Culturalmente falando. “O pessoal que anda de fixa lá fora escuta hip-hop, hardcore, etc. É uma coisa mais de gueto mesmo, do que hype ou fashion. Mas, isso não quer dizer que não esteja em alta”. Pablo também diz que no exterior, a fixa “quase não tem a ver com saúde. Muitos não usam proteção, como capacete, e fumam e bebem pra caramba”. Essa relação da fixa com o gueto, formando uma subcultura, é similar também no Japão e nos Estados Unidos, passando pela Europa, guardadas as devidas proporções.

No Brasil, a cultura da fixa é variada. Aqui as pessoas geralmente usam a bike para trabalhar, mas Pablo consegue traçar alguns perfis de usuários: os colecionadores, que tratam as bikes como peças históricas; as pessoas que se sentem atraídas pela adrenalina de andar sem freio e marcha; os que gostam da estética e das possibilidades de cores da bicicleta; e aqueles que gostam do design simples da bike, minimalista.

Um pouco de cada perfil pode ser encontrado, segundo Pablo, na Tag and Juice. A ideia foi fazer uma loja conceito, onde as pessoas não precisassem, necessariamente, comprar uma bike. Por isso, ali há um café – que costuma ficar entupido de gente principalmente nos finais de semana à tarde, quando rola DJ –, internet sem fio de graça, material diverso sobre as fixas, como livros e objetos de arte, e, claro, as bikes à venda, feitas sob medida. O lugar também é uma galeria de arte.

Na próxima página, um pouco da cultura das fixas, com livros, músicas, roupas e filmes que permeiam a vida de seus bikers.



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